06 fevereiro 2026

A extrema direita global prepara o cerco às eleições brasileiras

A extrema direita não se organiza como partido tradicional, mas como rede transnacional de influência política. Seu núcleo é a guerra cultural permanente

                                  Steve Bannon (Foto: Elizabeth Frantz / Reuters)

Por Gustavo Tapioca*

A entrevista do crítico e analista João Cezar de Castro Rocha divulgada nesta quarta-feira, 4, pelo YouTube lança luz sobre um erro estratégico que a democracia brasileira insiste em repetir. Tratar a extrema direita como fenômeno local, episódico ou espontâneo. Os documentos associados ao caso Epstein, longe de serem apenas um escândalo moral, funcionam como mapa de uma engrenagem internacional de poder, onde circulam dinheiro, influência política, chantagem e guerra cultural.

Nesse teatro, o Brasil não é periferia. É campo de testes.

O método global da extrema direita

A extrema direita do século XXI não se organiza como partido tradicional, mas como rede transnacional de influência política. Seu núcleo é a guerra cultural permanente. Ou seja, a destruição deliberada da noção de verdade factual, o ataque sistemático às instituições e a conversão do conflito político em espetáculo emocional contínuo.

O principal formulador desse método é Steve Bannon, que transformou a política em engenharia do caos. A lógica é simples e brutal. Inundar o espaço público com desinformação, escândalos, teorias conspiratórias e ataques pessoais até que nenhuma checagem seja capaz de conter o fluxo. O objetivo não é convencer, mas desorganizar cognitivamente a sociedade.

Essa estratégia foi aplicada com êxito nos Estados Unidos sob Donald Trump e rapidamente exportada. Plataformas digitais fornecem a infraestrutura; igrejas e influenciadores garantem capilaridade social; empresários financiam a operação; e operadores políticos fazem a adaptação local. Trata-se de um projeto global, com execução descentralizada.

Os documentos ligados ao caso Epstein ajudam a revelar o pano de fundo dessa engrenagem: redes internacionais de poder que operam fora do escrutínio público, atravessando fronteiras, regimes políticos e sistemas jurídicos. Não se trata de conspiração abstrata, mas de ecossistema real, que combina dinheiro, chantagem, impunidade e propaganda.

O Brasil como laboratório

A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, não foi um acidente histórico nem um surto irracional do eleitorado. Foi a primeira grande vitória da extrema direita global fora do eixo EUA–Europa, construída a partir de guerra digital em larga escala.WhatsApp, fake news industriais, disparos ilegais, ataques coordenados à imprensa, ao STF e ao sistema eleitoral não foram excessos laterais. Foram métodos. O Brasil reuniu condições ideais: alta penetração de aplicativos fechados, ausência de regulação das plataformas e uma crise política profunda após 2016.

O erro decisivo foi tratar aquele processo como algo superado com a derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022. A rede não se dissolveu. Ela se profissionalizou. Aprendeu com os erros, ampliou financiamento, refinou linguagem e passou a operar com maior sofisticação técnica e narrativa.

De 2018 a 2026: a mutação da guerra digital

Em 2018, a desinformação tinha um objetivo central: ganhar votos. Em 2026, o objetivo é mais profundo e mais perigoso: quebrar a governabilidade democrática, independentemente do resultado das urnas.

A advertência de João Cezar de Castro Rocha é direta. O que foi visto em 2018 será quase nada diante do que está sendo preparado. A nova fase combina inteligência artificial, vídeos sintéticos, microsegmentação emocional e ataques simultâneos às instituições.O plano mínimo é impedir a vitória no primeiro turno. O plano máximo é transformar o segundo turno em um campo de exaustão democrática, onde o processo eleitoral já nasce sob suspeita permanente. Não se trata apenas de disputar a eleição, mas de deslegitimar antecipadamente o vencedor.

O alvo central é Lula

Nesse cenário, STF, TSE e mídia voltam a ser alvos prioritários. Não por acaso. Sem árbitros legítimos, a democracia se converte em conflito bruto. A extrema direita aposta na corrosão institucional preventiva: se tudo é apresentado como fraudulento, qualquer derrota vira golpe; qualquer vitória do adversário vira usurpação.

O alvo central dessa estratégia é Lula. O objetivo não é apenas derrotá-lo eleitoralmente, mas impedir que governe, mesmo que vença. Um presidente reeleito, porém, sitiado desde o primeiro dia, pressionado por campanhas de ódio permanentes, Congresso hostil e opinião pública intoxicada por desinformação.É a produção deliberada de um presidente pato manco, fabricado antes mesmo da posse.

Bolsonaro, Bannon, Trump: a mesma engrenagem

Não há linha pontilhada aqui — há linha direta. Bolsonaro não foi um corpo estranho ao bolsonarismo global: foi expressão local do método de Bannon, aplicado com entusiasmo por Trump e adaptado às condições brasileiras. A retórica antissistema, o ataque às instituições, a fabricação industrial de mentiras e o flerte permanente com a ruptura democrática obedecem ao mesmo manual, operado por redes internacionais que continuam ativas.O bolsonarismo não acabou porque Bolsonaro perdeu. Ele persiste porque faz parte de uma arquitetura global de poder que não depende de eleições para sobreviver.

Democracia sob cerco

“Sem medo de ser feliz” foi o slogan de um tempo em que eleições decidiam projetos de país. Hoje, a disputa é mais elementar: se o voto ainda vale alguma coisa.

A extrema direita globalista não precisa vencer para ganhar. Basta impedir que o vencedor governe. Basta transformar a democracia em um ritual vazio, permanentemente sabotado por dentro.

O alerta de João Cezar de Castro Rocha não é retórico. É estratégico. Ou o Brasil entende que enfrenta uma operação internacional de guerra política, ou seguirá reagindo como se estivesse diante de episódios isolados.

Em outubro, não estará em jogo apenas quem governa o país. O Brasil não escolherá apenas um presidente. Escolherá se o voto continuará sendo instrumento de soberania popular ou se será convertido em um rito vazio, cercado por mentiras industriais, ódio organizado e uma extrema direita global que não reconhece limites, não aceita derrotas e trabalha sistematicamente para transformar a democracia em uma formalidade sitiada.

*Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado. - Fonte: site Brasil247

05 fevereiro 2026

SOLIDARIEDADE - ‘Plantar árvores é permanecer’: ação do MST homenageia Cuba e Venezuela, um mês após ataque dos Estados Unidos

Em Brasília, ação de plantio ocorreu nas embaixadas da Venezuela e Cuba e pediu liberdade para Maduro e Cilia*

Mudas de araucária, baobá e graviola foram plantadas nas embaixadas de Cuba e Venezuela, em Brasília. | Crédito: Camila Araújo/MST

Plantar árvores é permanecer. Essa é uma forma com que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) tem expressado sua solidariedade aos povos do mundo decididos a ser livres. E para marcar um mês da agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, o MST realizou nesta terça-feira (3) um ato simbólico de plantio de árvores em diversas partes do país. Em Brasília, a ação ocorreu nas embaixadas da Venezuela e de Cuba

Ceres Hadich, da direção nacional do movimento, explica que, além do simbolismo, para o MST, essa é também uma forma de promover o debate com suas bases e promover a solidariedade internacional como um eixo unificador dos trabalhadores ao redor do mundo. 

“É uma ação que massifica, envolve a nossa base, envolve a nossa militância, politiza e traz esse debate para a sociedade brasileira, que também é muito importante”, esclarece a dirigente. 

“Essa é uma ação que está acontecendo aqui em Brasília, nas embaixadas de Cuba e Venezuela, mas em todo o Brasil a gente motivou a nossa militância a se somar em uma ação de plantio de árvores, que, para nós, está se transformando em uma cultura de resistência, mas também em anunciar esperança e resiliência para tempos difíceis”, afirma Hadich.

Para quem recebe, ações como essa enchem de esperança um povo que, ainda agredido, segue de pé, aponta o embaixador venezuelano no Brasil, Manuel Vadell.

“O MST sempre foi solidário com a Revolução Bolivariana e com a luta de todos os povos da América Latina e do mundo. Então, não esperávamos menos do MST e do povo brasileiro. Não temos nada mais além de agradecer ao MST, pois seguiremos caminhando juntos. E que tenham a confiança de que a Venezuela triunfará e teremos em breve o presidente Maduro e a companheira Cilia livres”, afirmou o diplomata.

“O povo venezuelano respondeu com uma grande unidade, uma maturidade impressionante em torno do comando da Revolução Bolivariana, em torno de todas as instruções que deixou o presidente Maduro e aí estamos unidos na rua, mobilizados tanto pela liberdade do presidente e de Cilia como pelas ações de governo para melhorar cada dia a vida do nosso povo”, completa.

Na embaixada de Cuba, os militantes sem terra homenagearam os militares cubanos mortos durante a agressão militar estadunidense na Venezuela, e destacaram a força do povo cubano que, há décadas, resiste a um bloqueio unilateral dos sucessivos governos dos Estados Unidos, intensificado pela política belicista de Donald Trump.

Para isso, Francisco Dal Chiavon explica que até a escolha das mudas esteve carregada de simbolismos. 

“Aqui, plantamos plantas no mesmo berço. Por quê? Por aquilo que representa a unidade entre Brasil e Cuba, o Movimento Sem Terra e o movimento revolucionário cubano. Nós entendemos que essa unidade tem que ser profunda, e a raiz desta araucária pode descer à profundidade de 40 metros. Ela tem as raízes muito profundas para poder, em um período de seca, extrair a água e se manter sempre verde. Então, que a nossa amizade, que a nossa relação política e ideológica também seja profunda e seja permanente”, explica o militante sem terra.

Por sua vez, o embaixador cubano, Adolfo Curbelo Castellanos, relaciona o plantio de árvores à construção histórica do movimento de solidariedade a Cuba conduzido pelo MST. 

“É uma iniciativa bonita, realmente com muito simbolismo, não só pelo que representa, como explicou a companheira do MST, o que representa plantar uma árvore, mas porque isto ficará aqui para sempre como um símbolo da expressão de solidariedade militante de sempre do MST para com Cuba e para com a revolução cubana e como uma expressão do sentimento profundo solidário que há no Brasil”, considera o embaixador. 

*Editado por: Luís Indriunas - Fonte: BdF

03 fevereiro 2026

Ex-deputado e lutador social, Frei Sérgio Görgen morre aos 70 anos*

Lutador histórico da causas populares, o religioso sofreu um infarto em casa, na comunidade dos Franciscanos em Candiota/RS

   Frei Sergio Görgen | Foto: Joana Berwanger/Sul21

Faleceu na manhã desta terça-feira (3) o frade franciscano Sérgio Antônio Görgen, 70 anos, conhecido como Frei Sérgio. Lutador histórico da causas populares, em especial na defesa dos pequenos agricultores e camponeses, o religioso e ex-deputado estadual sofreu um infarto em casa, na comunidade dos Franciscanos em Candiota (RS). O falecimento foi confirmado pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), entidade da qual era dirigente.

“É com imenso pesar, mas guiados pela esperança que ele sempre semeou, que o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) comunica o falecimento de seu dirigente histórico, Frei Sérgio Antônio Görgen. Frade franciscano, escritor e intelectual orgânico das causas populares, Frei Sérgio foi mais do que um dirigente; foi um pastor que escolheu o “cheiro das ovelhas” e o barro das trincheiras. Sua partida deixa um vazio imenso na luta social brasileira, mas seu legado de soberania alimentar e dignidade camponesa permanece vivo em cada semente crioula plantada neste solo”, diz nota divulgada pelo MPA.

Frei Sérgio foi deputado estadual pelo PT entre 1999 e 2002. O falecimento foi lamentado por uma série de políticos da esquerda gaúcha e lideranças de movimentos sociais em postagens nas redes sociais.

“Estou muito dolorido. Perdi um camarada de 40 anos de luta, Frei Sergio Gorgen, franciscano. Enfrentamos juntos muitas batalhas, algumas perdemos, mas sempre vencemos com o povo organizado. Deixa um legado para toda militância camponesa do Brasil. Vamos sentir muitas saudades”, escreve João Pedro Stédile, dirigente do MST.

“Com enorme tristeza recebi, nesta manhã, a notícia do falecimento do amigo e companheiro Frei Sérgio Görgen, lutador incansável do povo da terra, liderança histórica do MPA e ex-deputado estadual do nosso partido. Frade franciscano, militante das causas populares, dedicou sua vida à defesa da agricultura camponesa, da soberania alimentar, da democracia e da dignidade do povo do campo, sempre unindo fé, coragem e compromisso político”, escreveu o deputado estadaul Miguel Rossetto (PT).

“Triste notícia. Faleceu Frei Sérgio Görgen, franciscano, liderança do Movimento dos Pequenos Agricultores, deputado estadual do PT/RS e, essencialmente, um homem que dedicou a vida à luta contra a desigualdade”, lamentou o deputado federal Elvino Bohn Gass (PT).

“O Brasil e o Rio Grande do Sul se despedem de um grande lutador, um professor de coerência e coragem. Frei Sérgio sempre me lembrava das razões pelas quais lutamos e de ao lado de quem devemos estar. Meu abraço a seus companheiros e companheiras de luta”, disse a ex-deputada Manuela d’Ávila (PSOL).

Desde a fundação do Sul21, em 2010, Frei Sérgio escreveu uma série de artigos de opinião, sendo uma de suas últimas contribuições em 2024, “Questões emergentes no tempo em que vivemos”.

Natural do Rio Grande do Sul, Frei Sérgio dedicou sua militância à articulação política e espiritual dos excluídos. Foi peça fundamental na fundação do MPA em 1996.

“Sua trajetória foi marcada pelo sacrifício pessoal em prol do coletivo. Frei Sérgio utilizou seu próprio corpo como ferramenta de denúncia através de cinco greves de fome, destacando-se as lutas por crédito agrícola nos anos 90, a resistência contra a Reforma da Previdência em 2017 e a jornada pela democracia em 2018, em frente ao STF”, diz a nota do MPA.

Como sobrevivente e cronista do Massacre da Fazenda Santa Elmira (1989), ele assumiu a missão de não deixar a história ser escrita apenas pelos vencedores. Através de obras como “Trincheiras da Resistência Camponesa” e “A Gente Não Quer Só Comida”, ele teorizou e defendeu a agricultura camponesa como um verdadeiro projeto de vida.

“Frei Sérgio não apenas pregava o Evangelho, ele o vivia nas trincheiras da luta pela terra. Sua vida foi um testemunho de que a espiritualidade e o compromisso político com os pobres são faces da mesma moeda. Deixa-nos um legado de resistência e de um amor profundo pelo povo simples do campo”, diz o MPA.

*Fonte: Sul21

** Presidente Lula lamenta morte de Frei Sérgio: ‘Lutou pela alimentação do corpo e da alma’

02 fevereiro 2026

Internacional - Greve histórica em Minneapolis sob -23ºC, Obama pede cooperação mas o povo exige: “Abolição do ICE!”

 



Por Marcelo Carlini*

Na sexta, dia 23 de janeiro, sob o frio congelante de -23 ºC, 75 mil pessoas tomaram as ruas de Minneapolis reagindo ao assassinato da poetisa que participava do trabalho de proteção dos imigrantes, Renee Good pelos agentes do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos). A cidade tem 430 mil habitantes e a conurbação tem cerca de 3 milhões. Um dia depois, na mesma cidade, o enfermeiro Alex Pretti foi executado pelos membros da agência com dez tiros. Desde que Trump assumiu em 2025 já foram mortas 36 pessoas sob custódia desta força de terror.

O governo defendeu os agentes e classificou as vítimas como “terroristas domésticos”. Mas, sob pressão, afastou Gregory Bovino do comando das tropas em Mineápolis e no seu lugar colocou o “czar da fronteira” Tom Homan. Sobre o assassinato de Pretti, Trump mudou o discurso e prometeu “uma investigação”.

A mobilização de Mineápolis teve uma dimensão histórica e desta vez envolveu lideranças sindicais nacionais. A greve foi no bojo de um processo de auto-organização dos vizinhos, em rondas de monitoramento do ICE e em redes de resposta rápida por bairro em defesa dos vizinhos imigrantes. Esta articulação contrapõe-se à ação de tropas fortemente armadas e que contam com um orçamento superior ao FBI.

Numa inserção ao vivo na Globonews, um enviado do canal à cidade relatou que havia sido abordado várias vezes por moradores para que ele dissesse quem era e o que estava fazendo ali, no intuito de descobrir se ele seria um agente do ICE disfarçado de repórter.

Apesar da Casa Branca ensaiar um tom conciliatório, é certo que Trump não recuará da sua política de combate ao “inimigo interno” da mesma forma que não recuará por vontade própria de sua ofensiva fora do Estados Unidos. Não há conciliação possível com Trump, diferentemente do que o ex-presidente Barack Obama pede.

Preocupado com o “caos”, Obama lançou nota sobre o assassinato de Alex Pretti dizendo que “isso tem que parar. Espero que, depois desta tragédia mais recente, autoridades desta administração reconsiderem sua maneira de agir e comecem a encontrar meios de trabalhar de maneira construtiva com o governador Walz e com o prefeito Frey.” Mas enquanto Obama pede cooperação, a palavra de ordem que virou bandeira nacional é a abolição do ICE.

Na quarta-feira (28), Bruce Springsteen lançou uma canção “dedicada ao povo de Minneapolis, aos nossos vizinhos imigrantes inocentes e em memória de Alex Pretti e Renee Good”. A música destaca a resistência do povo à “fumaça e às balas de borracha” o uso de “apitos e telefones”, ferramentas para enfrentar as tropas de Trump. No coro com Bruce e o povo de Minneapolis, “ICE fora agora!”

*Marcelo Carlinimembro do Diretório Estadual do PT-RS

-Via site Militante Petista

01 fevereiro 2026

DOIS POEMAS DE MANUEL BANDEIRA

   


Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcaloide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada. 

..... 

Desencanto


Eu faço versos como quem chora

De desalento… de desencanto…

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.

 

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…

Tristeza esparsa… remorso vão…

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.

 

E nestes versos de angústia rouca,

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.

— Eu faço versos como quem morre.

29 janeiro 2026

Lembrando José Martí - Marcha das Tochas em Cuba: ‘O anti-imperialismo é um amor profundo à liberdade’

Milhares de jovens acendem tochas em homenagem a José Martí e pela soberania e unidade da América Latina

Cubanos participam da Marcha das Tochas no 173º aniversário do Herói Nacional José Martí (líder da independência de Cuba da Espanha e fundador do Partido Revolucionário Cubano) em Havana | Crédito: Adalberto Roque/AFP

“Não viemos apenas para lembrar, viemos para continuar a obra de Martí”, foram as palavras com que Litza Elena González Desdín, presidente nacional da Federação Estudantil Universitária (FEU), deu início à tradicional Marcha das Tochas.

Sob o lema “Unidade e resistência”, milhares de jovens se reuniram na emblemática escadaria da Universidade de Havana, na noite de terça-feira (27), onde ouviram o discurso da dirigente estudantil minutos antes de acender as milhares de tochas que iluminariam a mobilização.

“Martí vive na resistência daqueles que nunca desistem diante das dificuldades; naqueles que jamais se ajoelham diante do opressor; naqueles que defendem o valor das ideias como uma força insuperável; e vive em nós, jovens que sabemos que o anti-imperialismo é um amor profundo à liberdade”, afirmou González Desdín, em meio a aplausos.

Horas antes do pôr do sol, estudantes universitários e do ensino médio começaram a ocupar as imediações da universidade. Organizada pela Federação Estudantil Universitária, a Marcha das Tochas acontece todos os anos para comemorar o nascimento de José Martí, considerado o Apóstolo da Pátria.

Este ano, o que deveria ser um encontro em comemoração ao Herói Nacional e ao centenário de seu “melhor discípulo”, Fidel Castro, transformou-se em uma marcha de luto, mas também de luta anti-imperialista. A mobilização ocorreu em um contexto marcado pelas crescentes ameaças do governo dos Estados Unidos contra Cuba e por um clima de luto nacional, após a morte de 32 internacionalistas cubanos caídos em combate durante o ataque perpetrado contra a Venezuela. (...)

“Compatriotas, estamos vivendo tempos muito conturbados, nos quais o império e seu imperador, Donald Trump, querem impor a ordem das bombas, dos sequestros, da perseguição, da destruição e da morte, e pretendem nos fazer voltar ao fascismo destruidor”, denunciou González Desdín, que também condenou “nos termos mais enérgicos a covarde agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela e o sequestro do presidente daquela nação irmã, Nicolás Maduro Moros, e de sua companheira Cilia Flores”.

Em um dos momentos mais emocionantes da jornada, acrescentou: “Nunca esqueceremos que, naquela noite de 3 de janeiro, na madrugada mais sombria, os cubanos perdemos fisicamente 32 de nossos filhos mais valentes, muitos deles jovens, que, no cumprimento de seu dever, caíram sob o bombardeio dos atacantes. Eles são uma inspiração constante para nossa geração; são paradigmas da história da luta por uma América unida, por uma Pátria cada vez mais soberana. Para eles, honra e glória para sempre”.

Pátria é humanidade

Nascido em Havana, em 1853, José Martí foi poeta, pensador, educador e, acima de tudo, revolucionário. Fundador do Partido Revolucionário Cubano (PRC), que tinha como objetivo lutar pela independência de Cuba e de Porto Rico, Martí se tornou uma das principais figuras do ciclo de guerras de independência no final do século 19.

Desde muito jovem, uniu-se às fileiras independentistas, atividade pela qual foi preso e exilado ainda adolescente. Aos 15 anos, publicou o poema Abdala, no qual delineava seu conceito de pátria:

“O amor, mãe, à Pátria / não é o amor ridículo à terra / nem à erva que pisam nossos pés / é o ódio invencível a quem a oprime / é o rancor eterno a quem a ataca”.

Mobilização em Havana presta homenagem a José Martí, no 173º aniversário de seu nascimento
Milhares se reuniram pela soberania dos países latino-americanos na noite de terça (27) | Crédito: Enrique González (Enro)/Cubadebate.
As ideias de Martí não apenas impulsionaram a luta pela libertação de Cuba, mas também projetaram uma visão latino-americana diante do domínio das grandes potências. Por isso, mais de um século após seu nascimento, seu pensamento continua sendo referência ética e política para os povos da região.
A figura do Apóstolo da Pátria também foi uma das principais fontes de inspiração da Revolução Cubana. Em 1953, durante o centenário de seu nascimento, um grupo de jovens estudantes e trabalhadores, entre eles Fidel Castro, protagonizou a primeira Marcha das Tochas em oposição à ditadura de Fulgencio Batista. Aquela mobilização estudantil, realizada na madrugada do dia 27 de janeiro, tornou-se um antecedente do ataque ao Quartel Moncada e um dos marcos iniciais do processo revolucionário que triunfaria seis anos depois.
Desde então, todo dia 27 de janeiro, na véspera do aniversário do nascimento de José Martí, milhares de jovens cubanos se mobilizam para prestar-lhe homenagem. Este ano, quando a Marcha das Tochas completou 71 anos de realização ininterrupta, o legado martiano voltou a ser convocado como um ponto de encontro para a defesa da soberania, da unidade latino-americana e da resistência frente ao imperialismo. -*Editado por: Luís Indriunas - Via Brasil de Fato

28 janeiro 2026

A morte do Jornalismo*

A sociedade não percebe o que isso significa

   Jornalismo (Foto: Fábio Rodrigues-Pozzebom/ABr)

Por Alex Solnik*

Comete crime quem atende pacientes no hospital ou no consultório sem ter um diploma de médico e o registro formal no Conselho Regional de Medicina (CRM). O paciente atendido por um leigo ou um charlatão corre o risco de ficar mais doente e, no caso extremo, vir a óbito.

Quem pretende desenhar ou construir casas, prédios, viadutos e estradas, tem que se formar arquiteto ou engenheiro, e obter o registro no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA) ou no Conselho Regional de Arquitetura e Urbanismo (CAU/UF) para exercer a profissão. Se um leigo ou um charlatão assume desenhar ou construir, o prédio corre o risco de cair, e seus moradores, acabar sob escombros. 

O mesmo se dá com advogados, que obrigatoriamente têm que estudar Direito e só podem exercer a profissão depois de passar pelo crivo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Caso contrário, poderão levar à condenação aqueles que pretendem defender.

O Jornalismo, embora seja tão fundamental quanto a Medicina, a Arquitetura, a Engenharia e a Advocacia virou terra de ninguém, onde qualquer um, mesmo sem nem saber escrever corretamente, sem nenhum diploma, sem passar pelo crivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), se arvora em “informar”, “opinar” e “formar opiniões”, sem conhecer os requisitos mínimos da profissão, como a obrigatoriedade de “consultar os dois lados” e só transformar um assunto em notícia se as cinco questões básicas - quem, onde, quando, como e por que - podem ser respondidas por completo.

A consequência dessa torre de Babel é a desinformação, proposital ou não, que distorce fatos, confunde a opinião pública e destrói a credibilidade da imprensa.

As chamadas “redes sociais”, onde leigos e charlatães encontram campo fértil para disseminar seu ódio, suas mentiras e suas idiossincrasias, sem vergonha e sem freios, permitem que o jornalismo seja assassinado minuto a minuto, dia a dia, sob o olhar complacente da sociedade, que não percebe o que isso significa. 

É verdade que há jornalistas diplomados e experientes que não seguem as boas práticas do Jornalismo, como também há médicos, advogados e engenheiros transgressores. Mas isso não pode ser usado como argumento para abolir a exigência dos diplomas. 

Também é verdade que jornais e revistas podem disseminar meias verdades ou distorcer fatos de acordo com seus interesses. Não há como negar. 

Só que, em razão de suas tiragens serem limitadas, não provocam tantos danos quanto as “redes sociais” que, ao divulgar essas mesmas “notícias” atingem milhões de pessoas em poucos minutos. 

A morte do Jornalismo não é só um atentado à informação correta, tão fundamental para a sociedade quanto um prédio bem construído, um doente bem medicado, um injustiçado bem defendido.

A morte do Jornalismo leva, em última análise, à morte da Democracia.

Quando todos são “jornalistas”, ninguém é.   

*Jornalista - via Brasil247