16 janeiro 2019

A vergonha dos vencedores




Por Fernando Brito*

O decreto da liberação da posse de armas – segundo Bolsonaro, apenas um aperitivo, “apenas o primeiro passo”, para franquear o acesso generalizado a armamento para a população – não pode ser julgado apenas no campo político.

É um retrocesso civilizatório que nos custará muitas vidas e muitos anos para reverter.

Não fosse isso, diria que foi a derrota política inaugural de Jair Bolsonaro.

É algo que, mesmo antes das tragédias anunciadas que irá produzir, só encontrou apoio incondicional em seus adeptos mais radicais.

A classe média, sempre tão feroz na teoria, passa a viver o medo de que o seu vizinho de porta tenha uma, duas,  várias pistolas.

Ou o caixa da padaria. Ou o dono da quitanda, que você andou chamando de ladrão por cobrar 10 reais no quilo do tomate. Ou o inspetor da escola dos filhos.

Os neoliberais “cult” não tiveram peito de defender  e o próprio Sérgio Moro fez questão de ficar nas sombras no anúncio da “grande conquista”, mesmo sendo, agora, o responsável pela Segurança Pública.

A comparação dos perigos oferecidos por uma arma de fogo com os riscos de um liquidificador, feita pelo sempre energúmeno Ônyx Lorenzoni  ofende a inteligência de um asno.

Os vencedores estão envergonhados.

Só o núcleo selvagemente fascista celebra, e olhe lá.

*Jornalista - Via Tijolaço

15 janeiro 2019

Cem anos sem Rosa Luxemburgo: uma vida pela revolução

Rosa Luxemburgo fundou a Liga Spartakus, que deu origem ao Partido Comunista Alemão / (Foto: Divulgação)

Teorias políticas da dirigente marxista ecoaram ao longo da história e permanecem atuais

Brasil de Fato - por Lu Sudré - Há exatamente cem anos, em 15 de janeiro de 1919, a filósofa, economista e militante polaco-alemã Rosa Luxemburgo foi assassinada em Berlim, capital da Alemanha, em retaliação a suas contribuições para a luta revolucionária da esquerda. A tentativa de sufocar as ideias transformadoras da maior pensadora marxista do século 20 foi em vão: o legado dela ecoa ao longo da história e permanece atual. 

Rosa Luxemburgo fundou a Liga Spartakus, organização socialista, anti-imperialista e anti-militarista que atuou na Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial – e, posteriormente, deu origem ao Partido Comunista Alemão.

Nascida em 5 de março de 1871 em Zamośc, na Polônia, a filósofa envolveu-se com a militância revolucionária desde a juventude e formou-se politicamente ao lado de outras figuras históricas, como a feminista alemã Clara Zetkin. 

Por ser tratar de uma herdeira da teoria de Marx, a elaboração teórica de Rosa Luxemburgo se concentra na crítica ao modo de produção capitalista e suas contradições.

Isabel Loureiro, especialista no pensamento de Rosa Luxemburgo, explica que a obra da comunista discorre sobre como o capitalismo gera, necessariamente, a desigualdade entre classes, indivíduos e países. A teórica escreve que, a partir de um modelo de produção racista e sexista, o capitalismo perpetua-se, com a finalidade de acumular indefinidamente. Para isso, destrói vínculos sociais e a natureza, e se sustenta com base na exploração dos trabalhadores. 

"A Rosa sempre foi uma grande defensora das liberdades democráticas, fruto das revoluções burguesas no Ocidente. Ela viveu a infância e a adolescência na Polônia dominada pelo império tzarista [monarcas da Rússia] e sabia muito bem como era uma vida sem liberdade de imprensa, de associação, de reunião, sem liberdade religiosa e sem direitos de nenhuma espécie para os trabalhadores e para as mulheres", relata Loureiro. 

Doutora em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), a pesquisadora é colaboradora da Fundação Rosa Luxemburgo e ressalta a importância do legado da militante polaco-alemã.

"Sua contribuição original à teoria política é que as transformações sociais estruturais só podem ser obra da ação autônoma das massas populares. Ou seja, a instituição de uma sociedade verdadeiramente socialista não pode resultar de golpes de vanguardas políticas que imaginam saber o que é melhor para os trabalhadores e se colocam no lugar deles", analisa. "Rosa sempre foi decididamente contra a ideia de vanguarda substituta das massas. A revolução, para ela, é obra da ação livre dos trabalhadores. Ou não é revolução".

A partir da ação autônoma, as massas aprendem com suas próprias experiências e se formam politicamente na luta. Rosa Luxemburgo chegou a essa análise, sobretudo, acompanhando a organização dos trabalhadores na Revolução Russa, de 1905 e 1907.

Apesar de divergir em alguns aspectos com Vladimir Lênin e Leon Trotsky, líderes da Revolução de 1917, Rosa Luxemburgo era muito admirada pelos dirigentes comunistas. Segundo Loureiro, ela criticava o que considerava “uma incompreensão dos bolcheviques no tocante à democracia. Sua crítica soa como uma advertência contra o posterior totalitarismo stalinista”.

Quanto às obras mais importantes para a esquerda, a estudiosa enumera, em primeiro lugar, o livro “A acumulação do capital”, e outros dois artigos: “Questões de organização da social-democracia russa” e “Greve de massas, partido e sindicatos.” Em seguida está o texto “O que quer a Liga Spartakus?”, programa adotado pelo Partido Comunista Alemão.

Já a obra “A revolução russa”, onde registra suas críticas, é uma recusa à violência, principal bandeira erguida pela dirigente: “Ela rejeitava incisivamente o terror, tanto contrarrevolucionário quanto revolucionário. E acreditava que a revolução socialista, por ser obra das grandes massas populares, não precisava matar os adversários”.  (...)

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Bolsonaro assina decreto que facilita posse de armas no faroeste Brasil



“Como o povo soberanamente decidiu, para lhes resguardar o direito à legítima defesa, vou agora, como presidente, usar esta arma”, afirmou Bolsonaro, mostrando a caneta como se fosse sua arma; a flexibilização da posse e do porte de armas é rejeitada pela maioria dos brasileiros, mas, mesmo assim, Bolsonaro decidiu adotar a medida por decreto

CLIQUE AQUI para ler na íntegra a postagem do Brasil247

14 janeiro 2019

VENEZUELA

A quem interessa uma intervenção na Venezuela?
 
Por Gleisi Hoffmann*
 
Acabo de voltar da Venezuela, onde participei, como presidenta do PT e a convite do governo eleito, das solenidades de posse do presidente Nicolás Maduro. Não me surpreendi com o ataques e reações por parte de quem não compreende princípios como autodeterminação e soberania popular; quem não reconhece que partidos e governos de diferentes países podem dialogar respeitosamente.
 
Por várias razões, os problemas internos da Venezuela, econômicos, sociais e políticos, têm sido motivo de pressões externas indevidas que só agravam a situação interna. Mas a posse de Maduro em seu segundo mandato desatou um movimento coordenado de intervenção sobre a Venezuela, patrocinado pelo governo dos Estados Unidos e referendado por governos de direita na América Latina, entre os quais se destaca, pela vergonhosa subserviência a Donald Trump, o de Jair Bolsonaro.
 
Gostem ou não, Maduro foi eleito com 67% dos votos. O voto na Venezuela é facultativo. Três candidatos de oposição concorreram e as eleições se deram nos marcos legais e constitucionais do país (Constituição de 1999), o que foi atestado por uma comissão externa independente. Um dos membros da comissão, o ex-presidente do governo da Espanha José Luiz Zapatero, declarou: "Não tenho dúvida de que (os venezuelanos) votam livremente". Como outros países se acham no direito de questionar o voto do povo venezuelano?
 
Não podemos nos iludir: a ação coordenada contra o governo da Venezuela não passa nem de longe por uma suposta defesa da democracia e da liberdade de oposição na Venezuela. Não há nenhum interesse em ajudar o povo venezuelano a superar seus desafios reais. O que existe é a combinação de interesses econômicos e geopolíticos com jogadas oportunistas de alguns governos, como é o caso, infelizmente, do Brasil.
 
A Venezuela não é um país qualquer. É a detentora das maiores reservas de petróleo do planeta. O país assumiu, desde 1o. de janeiro, a presidência da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) no ano de 2019. Desde a eleição de Hugo Chávez, em 1998, a Venezuela vem desafiando os modelos econômicos e políticos excludentes que vigoravam naquele país – e na América Latina – e exercendo cada vez mais fortemente sua soberania.
 
O interesse dos Estados Unidos e seus aliados de subjugar esse incômodo vizinho e avançar sobre suas reservas estratégicas é notório. Nós já vimos esse filme: a invasão americana no Iraque, em nome de defender os direitos do povo e instalar a democracia, resultou em 250 mil mortos, cidades destruídas, miséria, fome e terror na ocupação. Depois, largaram tudo para trás, deixando um rastro de destruição e desalento, sem antes terem propiciado que suas empresas ganhassem muito dinheiro e, como país, se posicionassem estrategicamente no acesso ao petróleo dos países árabes. Como está o Iraque agora? Melhor ou pior do que estava antes? Tem democracia? Seu povo é mais feliz? Isso não interessa mais. O que interessa é que o império conquistou o que queria.
 
São muito preocupantes os movimentos dos governos Trump e Bolsonaro, entre outros, para desestabilizar o governo eleito de Maduro e sustentar um governo paralelo da oposição. Usam uma retórica de guerra como há muito não se ouvia em nosso continente. Querem intervir na Venezuela – considerando até uma intervenção militar – com a narrativa de que seria uma ditadura, que os direitos humanos não são respeitados, que há crise humanitária; precisa-se intervir para salvar o povo.
 
Alguém acha, sinceramente, que os EUA estão preocupados com a democracia e com os diretos humanos na Venezuela? Por que não se preocupam com a fome no Iêmen? Por que tratam as pessoas em processo migratório de forma hostil? Foi a preocupação com os direitos humanos que fez o governo Trump enjaular crianças como animais?
 
Nossa Constituição e a tradição da diplomacia brasileira defendem a não-intervenção em outros países. É o respeito às nações e a autodeterminação dos povos. Não precisamos adular impérios que se utilizam das crises alheias pra cobrir seus próprios problemas e tirar vantagens políticas e econômicas, fazendo guerras e intervenções. Já assistimos esse filme e ele só traz mais dores. Quando o ex-presidente George W. Bush quis comprometer o Brasil na guerra contra o Iraque, o ex-presidente Lula reagiu com altivez: "Nossa guerra é contra a fome".
 
As dificuldades por que passa o povo da Venezuela só foram agravadas pelas sanções e bloqueios econômicos impostos pelos EUA e seus aliados. Nunca é demais lembrar que o governo da Colômbia recusou vender remédio ao governo venezuelano. Assim acontece com outros produtos. A Venezuela é muito dependente de importações. Enquanto bloqueios e sanções permanecerem, o povo sofrerá e migrará, impondo também sofrimento aos que fazem fronteira com o país.
 
A saída, a solução pacífica para a crise venezuelana, que tem impacto na América Latina, é a negociação política, é conversar com todos os lados. Papel que o Brasil deveria estar fazendo, como já fez com sucesso, e não colocando mais lenha na fogueira.
 
Esta semana Bolsonaro se encontrará com o presidente Macri na Argentina. Jornais dizem que primeiro ponto da pauta será a Venezuela. Se tiverem o mínimo de responsabilidade com a paz, a ordem e a boa convivência dos países e povos latino-americanos, proporão diálogo com as partes venezuelanas. Caso contrário, só vamos acelerar a crise. Uma intervenção lá sobrará para todos nós.
 
Os democratas brasileiros, que se preocupam sinceramente com o destino de nossos povos, sabem que a intervenção, de qualquer espécie, não é a saída para a crise da Venezuela. E não é preciso estar de acordo com Nicolás Maduro, com seu governo ou com os processos institucionais venezuelanos para entender que, no caso de uma intervenção militar, o papel do Brasil, infelizmente, será de bucha-de-canhão.
 
*Gleisi Hoffmann (foto) é senadora (PT-PR) e Presidenta Nacional do Partido dos Trabalhadores.
 

13 janeiro 2019

Flavio Koutzii: “A democracia acabou. Eu me sinto hoje um exilado no Brasil”


Flávio Koutzii: a democracia, no Brasil, levou um tiro no coração (Foto: Guilherme Santos/Sul21)


Por Marco Weissheimer, no Sul21*

O colapso do Estado de Direito e a violação do processo eleitoral, materializados de diferentes formas em 2018, têm consequências de graves implicações para o presente e o futuro do país. Para um militante histórico da esquerda brasileira e latino-americana, a mais grave delas é que a democracia acabou no Brasil. “Como a democracia real depende de um certo grau de estado de direito, o colapso deste impede a existência de um estado de democracia. Ela levou um tiro no coração”, diz Flavio Koutzii, que lutou contra duas ditaduras, no Brasil e a Argentina, onde ficou preso entre 1975 e 1979.

Para Koutzii, não há nenhuma forçação de barra no diagnóstico. A democracia, sustenta, sempre foi, com todos os seus limites, o lugar onde desembocaram várias lutas por direitos por liberdade. “Agora está acontecendo o contrário. O fato de que a direita está transformando a ignorância e a opressão em estados de vida e código de valores, isso bate de frente com a ideia de democracia. Isso se traduz não só na opressão de homens e mulheres, mas na desconstrução da própria possibilidade democrática”.

Em entrevista ao Sul21, Flavio Koutzii falou sobre as implicações desse diagnóstico e alertou para os riscos da normalização diante de situações intoleráveis como, por exemplo, enfatiza ele, é a prisão do ex-presidente Lula em Curitiba. “As rotinas podem nos deixar divididos e eventualmente desatentos. É impossível estar sempre atento em meio a tantos ataques e sentindo tanta dor todo o tempo. A força de atração da normalização é muito grande”. Na vida presente de Flavio, que já passou muitos anos fora do Brasil em função de suas escolhas políticas, dois elementos impedem que essa normalização floresça: os sentimentos de estranhamento e de exílio em seu próprio país:

“A soma dos meus anos na Argentina e na França, em função das minhas escolhas políticas, resultou em 14 anos fora do país. Eu me sinto hoje no Brasil um exilado. (…) Quando até a tua rua te é um pouco estranha e quando os caras com quem cruzava no bairro também despertam estranhamento e incerteza, chegamos a um ponto que dispensa maiores explicações. Eles não colocaram uma baioneta no nosso peito, mas há uma baioneta invisível nos espetando. Esse estranhamento na rua, no supermercado ou em um restaurante expressa uma percepção que diz: esse não é meu lugar”.

“A inércia do Tribunal Superior Eleitoral diante do que estava acontecendo
 foi um espetáculo grotesco” (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Sul21: Como definiria o atual momento político que estamos vivendo, pouco mais de dez dias depois da posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República?

Flavio Koutzii: Em algumas conversas recentes, achei útil chamar a atenção para o fato de que a democracia acabou no Brasil. Se eu tiver razão e o radicalismo da frase não for apenas a expressão de uma frase de efeito, é bom se dar conta disso. Um dos principais elementos que sustenta essa afirmação é o colapso do Estado de Direito no país. Em toda a luta dos últimos anos, na resistência contra o impeachment de Dilma e contra a prisão de Lula, as decisões advindas do Judiciário, do Ministério Público e de suas esferas de operação repressiva demonstram esse colapso. Ele foi tão onipresente que pode ter sido banalizado. Como a democracia real depende de um certo grau de estado de direito, o colapso deste impede a existência de um estado de democracia. Ela levou um tiro no coração.

Outro elemento que compõe esse cenário diz respeito ao processo eleitoral que foi violado da forma mais central. O tema das fake news, embora não esgote essa problemática, explicita o que a justiça eleitoral se tornou. O processo eleitoral, considerado como o grande indicador da existência da democracia, também colapsou. A inércia do Tribunal Superior Eleitoral diante do que estava acontecendo foi um espetáculo grotesco. Não se trata apenas da vocação insuperável ao direitismo e da conivência mal disfarçada com os interesses do poder que caracteriza os supremos no Brasil. Eles também não estavam preparados para enfrentar o problema. A meia-dúzia de banalidades que determinaram não teve efeito algum.

Fui candidato algumas vezes e acompanhei a evolução de proibições promulgadas pela Justiça Eleitoral, para não haver panfletos nas ruas, cartazes em postes ou paredes pintadas. Havia aí um movimento de tipo “ideológico”, para usar uma palavra em voga. A ideia era “não sujar a cidade”. Sob um manto supostamente inocente, havia a construção de uma relação de sinonímia entre sujeira e política.

Sul21: Para alguns, esse diagnóstico de que “a democracia acabou” pode soar meio extremado…

Flavio Koutzii: A democracia, que não é uma palavra abstrata, se construiu com base em um leque de valores humanistas que estabeleciam certas noções civilizatórias e fronteiras não para excluir, mas para incluir. Quando se lutou contra as ditaduras na América Latina, essa luta foi associada à luta pela redemocratização. Quando se combateu os coronéis na Grécia, também se tratava de redemocratizar o país. Quando se venceu o fascismo e o nazismo na Segunda Guerra Mundial, idem. Então, não estou forçando barra nenhuma. É disso que se trata. A democracia era, com todos os seus limites, o lugar onde desembocavam várias lutas por direitos e por liberdade.

Agora está acontecendo o contrário. O fato de que a direita está transformando a ignorância e a opressão em estados de vida e código de valores, isso bate de frente com a ideia de democracia. Isso se traduz não só na opressão de homens e mulheres, mas na desconstrução da própria possibilidade democrática. É mais do que um estado de sítio o que ameaça a democracia. É um estado de colapso. E a maioria daqueles que fazem parte dos estamentos que deveriam protegê-la não resistiu.

“Estamos vendo neste governo que acaba de assumir uma ação predadora e de traição do país”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Nós, que lutamos contra a ditadura, estamos vivendo um momento crucial da história. É um momento em que cabe lembrar como os colaboracionistas se comportaram na França de Pétain, se rendendo a Alemanha nazista, ou como as pessoas amedrontadas fizeram na Argentina, dizendo sobre aqueles que lutavam contra a ditadura e sofriam torturas, desaparecimentos e mortes: “alguma coisa o cara deve ter feito”. Essa desculpa não existirá no Brasil. Eles não somente ficaram quietos como votaram no Bolsonaro, caso contrário ele não teria tido a votação que teve. Esses, que serão milhões, vão levar para o túmulo o retrato do Bolsonaro. É uma maldição eterna da qual não escaparão.

Isso, sem dúvida nenhuma, é uma coisa trágica para o país e para a democracia. Estamos vendo neste governo que acaba de assumir uma ação predadora e de traição do país. Isso não chega a ser uma surpresa para nós, mas ainda não sabemos como se desenhará o final dessa máscara de horror. Os que ajudaram a gestar esse horror também não sabem o custo que isso terá para eles. Porque eles “não fizeram por mal”. Fizeram por estúpidos, muitos. Mas fizeram com uma convicção sincera, embora convicção composta de elementos inquietantemente regressivos para ser discreto e elegante.

Sul21: Quais algumas das principais implicações desse diagnóstico para a vida política da esquerda e do campo progressista em geral?

Flavio Koutzii: Muitos de nós, do campo progressista, temos chamado a atenção, já há um bom tempo, tanto no período pós-impeachment quanto logo após a prisão do Lula, para o perigo político e humano da normalização. Normalização esta podendo ser lida como uma acomodação de cada um de nós. Não estou recriminando. É mais uma constatação política. As rotinas podem nos deixar divididos e eventualmente desatentos. É impossível estar sempre atento em meio a tantos ataques e sentindo tanta dor todo o tempo. E não estou falando só da política. Estou falando do ponto de vista do futebol, que eu gosto, do prazer estético de um filme e de tantas outras coisas das quais gostamos. São fatores incontornáveis da vida social, que são envolventes, sedutores, prazerosos e, ao mesmo tempo, normalizadores. A força de atração da normalização é muito grande.

Eu comecei essa entrevista falando do colapso da democracia, do estado de direito e do sistema eleitoral no Brasil. Essa caracterização é como um soco no estômago em meio a essa normalização. Parece que teremos que lembrar disso o tempo todo. Não é que eu estabeleci isso racionalmente. É um sentimento. Eu sinto assim. E acho que tem muita gente sentindo o mesmo. O fato de o Lula estar preso é um exemplo que dá conta do quero dizer. De vez em quando, alguns grandes amigos me convidam para ir ver um jogo do Inter, que eu gosto. A partir de um certo momento, eu disse que não queria mais ir. Não fiz discurso, nem nada, só disse que não queria ir. Eu continuava vendo o jogo na televisão privadamente, em casa. Eu não queria ir ao circo. É como se fosse meio demais. O cara lá, preso, e nós cá, na festa. Eu dou esse exemplo porque acho que isto está valendo para um monte de gente em determinadas circunstâncias. Não vamos nos transformar em calvinistas, mas esse sentimento de mal estar está posto no presente e acho que isso estará conosco por um tempo, que eu espero que não seja tão longo, mas não tenho certeza que seja curto.

O fato de ter esse prisioneiro político, que é a figura crucial da história política do país nos últimos 30 ou 40 anos, e ter uma direita boçal que tenta cuspir nele todos os dias é intolerável. O desrespeito cotidiano é afrontoso porque ele dá a dimensão da boçalidade daqueles que o agridem, transformando esse desrespeito em um método permanente. Essa é uma razão a mais para que essa luta tenha uma permanência e um significado mais importante, se é que se precisa ressaltar essa importância.

“Eu me sinto hoje no Brasil um exilado. Eu não digo muito isso para passar um viés derrotista”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Essas circunstâncias tornam cada vez mais aguda a centralidade da figura do Lula neste período histórico que não sabemos bem quando termina. Recentemente, foi lançada uma biografia sobre a minha história, feita pelo historiador Benito Schmidt. Essa biografia tem uma breve nota no final, que achei importante incluir no livro. Achei importante naquele momento (novembro de 2017), quando as coisas ainda não estavam tão agudizadas quanto estão agora, deixar claro que, para mim, a figura do Che Guevara continuava sendo emblemática e central. Isso não é a mesma coisa que dizer que tudo o que ele fez estava certo, mas sim que os caminhos que ele escolheu seguem sendo referências extremamente importantes pela sua trajetória de vida, pelas escolhas que fez e pelas coisas que não quis fazer.

A segunda referência que fiz foi ao Lula, como uma figura central do nosso país. Alguns leitores assinalaram que essa biografia trazia, entre outras coisas, a longa linha de uma geração, começando no período que antecedeu o golpe de 64 e vindo até 84. Pareceu-me importante fazer essas duas referencias, pois, senão, outras coisas poderiam ficar subjacentes. Houve quem dissesse: como é que esse cara, depois dessa trajetória e acúmulo crítico, toma ainda Che Guevara e Lula como referências?

Sul21: Esperariam uma espécie de auto-crítica…

Flavio Koutzii: Imagino que sim. Hoje, congratulo-me comigo mesmo por ter me dado conta, contemporaneamente, mesmo que com uma breve nota, que se referir ao Che era se referir a um caminho das lutas, com seus erros e acertos. Um caminho de enfrentamento radical contra o poder do capital e o poder dos impérios. A outra referência é a essa figura central do nosso presente que os caras não deixam nem falar.

Ao longo da minha vida, estive 14 anos fora do Brasil, em exílio. Uma parte dele foi voluntária, quando eu vivi na França. A soma dos meus anos na Argentina e na França, em função das minhas escolhas políticas, resultou em 14 anos fora do país. Eu me sinto hoje no Brasil um exilado. Eu não digo muito isso para passar um viés derrotista. Tenho convicção que é uma maneira muito profunda de dizer o que, para algumas pessoas, pode ser muito precoce e inadequado. Mas, geracionalmente, essa expressão, dita por um cara da velha guarda como eu guarda toda sua intensidade. Ela é escandalosamente significativa do que esses caras fizeram…É uma expressão que uso com certa discrição e pudor, mas ela tem uma potência descritiva de dizer onde nós estamos.

Quando até a tua rua te é um pouco estranha e quando os caras com quem cruzava no bairro também despertam estranhamento e incerteza, chegamos a um ponto que dispensa maiores explicações. Eles não colocaram uma baioneta no nosso peito, mas há uma baioneta invisível nos espetando. Esse estranhamento na rua, no supermercado ou em um restaurante expressa uma percepção que diz: esse não é meu lugar. Eles nem percebem esse nosso sentimento. Na verdade, eles acham que tinham que nos matar como já foi verbalizado expressamente várias vezes. Isso já basta para causar um grande desconforto entre nós, para dizer o mínimo. O cara que está torcendo pelo Inter ao teu lado no Beira Rio pode ser um cara que quer te matar.

Eu não vou emigrar pro causa disso, mas é inquietante que muitos jovens e não jovens comentam, em encontros, com certo humor: quando é que vamos pra lá, ou vamos pra cá…Isso ainda é precoce, mas o fato de que o mundo que eles estão construindo provoque enorme estranheza em nós também nos dá um estímulo para consolidar a percepção que combate a normalização, que mantém a indignação permanente em relação à prisão de Lula e que não se acostuma nunca ao que eles estão fazendo. Faz parte da técnica deles, como vários artigos já afirmaram, produzir fenômenos colaterais para atrair atenções críticas e distrair das políticas fundamentais que constituem o centro da estratégia deles. Eles conseguiram criar o “dream team” do horror, a seleção mundial do ruim. Isso também fará parte da maldição de seus eleitores. Eles terão que se olhar no espelho e vão dar de cara com essa gente.

Parece que há uma espécie de fascínio pela destruição. Todas as medidas anunciadas até aqui anunciam uma desconstituição, uma destruição. Estão anunciando rupturas com todos os acordos internacionais assinados pelo Brasil, fazendo regressões espantosas. É uma máquina de perder terreno. O mesmo se aplica à venda de patrimônio. Estão perdendo território internacional e respeitabilidade, nomeando pessoas caricatas, liquidando patrimônio nacional e perdendo capacidade estratégica. É uma agenda totalmente anti-Brasil. Mais do que isso, trata-se de uma regressão civilizatória. Assim como eles tiveram que recolher as panelas, que não foram mais localizadas, todas as camisetas verde-amarelas terão que ser guardadas agora. O próprio presidente deles fica batendo continência para a bandeira norte-americana. Isso não é uma caricatura, mas algo gravíssimo.

Sul21: Há alguma comparação possível entre esses sentimentos de estranhamento e exílio, hoje, e o que sentiu no período do golpe de 64?

Flavio Koutzii: Hoje é muito pior do que em 64. Naquela época, o inimigo era bem identificado, muitos vestiam uniforme. Hoje pode ser o vizinho de baixo. Em 64, o problema era com os “comunas”, os guerrilheiros. Hoje, homossexuais estão sendo perseguidos e atacados nas ruas. O racismo também está à solta. Não tem comparação, o que é algo horroroso de dizer. *Fonte: Sul21   (Grifos deste Blog)

GERMINAL


Coluna Crítica & Autocrítica - nº 148





GERMINAL (Resenha)

Por Júlio Garcia**

"Na estrada de terra que liga a pequena cidade de Marchiennes à de Montsou, no Norte da França, um homem caminha, só, durante a noite sem estrelas.

O homem tinha saído às duas horas de Marchiennes e caminhava com passos largos, tremendo sob o vento glacial. Uma única ideia ocupava o pensamento desse operário desempregado: a esperança de que o frio diminuísse com o raiar do dia”.

Assim inicia Germinal, magistral obra do escritor francês Émile Zola, sem dúvida um dos grandes romances do século XIX, expoente maior da escola que ficou conhecida como ‘naturalismo literário’.

Émile Zola baseou-se para escrevê-la em acontecimentos verídicos ocorridos nas minas de carvão do Norte da França, em 1867, período da Revolução Industrial. Trabalhou como mineiro e como repórter, vivenciando e testemunhando a duríssima realidade social e a brutalidade do cotidiano nas minas, onde a insegurança, as péssimas condições de vida e de trabalho, aliadas a salários escorchantes, a exploração desumana de uma carga horária de até 16 horas diárias que não poupava sequer velhos, mulheres e crianças, somadas à fome, miséria e promiscuidade eram a tônica.

Segundo explica Silvana Salerno, tradutora da obra editada pela Cia Das Letras/2000 e também responsável pela sua adaptação “Germinal é o nome do primeiro mês da primavera no calendário da Revolução Francesa. Ao usar essa palavra como título de seu livro, Zola associa as sementes das novas plantas à possibilidade de transformação social: por mais que se arranquem os brotos das mudanças, eles sempre voltarão a germinar”. Informa ainda que “Germinal é o primeiro romance a enfocar a luta de classes no momento de sua eclosão. A história se passa na segunda metade do século XIX, mas os sofrimentos que Zola descreve continuam presentes em nosso tempo. É uma obra em tons escuros. Termina ensolarada, com a esperança de uma nova ordem social para o mundo”.

Silvana Salerno está coberta de razão. A leitura de Germinal é, sem nenhum exagero - e por todas as razões já elencadas - imprescindível. Está também disponível em vídeo, através de uma produção francesa de 1993, muito bem dirigida por Claude Berri, trazendo no elenco nada mais nada menos do que Gerárd Depárdieu, Miou-Miou, Jean Carmet e Jean-Roger Milo, dentre outros excelentes atores.

Para concluir, vejam só a profunda esperança no porvir, a certeza da vitória final dos trabalhadores, recheada da mais pura poesia, inseridas nesse fecho extraordinário que Émile Zola dá para sua obra magistral, agora buscando a tradução de Francisco Bittencour (Abril Cultural, SP - 1981):

“Agora, em pleno céu, o sol de abril brilhava em toda sua glória, aquecendo a terra que germinava. Do flanco nutriz brotava a vida, os rebentos desabrochavam em folhas verdes, os campos estremeciam com o brotar da relva. Por todos os lados as sementes cresciam, alongavam-se, furavam a planície, em seu caminho para o calor e a luz. Um transbordamento de seiva escorria sussurrante, o ruído dos germes expandia-se num grande beijo. E ainda, cada vez mais distintamente, como se estivessem mais próximos da superfície, os companheiros cavavam. Aos raios chamejantes do astro rei, naquela manhã de juventude, era daquele rumor que o campo estava cheio. Homens brotavam, um exército negro, vingador, que germinava lentamente nos sulcos da terra, crescendo para as colheitas do século futuro, cuja germinação não tardaria em fazer rebentar a terra”.
...

*Nota deste Escrevinhador: A Resenha acima, de minha autoria, foi publicada na Edição que circulou em 27/04/2018 deste conceituado jornal, inaugurando a série de Colunas que venho publicando desde então, na qualidade de colaborador do mesmo. Atendendo a vários pedidos, estou republicando-a.

Em que pese os tempos sombrios e o retrocesso brutal que estamos vivenciando em nosso país – e no mundo! -, Germinal, essa grande obra-prima da literatura mundial que recomendo leitura, contém, além do belíssimo relato da luta dos trabalhadores naquele (também) conturbado período da humanidade, inegável pujança e atualidade, bem como profunda Poesia e ensinamentos sobre Resistência, Esperança - e a busca permanente por um Outro Mundo Possível’ (sem explorados e sem exploradores).

#Alutasegue!
...

**Júlio César Schmitt Garcia é Advogado, Pós-Graduado em Direito do Estado, Midioativista. Foi um dos fundadores do PT e da CUT. - Republicado no Jornal A Folha (do qual é Colunista) em 11/01/2019.

12 janeiro 2019

Não se enganem: loucura não tem método; se tem método, não é loucura



Por Luís Costa Pinto, do Jornalistas pela Democracia*Hoje, logo cedo, a internet foi impactada com o escárnio da dança de Queiroz, mulher e filha, todos de laranja, no Einstein, dando uma traulitada na cara do Brasil, dos brasileiros, da Justiça e do Ministério Público.

Um nojo. A bolsolândia torceu, em silêncio, para que a repercussão fosse ínfima. Perderam, os playboys: as redes sociais fermentam, indignadas. Inclusive as deles. Queiroz, mantenedor da família Bolsonaro, pagador de cheque a Michele, é um fio desencapado a ameaçar a família e o Palácio. No meio da tarde, diante da repercussão, os advogados de Queiroz deram uma resposta pedestre. O Einstein, que deve explicações, calou. A bolsolândia calou.

E Bolsonaro? Ora, o presidente respondeu atacando: criou um post estúpido - estúpido, criminosamente acintoso - tentando unir PCC e CV na crise de segurança pública do Ceará ao MST e ao MTST.

Por que ele fez isso hoje, sábado à tarde? Por estratégia diversionista. Quer criar um burburinho, um buzz, uma onda de indignação (justificada) a seu post nos partidos e movimentos de oposição e desviar o foco do escândalo de Queiroz - o laranja.

As duas coisas são criminosas.

O evento Queiroz derrete a popularidade e a credibilidade de Bolsonaro e de seus filhos na turma dele. Uma coisa e outra têm de ser tratadas com a mesma intensidade de repercussão.

A estratégia diversionista de Bolsonaro está no manual de ações em redes sociais de Steve Banon. Foi usada por Trump em 2016, na campanha, e ao longo dos dois últimos anos. Agora, como a mídia tradicional americana redobrou a vigilância e passou a conhecer os métodos trumpistas (copiados aqui), não funcionam mais.

Sigamos sem arrefecer a cobrança a Queiroz e ao Einstein.

E passemos a esconjurar a falta de responsabilidade política e de qualquer traço de maturidade em um presidente que tuíta como se fosse um parvo assessor dos próprios filhos.

Se há um burro zurrando nessa história ele despacha no Planalto e veste a faixa por cima da bolsa de colostomia.

11 janeiro 2019

Maduro não está isolado e posse teve representantes de 94 países





A posse do presidente Nicolás Maduro para o exercício de seu segundo mandato como presidente da Venezuela contou com a presença de importantes delegações internacionais, de 94 países, organismos internacionais, entre estes a ONU e suas agências, a Organização da Unidade Africana (OUA) e a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep); reportagem de José Reinaldo Carvalho, enviado especial do 247 a Caracas

De Caracas, José Reinaldo Carvalho* - A posse do presidente Nicolás Maduro para o exercício de seu segundo mandato como presidente da Venezuela contou com a presença de importantes delegações internacionais, de 94 países, organismos internacionais, entre estes a Organização das Nações Unidas (ONU) e suas agências, a Organização da Unidade Africana (OUA) e a Organizaçao dos Países Produtores de Petróleo (Opep).

O presidente da China, Xi Jinping enviou como seu representante o ministro da Agricultura, Han Changfu; da Rússia chegou um alto representante do presidente Vladimir Putin e da Turquia o vice-presidente da República, Fuat Otkay, representando o presidente Erdogan. Também participaram, altos representantes do Irã, Palestina, África do Sul, Belarus, Argélia, Egito, Iraque, Síria, Coreia do Norte, Laos e Vietnã, entre outros.

Presidentes e primeiros-ministros foram pessoalmente a Caracas levar seu apoio a Nicolás Maduro: Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba, Evo Morales, da Bolívia; Salvador Sanchez Ceren, de Salvador; Daniel Ortega da Nicarágua; os presidentes da Abkhasia e da Ossétia do Sul, o primeiro-ministro de San Cristobal y Nieves; o vice-presidente do Suriname, além de chanceleres e altos representantes latino-americanos, caribenhos, europeus, asiáticos e do Oriente Médio.

Dezenas de partidos políticos e organizações partidárias e de Movimentos sociais de todo o mundo também foram levar seu apoio à posse de Nicolás Maduro.

O Brasil enviou uma representativa delegação de partidos políticos e movimentos sociais: a presidenta nacional do PT, senadora Gleisi Hofmann, o secretário de Relações Internacionais do PCdoB, Walter Sorrentino, o líder do MST, João Pedro Stédile, a presidenta do Conselho Mundial da Paz, Socorro Gomes e José Reinaldo Carvalho, jornalista, também dirigente do Partido Comunista do Brasil e editor do sítio Resistência.

Em contundente pronunciamento dirigido à comunidade internacional, o presidente Maduro rechaçou as ameaças de agressão do imperialismo estadunidense e seus países satélites e da União Europeia. Criticou a direita latino-americana e mundial e chamou a atenção para a ofensiva da extrema-direita, destacando nominalmente como fascista o presidente recém-empossado do Brasil.

Indicou que a Venezuela diz ao mundo que não aceita o intervencionismo, nem a tutela de governos estrangeiros e que são os próprios venezuelanos que decidem os destinos de sua nação.  

Maduro apresentou a proposta de realizar uma reunião de cúpula especial com representantes de governos da América Latina e Caribe para abordar temas de interesse comum, uma agenda aberta para discutir todos os temas frente a frente. 

*Via 247

CÁLICE!



*Chico Buarque e Milton Nascimento

10 janeiro 2019

Gleisi Hoffmann leva apoio do PT ao povo da Venezuela

Gleisi participa nesta semana da posse do presidente da Venezuela e rechaça o intervencionismo e a posição agressiva do atual governo brasileiro contra o país 

Estarei em Caracas esta semana participando da posse de Maduro:

1. Para mostrar que a posição agressiva do governo Bolsonaro contra a Venezuela tem forte oposição no Brasil e contraria nossa tradição diplomática.

2. Para deixar claro que não concordamos com a política intervencionista e golpista incentivada pelos Estados Unidos, com a adesão do atual governo brasileiro e outros governos reacionários. Bloqueios, sanções e manobras de sabotagem ferem o direito internacional, levando o povo venezuelano a sofrimentos brutais.

3. Porque é inaceitável que se vire as costas ou se tente tirar proveito político quando uma nação enfrenta dificuldades. Trata-se de um país que tem relações diplomáticas e comerciais importantes com o Brasil. Impor castigos ideológicos aos venezuelanos também resultará em graves problemas imigratórios, comerciais e financeiros para os brasileiros.

4. Porque o PT defende, como é próprio da melhor história diplomática de nosso país, o princípio inalienável da autodeterminação dos povos. Nossa Constituição se posiciona pela não-intervenção e a solução pacífica dos conflitos. Os governos liderados por nosso partido sempre foram protagonistas de mediações e negociações para buscar soluções pacíficas e marcadas pelo respeito à autonomia de todas as nações.

5. Porque somos solidários à posição do governo mexicano e de outros Estados latino-americanos que recusaram claramente a posição do chamado Grupo de Lima, abertamente alinhada com a postura belicista da Casa Branca.

6. Porque reconhecemos o voto popular pelo qual Nicolas Maduro foi eleito, conforme regras constitucionais vigentes, enfrentando candidaturas legítimas da oposição democrática.

7. Em qualquer país em que os direitos do povo estiverem ameaçados, por interesses das elites e dos interesses econômicos externos, o PT estará sempre solidário ao povo, aos que mais precisam de apoio. O respeito à soberania dos países e a solidariedade internacional são princípios dos quais não vamos abrir mão.

 Presidenta do PT