06 julho 2026

Opinião - Do gramado à sarjeta: a queda de um símbolo nacional

Da desclassificação da seleção ao uso político da camisa amarela, artigo analisa a degradação simbólica da bandeira nacional

Balão com a bandeira do Brasil próximo a sarjeta - Crédito: Ana Valéria Sodré

Por Florestan Fernandes Jr*

Poucas horas após a desclassificação da seleção brasileira, um balão com o maior de todos os símbolos nacionais, a bandeira do Brasil, apareceu caído no asfalto de uma rua de Guarapari, cidade turística no litoral do Espírito Santo.

Quis o destino que o balão caísse ao lado da sarjeta, passando aos pedestres a impressão de que a nossa bandeira estava perto de ser engolida pelo esgoto da cidade.

O acaso nos leva a uma reflexão. De certa maneira, aquela imagem demonstra o que acontece quando a nossa paixão coletiva e o sentimento patriótico se vinculam a algo que pouco ou nada tem a ver com a verdadeira noção de patriotismo.

Infelizmente, a camisa da seleção brasileira foi alçada à condição de símbolo da Nação por razões que dizem respeito a tudo, menos à qualidade do futebol ou à aderência aos valores de pertencimento e unidade que permeiam o próprio conceito de nação. Passou a servir, inclusive, à manipulação ideológica dos fascistas que tentaram um golpe de Estado.

Há anos, quem acompanha o esporte sabe o que aconteceu. Conhece o desleixo da CBF com o futebol brasileiro e sabe como a principal entidade do esporte no país foi instrumentalizada, servindo aos interesses políticos da ditadura militar. Foi nesse processo que o futebol deixou, gradualmente, de ser um valor para os dirigentes da CBF.

Nesse sentido, vale lembrar que, em maio de 2015, pouco antes de os bolsonaristas transformarem a camisa amarela em traje fascista, o todo-poderoso ex-presidente da CBF, José Maria Marin, foi preso, acusado de envolvimento em um megaesquema de corrupção, durante uma reunião anual da FIFA, em Zurique, na Suíça. As investigações, conhecidas como Fifagate, apuravam crimes de extorsão, fraude e lavagem de dinheiro, envolvendo mais de US$ 100 milhões em propinas relacionadas à comercialização e aos direitos de transmissão de torneios de futebol na América Latina, como a Copa América e a Copa do Brasil.

Marin cumpriu parte da pena na penitenciária do Brooklyn, em Nova York.

Como se pode constatar, a camisa da seleção brasileira já vinha, havia muito tempo, sendo enlameada pelos maiores representantes da própria CBF. Não por acaso, caiu como uma luva para o grupo de golpistas do 8 de Janeiro, todos condenados por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e dano qualificado mediante violência e grave ameaça. Já ali, a CBF deveria ter feito uma ação no sentido de impedir que a imagem da instituição e seu símbolo maior, a camisa da seleção, fossem envolvidos em atos criminosos. Mas nada fez, talvez por concordância ideológica e moral.

A saída da seleção brasileira da Copa do Mundo não poderia ser mais melancólica, tendo em Neymar, principal representante do bolsonarismo no futebol, a expressão de atitudes antidesportivas que envergonham o país. Ao ofender e agredir verbalmente os jogadores da Noruega após uma derrota mais do que justa, Neymar acabou desrespeitando não apenas os adversários, mas todos aqueles que amam o futebol, especialmente os grandes craques do passado, como Garrincha, Pelé, Gérson, Rivellino, Zico, Sócrates, Falcão e tantos outros que sabiam sair de cabeça erguida do campo, reconhecendo a derrota e as qualidades dos adversários.

*Jornalista - Fonte: Brasil247

04 julho 2026

Ameaça disfarçada - Projeto de lei da bancada ruralista usa agricultura familiar como pretexto para ampliar desmatamento

Em semana esvaziada no Congresso, deputados aprovam projeto que pode dar anistia de dois anos para grandes desmatadores

Área de floresta atingida por incêndios e convertida em pastagem em Rondônia, nas proximidades de Porto Velho. | Crédito: Rogério Assis/Greenpeace

Por Luís Indriunas*

No meio de uma semana esvaziada no Congresso Nacional, a bancada ruralista conseguiu avançar com mais uma ameaça à preservação ambiental e aos povos do campo. Dessa vez, com a desculpa de que vai proteger a agricultura familiar.

Numa sessão de apenas 39 minutos na quinta-feira (02), a Câmara dos Deputados aprovou o regime de urgência para o projeto de lei 2.898/2025, que altera a Lei dos Crimes Ambientais e estabelece um prazo de até 24 meses para que o infrator se regularize antes da aplicação de sanções. Ou seja, seria necessário esperar dois anos para serem aplicadas punições como apreensão de animais, produtos e equipamentos, destruição ou inutilização de produtos, suspensão da venda e da fabricação de produtos ou embargo das atividades ao desmatador.

Encabeçado pelo deputado federal Luiz Mosquini (MDB-RO), o projeto de lei foi apresentado sob pretexto de proteger a agricultura familiar, mas, na verdade, pode beneficiar grandes proprietários de terras e dar chance para mais violações, segundo a avaliação do Observatório do Clima.

“A agricultura familiar necessita ter atenção prioritária em termos de fomento a atividades ambientalmente sustentáveis. Não é isso que traz essa proposta. A agricultura familiar foi utilizada como argumento nesse projeto de lei para enfraquecer o controle dos órgãos do Sisnama [Sistema Nacional do Meio Ambiente], permitir a continuidade de práticas que constituem infração e inviabilizar a cessação dos danos ambientais. É mais uma afronta do Congresso contra o meio ambiente”, afirma Suely Araujo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima.

O deputado usa como parâmetro de pequenos agricultores propriedades com até 4 módulos fiscais. Os módulos fiscais são unidades de medida para as propriedades, fixados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que variam entre 5 hectares e 110 hectares, dependendo do município. Em algumas regiões, eles são bem grandes. No estado de Mosquini, Rondônia, um módulo é de 60 hectares. Assim, fazendas com até 240 hectares, ou 336 campos de futebol, seriam beneficiadas.

Em nota técnica, o observatório aponta ainda que, na prática, o PL “amplia significativamente o alcance da proposta e pode impedir o embargo de imóveis onde tenham ocorrido desmatamentos ilegais de grande extensão, favorecendo a continuidade da infração e aumentando o risco de novos desmatamentos”.

Para os críticos à proposta, a legislação já tem proteção para o pequeno agricultor. Na seção da Câmara, o deputado Helder Salomão (PT-ES) lembrou o decreto 6.514/2008, que estabelece que, no caso de áreas irregularmente desmatadas ou queimadas, o embargo não alcança as atividades de subsistência.

“Se flexibiliza uma legislação de maneira desnecessária sob o pretexto de proteger o pequeno agricultor, mas, para o pequeno, para subsistência, ele já está protegido.”

Mosquini e o ‘Pacote da Destruição’

A manobra feita pela bancada ruralista em plena Copa do Mundo se insere no chamado “Pacote da Destruição”, um conjunto de medidas legislativas para enfraquecer a legislação socioambiental brasileira em diversas frentes, dos agrotóxicos a terras indígenas. Mosquini, que é presidente de uma comissão da Frente Parlamentar da Agropecuária, sempre está à frente dessa constante pressão do agronegócio contra a pauta ambiental.

Em maio, na chamada “Semana do Agro”, o deputado tentou emplacar uma proposta que proibia embargos baseados exclusivamente em detecção remota de supressão de vegetação, ou seja, restringia a fiscalização por satélites, prática comum na vigilância dos órgãos ambientais. “É como não usar radar para controlar velocidade”, disse o coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo, ao Brasil de Fato.

O texto aprovado pela Câmara retirou a vedação direta, mas passou a exigir notificação prévia antes da aplicação de medidas cautelares, ou seja, uma manobra semelhante à que está sendo proposta agora, dando tempo para que o desmatamento prossiga.

O estado de Mosquini acumulou mais de 611 mil hectares de vegetação nativa perdidos desde 2019 e ostentou médias anuais de desmatamento acima de 100 mil hectares durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), político que o deputado apoia. A área desmatada caiu de 145 mil hectares em 2022, no último ano de Bolsonaro, para 15 mil hectares no ano passado.

O maior doador individual do deputado é o empresário e fazendeiro Sérgio Botelho Teixeira, sócio-diretor da Italac, que recebeu uma multa de R$ 5,5 milhões do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em dezembro de 2025 por desmatamento de reserva legal em uma fazenda no Tocantins. Desde 2018, Teixeira doou R$ 250 mil para campanhas eleitorais de Mosquini.

A unidade da Italac fica em Jaru (RO) e tem uma capacidade instalada de 1,3 milhão de litros, produzindo diversos derivados de leite, do composto lácteo ao doce de leite.

À BBC News Brasil, o deputado disse que não tinha conhecimento da multa aplicada à fazenda do empresário. A defesa de Teixeira disse que a multa aplicada pelo Ibama ocorreu devido a um engano em registros cadastrais da fazenda e que o assunto está sendo analisado pela Justiça Federal.

*Editado por: Gia Matheus Almeida - Fonte: BdF

01 julho 2026

Ato homenageia santiaguense vítima da ditadura e relembra lutas por direitos humanos em Santiago/RS*



Na noite do último sábado, 27/06,  o Espaço Strazzabosco, em Santiago/RS, recebeu um importante ato em homenagem póstuma à santiaguense Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones, uma das vítimas da ditadura civil-militar brasileira (que durou 21 longos anos). O encontro reuniu participantes de Santiago e Região para um momento de memória, reflexão e valorização da luta pelos direitos humanos.

A atividade integrou a programação do projeto Caminhos Revolucionários II, coordenado por Antônio Prestes Braga (Santo Ângelo) e Júlio Garcia (Santiago). O evento Caminhos Revolucionários II (que também foi realizado em Porto Alegre e São Leopoldo/RS) foi marcado por denúncias dos crimes praticados pela ditadura, por homenagens às vítimas da mesma (como foi o caso de Sônia) e debates sobre a importância da preservação da memória histórica.


Além da homenagem à santiaguense, o público acompanhou a exibição do documentário-ficção “Basílicia Sawicki”, que retrata a história da jovem missioneira argentina filha de imigrantes ucranianos sacrificada no início do século passado durante sua luta pelos direitos dos pequenos agricultores, resgatando um importante capítulo das lutas populares na América Latina. Na oportunidade, usaram da palavra Júlio César Schmitt Garcia e Antônio Prestes Braga (pelos Caminhos Revolucionários II) e Iara Chagas Castiel (representando a Comissão Executiva Municipal do PT).


O ato destacou a relevância de manter viva a memória daqueles que perderam a vida em defesa da democracia, da justiça social e dos direitos humanos, promovendo um espaço de reflexão sobre o passado e seus ensinamentos para as novas gerações.

O evento foi realizado no Espaço Cultural Strazzabosco e reuniu integrantes do projeto, convidados e membros da comunidade local e regional. 

*Com o site Santiago News

Lula sobe mais de 2 pontos e amplia liderança no 1º turno, mostra AtlasIntel

Principal adversário do presidente, Flávio Bolsonaro saiu de 39% em abril para 36,6% em junho

Presidente Lula e Flávio Bolsonaro - Crédito Ricardo Stuckert/Pr - Waldemir Barreto/Ag. Senado 

Por Guilherme Levorato*

O presidente Lula (PT) ampliou sua vantagem na disputa presidencial de 2026 e chegou a 46,3% das intenções de voto no principal cenário de primeiro turno testado pela AtlasIntel/Bloomberg. Principal adversário do presidente, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) saiu de 39% em abril para 36,6% em junho, segundo levantamento divulgado nesta quarta-feira (1º).

De acordo com os dados da AtlasIntel/Bloomberg, Lula avançou 2,3 pontos percentuais em relação à rodada de abril, quando aparecia com 44%. Já Flávio recuou 2,4 pontos no mesmo intervalo, reduzindo sua competitividade no primeiro turno.

No cenário estimulado, Renan Santos (Missão) aparece na terceira posição, com 7,8% das intenções de voto. Em seguida vêm Ronaldo Caiado (PSD), com 2,9%, Romeu Zema (Novo), com 2%, e Joaquim Barbosa (DC), com 1%. Aécio Neves (PSDB) soma 0,7%, Samara Martins (UP) tem 0,6%, Augusto Cury (Avante) registra 0,5%, Cabo Daciolo (Mobiliza) aparece com 0,2%, enquanto Rui Costa Pimenta (PCO) e Edmilson Costa (PCB) marcam 0,1% cada. Hertz Dias (PSTU) não pontuou.

Brancos e nulos somam 1,2%, enquanto 0,1% dos entrevistados disseram não saber em quem votariam. O resultado reforça a concentração da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, embora o crescimento de Renan Santos também tenha sido registrado pelo levantamento: ele passou de 5% em abril para 7,8% em junho.

A pesquisa também mediu o desempenho de Lula e Flávio por segmentos do eleitorado. O presidente atinge seu melhor resultado entre eleitores com 60 anos ou mais, faixa em que chega a 54,6%, e no Nordeste, onde registra 57,7%. Entre os eleitores que votaram em Lula em 2022, 88,4% afirmam que repetiriam o voto.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, apresenta melhor desempenho entre eleitores de 25 a 34 anos, segmento em que alcança 41,4%. O senador também tem seus melhores percentuais entre evangélicos, com 42,9%, no Sudeste, com 42,6%, e entre eleitores que votaram em Jair Bolsonaro em 2022, grupo no qual chega a 74,8%.

Nas simulações de segundo turno, Lula também aparece à frente de Flávio Bolsonaro. Segundo a AtlasIntel/Bloomberg, o presidente marca 48,8%, contra 42,3% do senador. Em maio, os dois estavam empatados numericamente com 48%, de acordo com o InfoMoney.

A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg ouviu 4.999 eleitores entre os dias 26 e 30 de junho. A margem de erro é de um ponto percentual, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-04582/2026.

*Fonte: Brasil247