03 fevereiro 2026

Ex-deputado e lutador social, Frei Sérgio Görgen morre aos 70 anos*

Lutador histórico da causas populares, o religioso sofreu um infarto em casa, na comunidade dos Franciscanos em Candiota/RS

   Frei Sergio Görgen | Foto: Joana Berwanger/Sul21

Faleceu na manhã desta terça-feira (3) o frade franciscano Sérgio Antônio Görgen, 70 anos, conhecido como Frei Sérgio. Lutador histórico da causas populares, em especial na defesa dos pequenos agricultores e camponeses, o religioso e ex-deputado estadual sofreu um infarto em casa, na comunidade dos Franciscanos em Candiota (RS). O falecimento foi confirmado pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), entidade da qual era dirigente.

“É com imenso pesar, mas guiados pela esperança que ele sempre semeou, que o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) comunica o falecimento de seu dirigente histórico, Frei Sérgio Antônio Görgen. Frade franciscano, escritor e intelectual orgânico das causas populares, Frei Sérgio foi mais do que um dirigente; foi um pastor que escolheu o “cheiro das ovelhas” e o barro das trincheiras. Sua partida deixa um vazio imenso na luta social brasileira, mas seu legado de soberania alimentar e dignidade camponesa permanece vivo em cada semente crioula plantada neste solo”, diz nota divulgada pelo MPA.

Frei Sérgio foi deputado estadual pelo PT entre 1999 e 2002. O falecimento foi lamentado por uma série de políticos da esquerda gaúcha e lideranças de movimentos sociais em postagens nas redes sociais.

“Estou muito dolorido. Perdi um camarada de 40 anos de luta, Frei Sergio Gorgen, franciscano. Enfrentamos juntos muitas batalhas, algumas perdemos, mas sempre vencemos com o povo organizado. Deixa um legado para toda militância camponesa do Brasil. Vamos sentir muitas saudades”, escreve João Pedro Stédile, dirigente do MST.

“Com enorme tristeza recebi, nesta manhã, a notícia do falecimento do amigo e companheiro Frei Sérgio Görgen, lutador incansável do povo da terra, liderança histórica do MPA e ex-deputado estadual do nosso partido. Frade franciscano, militante das causas populares, dedicou sua vida à defesa da agricultura camponesa, da soberania alimentar, da democracia e da dignidade do povo do campo, sempre unindo fé, coragem e compromisso político”, escreveu o deputado estadaul Miguel Rossetto (PT).

“Triste notícia. Faleceu Frei Sérgio Görgen, franciscano, liderança do Movimento dos Pequenos Agricultores, deputado estadual do PT/RS e, essencialmente, um homem que dedicou a vida à luta contra a desigualdade”, lamentou o deputado federal Elvino Bohn Gass (PT).

“O Brasil e o Rio Grande do Sul se despedem de um grande lutador, um professor de coerência e coragem. Frei Sérgio sempre me lembrava das razões pelas quais lutamos e de ao lado de quem devemos estar. Meu abraço a seus companheiros e companheiras de luta”, disse a ex-deputada Manuela d’Ávila (PSOL).

Desde a fundação do Sul21, em 2010, Frei Sérgio escreveu uma série de artigos de opinião, sendo uma de suas últimas contribuições em 2024, “Questões emergentes no tempo em que vivemos”.

Natural do Rio Grande do Sul, Frei Sérgio dedicou sua militância à articulação política e espiritual dos excluídos. Foi peça fundamental na fundação do MPA em 1996.

“Sua trajetória foi marcada pelo sacrifício pessoal em prol do coletivo. Frei Sérgio utilizou seu próprio corpo como ferramenta de denúncia através de cinco greves de fome, destacando-se as lutas por crédito agrícola nos anos 90, a resistência contra a Reforma da Previdência em 2017 e a jornada pela democracia em 2018, em frente ao STF”, diz a nota do MPA.

Como sobrevivente e cronista do Massacre da Fazenda Santa Elmira (1989), ele assumiu a missão de não deixar a história ser escrita apenas pelos vencedores. Através de obras como “Trincheiras da Resistência Camponesa” e “A Gente Não Quer Só Comida”, ele teorizou e defendeu a agricultura camponesa como um verdadeiro projeto de vida.

“Frei Sérgio não apenas pregava o Evangelho, ele o vivia nas trincheiras da luta pela terra. Sua vida foi um testemunho de que a espiritualidade e o compromisso político com os pobres são faces da mesma moeda. Deixa-nos um legado de resistência e de um amor profundo pelo povo simples do campo”, diz o MPA.

*Fonte: Sul21

** Presidente Lula lamenta morte de Frei Sérgio: ‘Lutou pela alimentação do corpo e da alma’

02 fevereiro 2026

Internacional - Greve histórica em Minneapolis sob -23ºC, Obama pede cooperação mas o povo exige: “Abolição do ICE!”

 



Por Marcelo Carlini*

Na sexta, dia 23 de janeiro, sob o frio congelante de -23 ºC, 75 mil pessoas tomaram as ruas de Minneapolis reagindo ao assassinato da poetisa que participava do trabalho de proteção dos imigrantes, Renee Good pelos agentes do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos). A cidade tem 430 mil habitantes e a conurbação tem cerca de 3 milhões. Um dia depois, na mesma cidade, o enfermeiro Alex Pretti foi executado pelos membros da agência com dez tiros. Desde que Trump assumiu em 2025 já foram mortas 36 pessoas sob custódia desta força de terror.

O governo defendeu os agentes e classificou as vítimas como “terroristas domésticos”. Mas, sob pressão, afastou Gregory Bovino do comando das tropas em Mineápolis e no seu lugar colocou o “czar da fronteira” Tom Homan. Sobre o assassinato de Pretti, Trump mudou o discurso e prometeu “uma investigação”.

A mobilização de Mineápolis teve uma dimensão histórica e desta vez envolveu lideranças sindicais nacionais. A greve foi no bojo de um processo de auto-organização dos vizinhos, em rondas de monitoramento do ICE e em redes de resposta rápida por bairro em defesa dos vizinhos imigrantes. Esta articulação contrapõe-se à ação de tropas fortemente armadas e que contam com um orçamento superior ao FBI.

Numa inserção ao vivo na Globonews, um enviado do canal à cidade relatou que havia sido abordado várias vezes por moradores para que ele dissesse quem era e o que estava fazendo ali, no intuito de descobrir se ele seria um agente do ICE disfarçado de repórter.

Apesar da Casa Branca ensaiar um tom conciliatório, é certo que Trump não recuará da sua política de combate ao “inimigo interno” da mesma forma que não recuará por vontade própria de sua ofensiva fora do Estados Unidos. Não há conciliação possível com Trump, diferentemente do que o ex-presidente Barack Obama pede.

Preocupado com o “caos”, Obama lançou nota sobre o assassinato de Alex Pretti dizendo que “isso tem que parar. Espero que, depois desta tragédia mais recente, autoridades desta administração reconsiderem sua maneira de agir e comecem a encontrar meios de trabalhar de maneira construtiva com o governador Walz e com o prefeito Frey.” Mas enquanto Obama pede cooperação, a palavra de ordem que virou bandeira nacional é a abolição do ICE.

Na quarta-feira (28), Bruce Springsteen lançou uma canção “dedicada ao povo de Minneapolis, aos nossos vizinhos imigrantes inocentes e em memória de Alex Pretti e Renee Good”. A música destaca a resistência do povo à “fumaça e às balas de borracha” o uso de “apitos e telefones”, ferramentas para enfrentar as tropas de Trump. No coro com Bruce e o povo de Minneapolis, “ICE fora agora!”

*Marcelo Carlinimembro do Diretório Estadual do PT-RS

-Via site Militante Petista

01 fevereiro 2026

DOIS POEMAS DE MANUEL BANDEIRA

   


Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcaloide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada. 

..... 

Desencanto


Eu faço versos como quem chora

De desalento… de desencanto…

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.

 

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…

Tristeza esparsa… remorso vão…

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.

 

E nestes versos de angústia rouca,

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.

— Eu faço versos como quem morre.