04 abril 2026

Entrevistas - "Lula venceu com Alckmin e vai vencer novamente", diz Gleisi Hoffmann

Gleisi Hoffmann defende a manutenção da chapa e destaca o papel político e administrativo do vice-presidente

Gleisi Hoffmann (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)

247* - A confirmação de Geraldo Alckmin como vice na chapa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a disputa de 2026 foi tratada pela ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, como um movimento de consolidação política do governo e da estratégia eleitoral do campo governista. Ao comentar a decisão, ela afirmou que a permanência de Alckmin reforça uma composição que já demonstrou capacidade de vitória e que, na avaliação dela, reúne condições para repetir o resultado na próxima eleição.

Em entrevista ao programa Boa Noite 247, Gleisi disse que havia expectativa em torno do futuro político de Alckmin e afirmou que a decisão de Lula encerrou as especulações sobre a possibilidade de o vice disputar o governo de São Paulo. Segundo a ministra, a definição foi recebida de forma positiva dentro do governo. “Acho que foi muito importante. Já era algo que todo mundo estava ansioso para saber, como que seria o destino do Alckmin, se ele ficaria mesmo candidato a vice ou iria para São Paulo. E o presidente bateu o martelo que ele é o candidato a vice”, declarou.

Ao desenvolver o argumento, Gleisi associou a confirmação de Alckmin à estabilidade da aliança que sustenta o governo federal desde 2022. Na leitura dela, a composição preserva um arranjo que funcionou politicamente e que segue tendo utilidade no cenário atual. “Acho que isso consolida uma chapa que é vitoriosa, foi vitoriosa e será vitoriosa novamente”, afirmou. A ministra ainda observou que a decisão foi “bastante aplaudida” e atribuiu a recepção favorável ao espaço que o vice-presidente construiu tanto no Executivo quanto na base social de apoio ao governo.

Na entrevista, Gleisi procurou destacar não apenas o peso eleitoral de Alckmin, mas também sua atuação no exercício do cargo. Segundo ela, o vice-presidente acumulou credenciais políticas e administrativas ao longo do mandato, sobretudo à frente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. “O vice-presidente Geraldo Alckmin tem cumprido um papel importante como vice-presidente, mas também como ministro do Desenvolvimento, da Indústria e Comércio”, disse. Em seguida, acrescentou: “Tem sido sempre muito responsável, leal. Enfim, todo mundo gosta muito dele”.

A ministra enquadrou a escolha dentro de uma lógica de continuidade. Ao lembrar que Lula repetiu em 2006 uma fórmula política anterior, ela sugeriu que a manutenção de Alckmin segue o mesmo raciocínio de preservar uma composição considerada funcional. “A chapa que deu certo vai dar certo de novo. O presidente Lula repete a fórmula que fez na sua reeleição de 2006”, afirmou.

A defesa da permanência de Alckmin foi apresentada por Gleisi num contexto mais amplo de balanço do governo. Ao relatar a reunião ministerial realizada no último dia de sua passagem pela Secretaria de Relações Institucionais, ela disse que o encontro serviu para consolidar entre os integrantes do governo a narrativa sobre os resultados entregues pela administração Lula. Na avaliação da ministra, o peso político da chapa não pode ser dissociado do desempenho administrativo do governo ao longo do mandato.

Segundo Gleisi, a reunião teve o objetivo de alinhar ministros que deixam o governo para disputar as eleições e aqueles que permanecem na gestão, de modo que todos possam sustentar publicamente o legado acumulado até aqui. “Esse balanço do governo, ele queria que todos os ministros que estão saindo, que estão entrando, se apropriassem disso”, afirmou. Para ela, esse processo de apropriação política dos resultados é decisivo porque “as entregas que esse governo está fazendo” também funcionam como “instrumento de disputa política”.

A ministra sustentou que o atual mandato de Lula reúne um volume de realizações superior ao de administrações anteriores do próprio presidente e da ex-presidente Dilma Rousseff. “Esse é um governo que, do ponto de vista histórico, foi o que mais fez entregas”, declarou. De acordo com ela, os dados apresentados na reunião, especialmente pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa, apontam resultados expressivos em áreas como políticas sociais, infraestrutura e desenvolvimento econômico.

Dentro dessa leitura, a presença de Alckmin na chapa aparece, no discurso de Gleisi, como um elemento que ajuda a dar coesão à mensagem de continuidade. Ao mencionar a atuação do vice também no campo econômico, ela vinculou sua permanência não só à composição política necessária para a eleição, mas à tentativa de associar a chapa a resultados concretos do governo. O argumento central da ministra é que a aliança Lula-Alckmin não se resume a uma conveniência eleitoral, mas expressa um arranjo que, sob sua ótica, se mostrou funcional na administração e tende a seguir desempenhando esse papel numa eventual recondução.

Ao final, a fala de Gleisi delineia uma estratégia clara: transformar a confirmação de Alckmin em sinal de previsibilidade política, de unidade governista e de continuidade de gestão. Nessa formulação, a repetição da chapa serve para reafirmar uma identidade eleitoral já testada, ao mesmo tempo em que busca apresentar o vice-presidente como parte integrante dos resultados que o governo pretende levar ao debate público em 2026.

*Fonte: https://www.brasil247.com/

02 abril 2026

Partido - 8º Congresso do PT. Congresso?

 

Reproduzimos abaixo o texto de Markus Sokol [foto], do Comitê Nacional do DAP, publicado na edição 958 do Jornal O Trabalho.

No mês que vem, 23 a 26 de abril, está marcado o 8º Congresso do PT, em Brasília. Quem sabe quem está efetivamente engajado?

Ele foi convocado pelo Diretório Nacional de dezembro. Será composto pela metade dos delegados já eleitos no Processo Eleitoral Direto de julho de 2025, que também elegeu todas as direções, inclusive o atual Diretório Nacional, formalizado no Encontro Nacional dos delegados em agosto de 2025.

Para que, então, um Congresso? 

Em tese, para além das resoluções políticas de agosto, ficou pendente a revisão do estatuto e do próprio PED, adiada há vários anos (só um congresso pode dispor dos estatutos).

Mas estamos vendo uma revisão feita pela cúpula das cúpulas, sem participação das bases. 

A corrente de Lula, o CNB, tem ampliado sua maioria. É muito difícil acreditar que ela faça, de cima para baixo, a revisão da engrenagem que fez e ampliou a sua maioria isolada. A engrenagem que empoderou a cúpula, a qual prolongou os seus mandatos e os dos parlamentares, que esvaziou os debates limitados à “mobilização” pelas máquinas dos filiados para votar. Rolam milhões. A compra de votos é visível em vários locais, há intimidação e até fraude que não costuma ser punida.

É verdade que tem muita gente insatisfeita, até algumas lideranças, mas isso vai mudar? Mantido o Fundo Partidário, o Fundão Eleitoral e as Emendas Parlamentares, no essencial, é improvável.

A “Fase de Debates”

No caminho do Congresso, a pauta foi sendo ampliada, de modo que hoje são cinco pontos: Programa do PT, Conjuntura e Tática Eleitoral, Programa de Governo, Estatutos e Fundação Perseu Abramo. É muita ambição! 

Foram criados cinco Grupos de Trabalho que publicaram há duas semanas os cinco textos base que somam umas 150 páginas https://congresso.pt.org.br/.

Caso o leitor não saiba, pode verificar, até dia 22 de março estamos em plena “Fase de Debates”. O autor não saberia dizer onde. O que está dito no site é que é um “processo de escuta”… via uma ficha a ser enviada por lá. Mas sem transparência, nem contraditório, isso não é debate. Parece mais o PC da China, em cujo Congresso dezenas de milhões de militantes podem enviar propostas por meio digital.

Aqui, no dia 22 serão publicados os Projetos de Resolução. Aqueles delegados eleitos no ano passado terão até 5 de abril para apresentar emendas. 

Vão consultar quem além da sua consciência, os líderes de bancada? 

Daí, os GTs tem uma semana, até o dia 12 de abril, para “sistematizar as propostas e publicar a versão final dos Projetos de Resolução” que, a seu critério, irão a voto no plenário. Maravilha!

Antissistema 

O PT foi muitos anos “contra tudo que está aí”, contra o imperialismo e pelo socialismo, e era diabolizado pela direita por que estava pelo “nós contra eles”.

Agora, para ser sintético, os textos políticos emanados de GT, menos um dos dois alternativos da AE, todos defendem alianças de fato com alguns “deles”. Aí não cabe Reestatização, Imposto de Grandes Fortunas ou Reforma Agrária.

No frigir dos ovos, todos os textos defendem que para ser melhor o próximo governo de Lula precisamos eleger mais senadores e deputados – quando todos eles (menos os lunáticos!) sabem que com as atuais regras eleitorais não vai mudar a relação de forças. 

Por isso, a centralidade da Reforma Política para uma Constituinte Soberana, naturalmente, com Lula presidente.

Uma questão é saber se o Congresso do PT está disposto a abrir o debate no bojo das eleições. É a melhor forma de dar credibilidade e confiança, em falta nas pesquisas, para o justo mote “antissistema” que Lula e Edinho sinalizaram.

*Via site do Diálogo e Ação Petista - DAP - (Edição final deste Blog).


01 abril 2026

Andresito*

 


*Andrés Guacurarí (Comandante Andresito, grande liderança Guarani Missioneira das 'Províncias Unidas do Rio da Prata' na luta contra os invasores Portugueses e Espanhóis (início do Séc. XVIII).

ÚLTIMO DISCURSO DO - BRAVO! - DEPUTADO FEDERAL MILTON GARCIA DUTRA (PTB/RS), CASSADO PELO GOLPE CIVIL/MILITAR DE 1º DE ABRIL DE 1964

 

Deputado Federal Milton Garcia Dutra - PTB/RS 

Por Yamil E Souza Dutra*

O último discurso de meu pai, Milton Garcia Dutra, na Câmara dos Deputados, em abril de 1964, ao ter seu mandato de deputado, livremente eleito pelo povo do Rio Grande do Sul, cassado pelos militares golpistas e usurpadores dos poderes democráticos!
O registro está documentado no Diário do Congresso Nacional, abril de 1964., pag 3.:

"O SR. MILTON DUTRA:
Sr. Presidente, na manhã de hoje li uma relação de nomes de brasileiros que tiveram seus direitos políticos suspensos pelo Comando Revolucionário. Entre esses nomes estava o meu.
Quando a esta Casa cheguei, foi-me comunicado que, num entendimento unânime, se pretendia que implicitamente tivesse perdido o meu mandato de Deputado.
Realmente, Sr. Presidente, aquele foi o dia da minha vida que jamais encontrarei entre os vivos para assistir a esta ignomínia. Estudante pobre, que lutou com sacrifícios para se formar, que veio para a política sob o comando ideológico de Alberto Pasqualini e pautou sua existência pelos ditames da moral e pelo exemplo de homem honrado que foi meu pai, nunca me ocupei dos cargos públicos obtidos por concurso e tive a honra de representar o Município, seus cidadãos, na Câmara de Vereadores, o Estado, por duas vezes, na Assembleia Legislativa, e agora aqui, pela vontade dos eleitores.
Estou também na tribuna para afirmar que o convívio democrático dos políticos do Brasil me assegura que estes dias de trevas hão de ser sucedidos por uma madrugada esplendorosa.
O fato é episódio daqueles mesmos que hoje se derramam pelos excessos hão de sofrer inspiração divina para se reencontrarem na tradição do povo brasileiro, inimigo da violência, jamais concorde com o arbítrio.
Promotor de Justiça, sempre exerci a minha função como representante da sociedade e como fiscal da execução das leis. Transformei todos os réus que acusei em homens que me respeitaram porque nunca excedi os limites de uma acusação justa.
Não transigi com a improbidade e nunca me servi do poder para obter vantagens pessoais. Secretário de Estado no Rio Grande do Sul, deixei marcada minha passagem pelo trabalho e esforço, que me valeram o maior prêmio que o Rio Grande concede aos que lutam pela economia do Estado.
Posso conjecturar, as razões pelas quais o Comando Revolucionário chegou a essa decisão. Talvez se quisesse punir a lealdade de um homem, talvez se queira dizer que um amigo não pode ser amigo e que um companheiro político não pode se comportar como tal.
Se os motivos da cassação foram esses, recebo este fato como a honra máxima de minha vida política.
Mas, se foram de ordem pessoal, se me querem atribuir atos que me desonrem, afirmo que hei de bater às portas de todos os tribunais do mundo, se preciso, na restauração de minha dignidade.
Exijo, Sr. Presidente, desta tribuna que venham a público os vitoriosos e digam perante a Nação, especialmente perante meu Estado, as razões pelas quais me cassaram o direito de influir na vida do meu País, de ajudar meu povo e de me colocar a serviço, particularmente de suas classes mais humildes."

*Advogado, Procurador - trabalhou como Senior Advisor na empresa Brazilian Bar Association, além de ter estudado Information Sciences na instituição de ensino University of Maryland, College Park 
 
**Via Face do Autor.

***O bravo Ex-Deputado Milton Garcia Dutra (advogado e promotor) nasceu em  11/11/1916, em Santiago do Boqueirão/RS e  faleceu em 22/03/2008 em Porto Alegre/RS. - Grifos e Edição final deste Blog. (JG)

31 março 2026

DITADURA NUNCA MAIS!!!!

 

José Dirceu

Por José Dirceu*

31 de março é data para não esquecer jamais. Em 1964, neste mesmo dia, deu-se o início de uma longa noite de 21 anos, que mergulhou o Brasil na censura, na perseguição política, na tortura e na negação das liberdades mais básicas.

Foi o dia em que tanques substituíram o voto. Um momento a partir do qual a Constituição foi rasgada, muitos brasileiros pagaram com a própria vida, e outros foram levados ao exílio ou ao silêncio forçado, com marcas que não desapareceram. Mas tantos, como eu, enfrentaram e resistiram em nome da democracia e da verdadeira liberdade de cada brasileiro e cada brasileira.


Lembrar o 31 de março é um ato de responsabilidade com o presente e com o futuro. E alertar para os grupos saudosos daquele período, que tentam reescrever sua história ou minimizar seus crimes. E que sonham com o autoritarismo e a anistia a golpistas.
Democracia é uma construção diária, que exige memória, vigilância e compromisso permanente. Avançaremos não com sombras e sim com mais liberdade, mais justiça e mais participação popular.


**Edição final deste Blog

Nova Esplanada - Alckmin deixa ministério da Indústria e será novamente vice na chapa de Lula

Em reunião ministerial, Lula afirmou que 18 ministros deixarão o governo para disputar o pleito

O presidente Lula e o seu vice, Geraldo Alckmin, durante evento de anúncios de investimentos em urbanização de favelas | Crédito: Ricardo Stuckert/Presidência da República


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou, nesta terça-feira (31), que o vice-presidente Geraldo Alckmin deixará o ministério da Indústria. Em uma reunião ministerial, o mandatário disse que Alckmin será novamente vice na chapa para disputar a presidência. Por determinação da lei eleitoral, todos os ministros que forem disputar cargos públicos devem deixar seus cargos seis meses antes da disputa. 

O encontro teve a participação de ministros e de secretários que ocuparão os postos deixados pelo alto escalão que disputará o pleito.

Segundo Lula, 14 ministros já formalizaram a saída da Esplanada para disputar cargos nas eleições, enquanto outros quatro ainda devem pedir para sair nos próximos dias. O presidente agradeceu o “empenho” e o trabalho de todos que ocuparam o alto escalão ao longo dos últimos três anos.

“É necessário que vocês sejam candidatos para mudar a política. Hoje é o dia da dissolução, e eu sou muito grato pelos serviços que vocês prestaram ao meu governo. Não tenho preocupação em olhar para vocês e comparar com outros governos. Nós fizemos mais e com mais precisão. Ainda mais comparando com o governo que substituímos. Nós pegamos o Ibama com 700 funcionários a menos. O país foi montado para não funcionar, e agora está preparado para funcionar”, disse Lula.

Outro nome a deixar a Esplanada será o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa. Ele disputará o Senado na Bahia e dará lugar a Miriam Belchior, que era secretária-executiva da Casa Civil. Ela já havia sido ministra do Planejamento durante a gestão de Dilma Rousseff. 

Costa foi o segundo a discursar na reunião. Ele apresentou dados e indicadores econômicos dos ministérios ao longo dos três anos de gestão petista. O ministro destacou a queda na desigualdade e a queda recorde do desemprego no país (5,4%), alcançando a menor taxa da série histórica.

A maioria dos ministros deixará o governo para disputar a corrida ao Senado. Alguns devem concorrer à Câmara dos Deputados. Outros não têm ainda uma definição, como é o caso de Macaé Evaristo, ministra dos Direitos Humanos, que não definiu que cargo irá disputar.

A substituição em alguns ministérios também será definida na reunião. Anielle Franco, na Igualdade Racial, e Márcio França, no Empreendedorismo, não têm nome certo para a troca.

O ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, deixará o cargo só em junho para ser marketeiro da campanha de Lula. Ele já havia coordenado a comunicação da campanha de 2022.

*Por Lorenzo Santiago - Editado por: Rafaella Coury - Via BdF

30 março 2026

O antifascismo não tem dono e a direita precisa entrar no debate

Quando esses setores se retiram do debate sobre o autoritarismo, eles deixam o campo livre para que o radicalismo avance sem contrapesos

   Foto: Guilherme Santos/Sul21


Por Andréa Sommer (*)

A ideia de que o combate ao fascismo é um papel exclusivo da esquerda é um grande equívoco. No senso comum, nas redes sociais, conversas informais, criou-se a narrativa de que pessoas de direita estariam, “por natureza”, distantes dessa pauta. No entanto, se olharmos para os fundamentos da ciência política e para a história das instituições, essa divisão não resiste a uma análise séria e profunda.

Ser de direita, seja na vertente liberal, conservadora ou democrata-cristã e ser antifascista não é contradição. Na verdade, é uma condição para a sobrevivência do próprio conservadorismo e do liberalismo. Afinal, se você defende eleições livres, a separação de poderes e a alternância no comando, você está, na prática, rejeitando a essência do fascismo.

Regimes autoritários não surgem do nada. Eles não dependem apenas de líderes radicais, mas da cumplicidade de quem deveria vigiar as instituições. Na Itália de Mussolini ou na Alemanha de Hitler, a democracia não ruiu num piscar de olhos, mas foi corroída quando parcelas importantes da sociedade decidiram que “flexibilizar” certas regras em nome de um inimigo comum era aceitável.

O perigo começa quando a polarização cega o cidadão para o fato de que a democracia depende, fundamentalmente, do direito de discordar. Se você acredita que a oposição deve manifestar-se sem medo de perseguição e que a imprensa deve ser livre para criticar qualquer governo, você já opera princípios antifascistas.

Porto Alegre sedia a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos. O evento coloca a capital gaúcha no centro de um debate global urgente sobre os riscos do autoritarismo. A pergunta incômoda, mas necessária, é: quantas pessoas da direita democrática estarão atentas a essas discussões?

Não se trata de concordar com todas as teses que serão apresentadas, mas de entender que o extremismo é uma ameaça universal. Historicamente, a direita democrática sempre foi o fiel da balança na manutenção da estabilidade institucional e da segurança jurídica. Quando esses setores se retiram do debate sobre o autoritarismo, eles deixam o campo livre para que o radicalismo avance sem contrapesos.

Na democracia, o conflito é normal e saudável. O problema surge quando a política deixa de ser uma disputa de projetos e passa a ser uma lógica de eliminação do adversário. Quando essa linha se apaga, todos perdem, independentemente da ideologia.

O fascismo não ataca apenas um lado, ele tira liberdades individuais e a própria possibilidade de participação política de todos os cidadãos. Fugir dessa reflexão pode ter consequências graves. No fim das contas, a questão central de 2026 não é se você se identifica com a direita ou com a esquerda. A pergunta que define o nosso tempo é: se a democracia começar a ser ameaçada por ideias autoritárias, de que lado da história você estará?

(*) Jornalista/Cientista Política - Fonte: Sul21

29 março 2026

50 ANOS DA FORMATURA EM DIREITO DO MEU PAI, DR. JOSÉ NUNES GARCIA*

 









*Visitando (sexta-feira, 20/03/2026) as dependências da Faculdade de Direito de Santo Ângelo/RS - CNEC (e o hotel onde ele se hospedava) - com meu querido pai, colega, sócio, companheiro e amigo Dr. José Nunes Garcia, no dia em que ele comemorou 50 ANOS de sua Formatura no Curso de Direito por essa Faculdade.
**Parabéns e muitas felicidades, Doutor (hoje também Defensor Público Inativo)!!!

**Via Face

28 março 2026

ANTIFASCISMO - Entre instituições e ruas: lideranças defendem mobilização popular contra o fascismo

Debate na Conferência Internacional Antifascista em Porto Alegre aponta limites da ação institucional


Debate reuniu parlamentares de diversos paises na Assembleria legisdlativa do RS | Crédito: Vinícius Manfron

Por *

A atuação institucional diante do avanço da extrema direita foi o eixo da mesa “Papel e limites da ação institucional na luta democrática”, realizada nesta quinta-feira (26), em Porto Alegre, durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela soberania dos povos. O encontro destacou a importância da articulação global, da mobilização popular e da atuação institucional para enfrentar o fascismo, o neoliberalismo e as desigualdades sociais.

O debate, mediado pelas deputadas federais Maria do Rosário (PT/TS) e Daiana Santos (PCdoB/RS), reuniu lideranças como o senador uruguaio Oscar Andrade, a eurodeputada espanhola Ana Miranda, o eurodeputado português João Oliveira, Abdul Osmanu (conselheiro municipal dos Estados Unidos), o deputado Glauber Braga (Brasil), o deputado Erkan Baş (Turquia) e a ex-deputada argentina Vilma Ripoll.

O papel da institucionalidade na América Latina: avanços e limites

O senador Oscar Andrade, do Partido Comunista do Uruguai e da Frente Ampla, iniciou a fala questionando se é possível triunfar contra um sistema econômico que classificou como perverso e cruel. Ele afirmou que “não há limites” para a luta dos povos, incluindo a atuação institucional.

Ele destacou que a conquista de governos progressistas trouxe avanços, mas também revelou limites. “Ter o governo é melhor que não ter, é indiscutível, mas não é suficiente para enfrentar um bloco de poder hegemônico.”

Andrade também apontou dificuldades comuns na região, como o distanciamento entre governos e suas bases sociais. “Muitas vezes terminamos em confronto com a base social que nos deu nascimento”, afirmou, citando experiências no Brasil, Uruguai, Argentina e Equador.

Outro ponto crítico, segundo ele, é o abandono da disputa no campo das ideias. “Confundimos o incremento de políticas sociais com a construção de uma população mais solidária”, disse. Segundo ele, isso pode resultar em reações de setores populares influenciados pelo individualismo e pela meritocracia.

Para o senador, o desafio é articular estratégias de longo prazo com ações táticas imediatas, avaliando não apenas resultados de governo, mas também avanços na consciência social e na organização popular. “Não há forma de defender a democracia se a democracia não se radicaliza. Não há saída nacional. A saída é global e passa pela unidade dos povos”, concluiu.

Senador uruguaio Oscar Andrade | Crédito: Nacho Lemus/Telesur

Extrema direita na Europa: avanço e apoio institucional

A eurodeputada Ana Miranda, do Bloco Nacionalista Galego, resgatou a memória do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, realizado há 25 anos, e defendeu a continuidade do internacionalismo. “Aquele espírito de que outro mundo é possível deve continuar.”

Miranda destacou a luta pela soberania dos povos, citando a Galiza, onde vive, uma comunidade autónoma da Espanha, além da Palestina e da República Saaraui, como exemplos de territórios que reivindicam reconhecimento e autodeterminação.

A parlamentar criticou o cenário europeu, denunciando “três grupos parlamentares neofascistas, neonazis, racistas e xenófobos no Parlamento Europeu” que utilizam instrumentos democráticos para disseminar discursos de ódio. Também relatou episódios de censura contra deputados antifascistas, enquanto parlamentares de extrema direita permanecem impunes.

Ela resgatou ainda a relação histórica entre a América Latina e povos europeus perseguidos pelo fascismo, destacando o acolhimento de exilados galegos no continente. Para a eurodeputada, o antifascismo é inseparável da política de esquerda. “Não se pode fazer política de esquerda se não é antifascista, anti-imperialista e anticapitalista.”

Mobilização de massas: essencial para mudanças além das instituições

O eurodeputado João Oliveira, do Partido Comunista Português, destacou a importância da conferência diante da ofensiva imperialista, especialmente dos Estados Unidos. Ele também saudou povos como os de Cuba, Venezuela, Palestina e Irã, países símbolos de resistência contra o imperialismo.

Oliveira apresentou quatro pontos centrais, entre eles a necessidade de articular ação institucional e luta popular. “A ação institucional tem mais relevância quanto mais estiver ligada à luta dos trabalhadores e dos povos”, afirmou.

Ele também alertou para o risco do “atentismo”, ou seja, a expectativa de mudanças apenas pela via institucional, e defendeu uma concepção ampliada de democracia, que inclua dimensões econômicas, sociais, culturais e participativas.

Por fim, enfatizou que o combate ao fascismo deve ser feito a partir do confronto de classe. “O fascismo é um instrumento do capital, a expressão violenta da ditadura do capital sobre os trabalhadores e os povos”, afirmou. “Compreender essa raiz é fundamental para enfrentar a extrema direita, que avança em instituições como o Parlamento Europeu com o apoio de forças conservadoras e social-democratas.”

Para Oliveira, o enfrentamento ao fascismo exige a construção de uma alternativa baseada na justiça social, na igualdade, na soberania e nos interesses dos trabalhadores e dos povos.

Contra-revolução global e precarização do trabalho

O deputado turco Erkan Baş afirmou que o mundo vive uma nova fase histórica, marcada por uma ofensiva global do capital, que definiu como uma contra-revolução de âmbito internacional. “Não estamos apenas diante de uma crise do capitalismo. O que estamos vivendo é um processo de contra-revolução organizada em escala mundial. Entramos em um novo período”, declarou.

Segundo ele, imperialismo e fascismo atuam de forma articulada, combinando guerras multidimensionais, tecnologias avançadas, formas autoritárias de política e um Estado reduzido a aparato de repressão. O objetivo, afirmou, é “liquidar todos os direitos e liberdades conquistados pelos trabalhadores e pelos povos”.

Para o deputado, essa dinâmica tem impactos diretos nas condições de vida. “Milhões de pessoas trabalham mais horas, mais dias e mais anos, e ainda assim vivem pior. Pela primeira vez, a nova geração é mais pobre que a anterior.”

Baş também denunciou a precarização do trabalho na Turquia. Segundo ele, nos últimos 25 anos, pelo menos 35 mil trabalhadores morreram no que são chamados de acidentes de trabalho, mas que ele considera “assassinatos no local de trabalho”. Destacou que 98% dessas mortes ocorreram em locais sem organização sindical, o que classificou como uma forma de “classicídio”.

Para o parlamentar, “neste período de reestruturação, o parlamento não é um local de soluções, é um campo de batalha”.

Ele reforçou que a transformação política depende da organização popular. “As pessoas não devem ser objeto da política, mas sujeitos dela. Sindicatos, organizações locais e a unidade da classe trabalhadora são a base.” E concluiu: “Não há salvação individual. A libertação só pode ser coletiva.”

Organização popular e internacionalismo nos Estados Unidos

O conselheiro municipal de Connecticut (EUA), Abdul Osmanu, fez um apelo à organização internacional da classe trabalhadora e ao enfrentamento direto ao fascismo e ao imperialismo. Jovem, negro, muçulmano e socialista, ele destacou sua trajetória e afirmou: “é o nosso momento de agir”.

Osmanu citou experiências brasileiras, como o orçamento participativo de Porto Alegre, que influenciaram iniciativas em sua cidade, ampliando a participação popular.

Ele criticou a separação entre política doméstica e internacional. “Os problemas da Palestina, do Irã, do Sudão e da Venezuela também são problemas dos Estados Unidos”. Filho de imigrantes ganeses, também criticou o papel de instituições internacionais na produção de desigualdades globais e defendeu o enfrentamento ao imperialismo como condição para a libertação dos povos. “Se não desmantelarmos o imperialismo, nossos povos não serão livres, e nós também não seremos.”

Ao final, reforçou o chamado à ação coletiva: “A filosofia interpreta o mundo, mas o ponto é transformá-lo.”

“Aquele espírito de que outro mundo é possível deve continuar”, enfatizou a eurodeputada Ana Miranda | Crédito: Vinícius Manfron

Diagnóstico de crise exige articulação internacional

O deputado Glauber Braga (Psol/RJ) afirmou que o momento exige um diagnóstico duro da realidade global. “Eu fico me perguntando se não seria o caso de começarmos com o diagnóstico de que nós estamos no fundo do poço.” Segundo ele, esse reconhecimento não é sinal de pessimismo, mas condição para a superação. “A consciência de que a gente está no fundo do poço talvez seja uma necessidade para que a gente possa sair dele.”

Braga avaliou que não há mais “grau de recurso” dentro da institucionalidade e que a saída passa pela articulação internacional. “As armas estão com eles. A grana está com eles. Os veículos de comunicação, as big techs, estão com eles. O que nós temos é a consciência de que somos classe trabalhadora”, declarou.

Parlamento como tribuna e limites das mudanças institucionais

A ex-deputada argentina Vilma Ripoll ressaltou a importância da atuação parlamentar como espaço de disputa, mas com limites claros. “É importante integrar os parlamentos, porque é uma tribuna das posições de esquerda.”

Segundo ela, esse espaço permite levar demandas populares para dentro das instituições, mas não é suficiente para promover mudanças estruturais. “Desde essas instituições não vão vir as mudanças de fundo.”

Ripoll citou exemplos recentes na Argentina, como mobilizações no Hospital Garrahan e nas universidades, para mostrar que avanços dependem da pressão popular. “É a mobilização fora do Congresso que dinamiza e leva força para dentro.”

Ao final a deputada Daiana Santos ressaltou a importância da relação direta com as massas. “A luta institucional só ganha força quando ouve as massas. Não vamos avançar contra esse fascismo sem essa compreensão, que está no dia a dia e em cada ação coletiva”, afirmou. Para a parlamentar a soberania significa garantir comida na mesa, segurança e atenção ao campo e à cidade, sempre com foco na classe trabalhadora.

Já a deputada Maria do Rosário [PT/RS] reforçou a importância da unidade dos socialistas e do campo popular. “Não nos conformamos com ação puramente institucional; ação institucional e luta de massas se misturam. Nossa missão é enfrentar os avanços da extrema direita no Brasil e no mundo”, declarou.

*Fonte: Brasil de Fato - BdF