14 julho 2026

Em meio a dois apagões, Cuba vence os EUA mais uma vez

Não houve significativos “levantes populares” contra o governo, mesmo com a paralisia imposta à grande parte das atividades econômicas e outras áreas

   HAVANA, CUBA - Crédito: REUTERS/Alexandre Meneghini

Por Erik de Souza*

Enquanto os países do globo acompanham atentos o desenrolar da Copa do Mundo, a pequena ilha socialista de Cuba passou por mais dois “apagões generalizados” somente na última semana. Chamadas de desconexões do Sistema Elétrico Nacional (SEN), são apagões que afetam completamente os mais de 10 milhões de cubanos até que todas as principais centrais energéticas das regiões do país consigam finalmente voltar a funcionar e se reconectar. O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, comentou nas redes sociais que a complexidade da situação possuía um culpado direto: o cerco energético que se soma ao Bloqueio de quase 7 décadas exercido unilateralmente pelo Governo dos Estados Unidos.

Desde o final de janeiro de 2026, após o ataque militar na Venezuela e o sequestro do presidente venezuelano e sua esposa, Donald Trump e seu Secretário de Estado, Marco Rubio, acirraram a pressão para derrubar o governo da Revolução Cubana. Impuseram normas retaliatórias para qualquer país ou empresa que negociasse bens petrolíferos com Cuba, que dependia até então da importação de petróleo venezuelano para manter não só a energia nos lares da sua população, mas o funcionamento de serviços básicos e essenciais, como escolas, hospitais e transportes. A intenção era gerar uma crise humanitária sem precedentes, que provocasse uma convulsão social no país e levasse à renúncia do governo revolucionário. 

Apesar das condições de vida em Cuba terem se deteriorado profundamente nos últimos meses devido às medidas estadunidenses, as novas sanções até o momento não produziram o efeito final desejado. Não houve significativos “levantes populares” contra o governo, mesmo com a paralisia imposta à grande parte das atividades econômicas e outras áreas, como a saúde e a educação; e, mesmo com a ameaça de retaliação norte-americana, Cuba recebeu abertamente em março um navio petroleiro russo, em gesto público de solidariedade entre os dois governos. Aliás, por conta da resiliência da população cubana, Trump e Rubio passaram a cada vez mais plantear publicamente a possibilidade de um ataque militar à ilha visando a retomada do status cubano como colônia informal dos EUA, assim como antes de 1959.

É em meio à todas essas dificuldades que Cuba propôs, na última semana, que a Organização das Nações Unidas (ONU) debatesse os efeitos do bloqueio energético ao país. 

A representação cubana na ONU já atua, todos os anos, para que seja votada uma resolução solicitando o fim do bloqueio unilateral exercido pelos EUA contra o país. Nos últimos 30 anos, todas essas resoluções foram aprovadas pela quase totalidade dos países membros, com exceção dos próprios Estados Unidos e de Israel, seu protetorado no Oriente Médio; no ano passado, mesmo com uma inédita ofensiva dos diplomatas norte-americanos no órgão, somente 7 países votaram contra o texto aprovado. Dessa vez, a representação da Casa Branca buscou todas as medidas possíveis para evitar que os efeitos do bloqueio energético fossem debatidos, mas foi derrotada por 136 votos favoráveis, 30 abstenções e somente 9 votos contrários ao debate.

Em sua intervenção, o ministro de Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, denunciou as medidas desse ano como “ato de guerra”, componentes de uma “guerra não-convencional, multidimensional” já travada pelos EUA contra a ilha há mais de 60 anos. O ministro cubano ainda apontou que, apesar de Cuba resistir contra as expectativas de catástrofe humanitária até o momento, a falta de energia já lega efeitos brutais na saúde, como o aumento na taxa de mortalidade infantil ao nascer e o aumento da mortalidade de cubanos com câncer e outras doenças. Sobre a mesa de negociações aberta entre os dois governos, Parrilla destacou que, apesar da vontade da ilha em avançar nas medidas bilaterais para apaziguar a situação, a vontade do governo norte-americano é somente retornar Cuba à condição de colônia. A resposta da delegação estadunidense na ONU foi negar a existência de bloqueios ou embargos contra o país e dizer para o “regime cubano” simplesmente “acender as luzes para seu povo”. O restante das intervenções, da República Popular da China à União Europeia, pontuaram o efeito negativo do bloqueio para o conjunto da população cubana, sobretudo a parcela que mais depende dos serviços públicos e racionamento de produtos. 

Frente à derrota diplomática, o Governo dos EUA anunciou na segunda-feira (13/07) mais uma leva de sanções à Cuba, destinadas ao setor turístico do país; Trump ainda pontuou que vai tomar “todas as medidas necessárias” sobre a “possibilidade de existência de drones e mísseis iranianos no país”. Diante de todas as medidas coercitivas e ameaças militares, o governo da Revolução Cubana segue buscando alternativas para melhorar as condições de vida na ilha, como o pacote econômico recentemente aprovado pela Assembleia Nacional do Poder Popular, que afrouxa drasticamente o controle sobre o setor privado na economia. A despeito das novas mudanças, as principais lideranças cubanas reafirmam o compromisso com o projeto social da Revolução, o socialismo e a consigna “Pátria ou Morte”. 

*Diretor de Relações Internacionais da União Nacional dos Estudantes (UNE) - Via Brasil247

11 julho 2026

A Copa é uma metáfora de um mundo assolado por um império decadente e violento

 



Por Marcelo Zero*

A Copa do Mundo nos EUA de Trump já vinha se mostrando uma aberração esportiva e geopolítica.

No início do ano, a Europa já se mostrava contrária a realização da Copa nesse país, em razão das ameaças de anexação da Groenlândia, das dissensões em relação à Otan, dos tarifaços politicamente motivados, do racismo do ICE, da xenofobia geral do governo Trump etc.

Agora, entretanto, o caldo entornou.

A reversão da punição de um jogador estadunidense, conseguida por Trump com um simples telefonema para Infantino, demonstrou o grau de submissão canina da Fifa ao governo Trump e a incomensurável corrupção de ambos.

A Copa, na realidade, se tornou uma metáfora de um mundo assolado pela violência e pela corrupção de um império decadente.

As relações internacionais se tornaram uma espécie de “mata-mata”, no qual os EUA têm de ganhar sempre por quaisquer meios, lícitos ou ilícitos.

Se tiver de ganhar roubando, comprando o juiz, fazendo insultos racistas, impondo logísticas punitivas (como fizeram com o Irã) ou quebrando a perna dos outros, que seja. “Var” só se for com deep fake feito com IA. E cartões amarelos e vermelhos só valem para os outros.

Só há espaço para um vencedor; os outros, os mais débeis, têm de ficar pelo caminho, frequentemente tendo de aguentar humilhações racistas, como aconteceu, impunemente, no jogo entre Argentina e Egito.

E há uma ironia amarga em toda essa história. O espetáculo, o talento, vêm de imigrantes do Sul Global, mas os louros são apropriados pelo Ocidente.

Os louros e também o dinheiro, que fica com a Fifa e com as grandes companhias patrocinadoras, isso sem falar na jogatina desavergonhada das “bets”.

O Império e a Fifa se complementam. Têm natureza autoritária e corrupta semelhante.

Essa Copa cara, racista, xenófoba e corrupta, transmite ao mundo a ideia de que esporte não deve estar associado à paz, ao respeito às regras, à diversidade e à inclusão, mas sim ao contrário: à violência real e simbólica, à exclusão, a um mundo hobbesiano no qual o grande valor é a força e a “vitória” a qualquer custo, como a distopia que Trump quer impor ao planeta, com o aplauso dos nossos traidores.

Não se poderia esperar outra coisa de uma Copa Trump-Infantino.

Uma Copa tão grotesca e farsesca quanto o prêmio da paz concedido por Infantino a Trump.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais - Fonte: Viomundo

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10 julho 2026

Revolução Socialista - Em entrevista exclusiva, Díaz-Canel afirma: ‘Não somos uma nação em disputa e não somos uma colônia’

Conversa com presidente cubano faz parte da apuração de novo documentário produzido pelo Brasil de Fato*

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato | Crédito: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato


Os corredores do Palácio da Revolução em Havana, capital de Cuba, estão vazios. Do lado de fora, o governo percorre municípios e bairros da ilha, mantendo contato direto com uma população que enfrenta diversas dificuldades no dia a dia.

O presidente Miguel Díaz-Canel recebe o Brasil de Fato logo após retornar de uma dessas caminhadas que fazem parte da rotina de sua gestão, nas quais ele conversa com moradores e ouve reivindicações, preocupações e propostas. Enquanto se acomoda para a entrevista, que faz parte de um documentário que o BdF está produzindo, ele conta que, além dessas agendas na capital, todos os meses visita alguma região remota do interior da ilha.

No momento da conversa, a Revolução atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história. Desde o fim de janeiro deste ano, Washington intensificou suas medidas de agressão ao ameaçar qualquer país que venda ou forneça petróleo ou combustíveis à ilha e ao ampliar, de forma sem precedentes, o alcance extraterritorial do bloqueio. Essas medidas agravaram a guerra econômica que Cuba enfrenta há mais de 60 anos.

“Você percebe como o povo cubano reage. Não há apagão que apague a nossa vontade, nem escassez que destrua a nossa esperança”, afirma.

“E o povo, em nível comunitário, se organiza. Então, não há transporte, mas todos os dias os médicos, as enfermeiras e os demais profissionais da saúde chegam aos seus postos de trabalho e, mesmo sem luz, atendem seus pacientes. Os professores dão aulas mesmo sem luz, e os camponeses plantam e produzem alimentos mesmo sem combustível. Essa é a imagem dessa resistência heroica e criativa do povo cubano.”

Desprovido de qualquer respaldo legal, o estrangulamento energético imposto pelos Estados Unidos tem um impacto devastador sobre todos os aspectos da vida cotidiana do povo cubano e provoca danos incalculáveis à economia do país.

Impedida de importar petróleo e combustíveis, a ilha foi obrigada a operar com sua limitada produção nacional. Nesse contexto, o fornecimento de energia precisou ser racionalizado para garantir o funcionamento dos setores mais críticos, como saúde e produção de alimentos. Ao mesmo tempo, o país acelera a transição para fontes renováveis de energia, sobretudo a solar fotovoltaica, como estratégia para mitigar os efeitos das agressões promovidas pela Casa Branca.

Sobre a relação com os EUA, Díaz-Canel foi enfático ao afirmar que pretende manter aberta a porta para o diálogo, mas ressaltou que a soberania do país é um princípio que o governo cubano não está disposto a ceder nem a negociar.

“Dialogar, conversar é uma coisa; outra coisa é negociar. Nós sempre defendemos isso, esta é a história da revolução. Sempre, na revolução, defendeu-se a possibilidade de ter uma relação civilizada com os Estados Unidos e de que, pela via do diálogo, sejamos capazes de resolver nossas diferenças bilaterais, sabendo que vamos ter diferenças ideológicas”, afirmou o presidente, insistindo no que pretende levar adiante em eventuais conversas com Donald Trump.

“Mas sempre sob o preceito de que não é negociável, nem na mesa de conversações, o nosso sistema político, a nossa soberania e a nossa autodeterminação. E tem que ser em condições de igualdade. Você não pode conversar, dialogar ou negociar sob pressão. Nós não somos uma nação em disputa, nós não somos uma colônia, nem somos uma possessão para que alguém se aproprie de nós. Somos uma nação soberana, independente e livre, que tomou como decisão da maioria um processo de construção socialista em meio a essas condições tão adversas”, conta o mandatário de Cuba.

Acúmulo da revolução

Há 13 dias no país caribenho, a reportagem do Brasil de Fato registrou panelaços em duas noites de apagão. O cansaço das pessoas é evidente. A falta de energia, somada ao sufocamento econômico, afeta o cotidiano, obrigando a população a fazer verdadeiros esforços para conseguir dar conta das necessidades mais básicas.

Nas ruas, cubanos afirmam que a situação do país é resultado do bloqueio imposto pelo governo dos EUA. Essa reflexão, para Díaz-Canel, é resultado do acúmulo gerado pela revolução socialista no país.

“A imensa obra social da revolução abriu novos horizontes para as pessoas. Portanto, elas sabem o que se perde ao perder a revolução. E por isso existem essas convicções que se expressam dessa maneira popular, em que você encontra um camponês e ele diz: ‘Eu dou a vida pela revolução, eu vou fazer isso'”, comenta o presidente.

Por fim, Díaz-Canel conta que buscará a paz com os EUA e pediu que as ameaças militares cessem. “O que deveríamos buscar é um mundo melhor. Um mundo em que predomine o multilateralismo, em que se elimine a filosofia da espoliação, a filosofia da guerra, as ameaças, as sanções e os bloqueios unilaterais e coercitivos.”

*Havana/Cuba - Por Gabriel Vera Lopes, Igor Carvalho e Rodrigo Chagas. -Editado por: Rafaella Coury - Fonte: BdF

06 julho 2026

Opinião - Do gramado à sarjeta: a queda de um símbolo nacional

Da desclassificação da seleção ao uso político da camisa amarela, artigo analisa a degradação simbólica da bandeira nacional

Balão com a bandeira do Brasil próximo a sarjeta - Crédito: Ana Valéria Sodré

Por Florestan Fernandes Jr*

Poucas horas após a desclassificação da seleção brasileira, um balão com o maior de todos os símbolos nacionais, a bandeira do Brasil, apareceu caído no asfalto de uma rua de Guarapari, cidade turística no litoral do Espírito Santo.

Quis o destino que o balão caísse ao lado da sarjeta, passando aos pedestres a impressão de que a nossa bandeira estava perto de ser engolida pelo esgoto da cidade.

O acaso nos leva a uma reflexão. De certa maneira, aquela imagem demonstra o que acontece quando a nossa paixão coletiva e o sentimento patriótico se vinculam a algo que pouco ou nada tem a ver com a verdadeira noção de patriotismo.

Infelizmente, a camisa da seleção brasileira foi alçada à condição de símbolo da Nação por razões que dizem respeito a tudo, menos à qualidade do futebol ou à aderência aos valores de pertencimento e unidade que permeiam o próprio conceito de nação. Passou a servir, inclusive, à manipulação ideológica dos fascistas que tentaram um golpe de Estado.

Há anos, quem acompanha o esporte sabe o que aconteceu. Conhece o desleixo da CBF com o futebol brasileiro e sabe como a principal entidade do esporte no país foi instrumentalizada, servindo aos interesses políticos da ditadura militar. Foi nesse processo que o futebol deixou, gradualmente, de ser um valor para os dirigentes da CBF.

Nesse sentido, vale lembrar que, em maio de 2015, pouco antes de os bolsonaristas transformarem a camisa amarela em traje fascista, o todo-poderoso ex-presidente da CBF, José Maria Marin, foi preso, acusado de envolvimento em um megaesquema de corrupção, durante uma reunião anual da FIFA, em Zurique, na Suíça. As investigações, conhecidas como Fifagate, apuravam crimes de extorsão, fraude e lavagem de dinheiro, envolvendo mais de US$ 100 milhões em propinas relacionadas à comercialização e aos direitos de transmissão de torneios de futebol na América Latina, como a Copa América e a Copa do Brasil.

Marin cumpriu parte da pena na penitenciária do Brooklyn, em Nova York.

Como se pode constatar, a camisa da seleção brasileira já vinha, havia muito tempo, sendo enlameada pelos maiores representantes da própria CBF. Não por acaso, caiu como uma luva para o grupo de golpistas do 8 de Janeiro, todos condenados por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e dano qualificado mediante violência e grave ameaça. Já ali, a CBF deveria ter feito uma ação no sentido de impedir que a imagem da instituição e seu símbolo maior, a camisa da seleção, fossem envolvidos em atos criminosos. Mas nada fez, talvez por concordância ideológica e moral.

A saída da seleção brasileira da Copa do Mundo não poderia ser mais melancólica, tendo em Neymar, principal representante do bolsonarismo no futebol, a expressão de atitudes antidesportivas que envergonham o país. Ao ofender e agredir verbalmente os jogadores da Noruega após uma derrota mais do que justa, Neymar acabou desrespeitando não apenas os adversários, mas todos aqueles que amam o futebol, especialmente os grandes craques do passado, como Garrincha, Pelé, Gérson, Rivellino, Zico, Sócrates, Falcão e tantos outros que sabiam sair de cabeça erguida do campo, reconhecendo a derrota e as qualidades dos adversários.

*Jornalista - Fonte: Brasil247

04 julho 2026

Ameaça disfarçada - Projeto de lei da bancada ruralista usa agricultura familiar como pretexto para ampliar desmatamento

Em semana esvaziada no Congresso, deputados aprovam projeto que pode dar anistia de dois anos para grandes desmatadores

Área de floresta atingida por incêndios e convertida em pastagem em Rondônia, nas proximidades de Porto Velho. | Crédito: Rogério Assis/Greenpeace

Por Luís Indriunas*

No meio de uma semana esvaziada no Congresso Nacional, a bancada ruralista conseguiu avançar com mais uma ameaça à preservação ambiental e aos povos do campo. Dessa vez, com a desculpa de que vai proteger a agricultura familiar.

Numa sessão de apenas 39 minutos na quinta-feira (02), a Câmara dos Deputados aprovou o regime de urgência para o projeto de lei 2.898/2025, que altera a Lei dos Crimes Ambientais e estabelece um prazo de até 24 meses para que o infrator se regularize antes da aplicação de sanções. Ou seja, seria necessário esperar dois anos para serem aplicadas punições como apreensão de animais, produtos e equipamentos, destruição ou inutilização de produtos, suspensão da venda e da fabricação de produtos ou embargo das atividades ao desmatador.

Encabeçado pelo deputado federal Luiz Mosquini (MDB-RO), o projeto de lei foi apresentado sob pretexto de proteger a agricultura familiar, mas, na verdade, pode beneficiar grandes proprietários de terras e dar chance para mais violações, segundo a avaliação do Observatório do Clima.

“A agricultura familiar necessita ter atenção prioritária em termos de fomento a atividades ambientalmente sustentáveis. Não é isso que traz essa proposta. A agricultura familiar foi utilizada como argumento nesse projeto de lei para enfraquecer o controle dos órgãos do Sisnama [Sistema Nacional do Meio Ambiente], permitir a continuidade de práticas que constituem infração e inviabilizar a cessação dos danos ambientais. É mais uma afronta do Congresso contra o meio ambiente”, afirma Suely Araujo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima.

O deputado usa como parâmetro de pequenos agricultores propriedades com até 4 módulos fiscais. Os módulos fiscais são unidades de medida para as propriedades, fixados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que variam entre 5 hectares e 110 hectares, dependendo do município. Em algumas regiões, eles são bem grandes. No estado de Mosquini, Rondônia, um módulo é de 60 hectares. Assim, fazendas com até 240 hectares, ou 336 campos de futebol, seriam beneficiadas.

Em nota técnica, o observatório aponta ainda que, na prática, o PL “amplia significativamente o alcance da proposta e pode impedir o embargo de imóveis onde tenham ocorrido desmatamentos ilegais de grande extensão, favorecendo a continuidade da infração e aumentando o risco de novos desmatamentos”.

Para os críticos à proposta, a legislação já tem proteção para o pequeno agricultor. Na seção da Câmara, o deputado Helder Salomão (PT-ES) lembrou o decreto 6.514/2008, que estabelece que, no caso de áreas irregularmente desmatadas ou queimadas, o embargo não alcança as atividades de subsistência.

“Se flexibiliza uma legislação de maneira desnecessária sob o pretexto de proteger o pequeno agricultor, mas, para o pequeno, para subsistência, ele já está protegido.”

Mosquini e o ‘Pacote da Destruição’

A manobra feita pela bancada ruralista em plena Copa do Mundo se insere no chamado “Pacote da Destruição”, um conjunto de medidas legislativas para enfraquecer a legislação socioambiental brasileira em diversas frentes, dos agrotóxicos a terras indígenas. Mosquini, que é presidente de uma comissão da Frente Parlamentar da Agropecuária, sempre está à frente dessa constante pressão do agronegócio contra a pauta ambiental.

Em maio, na chamada “Semana do Agro”, o deputado tentou emplacar uma proposta que proibia embargos baseados exclusivamente em detecção remota de supressão de vegetação, ou seja, restringia a fiscalização por satélites, prática comum na vigilância dos órgãos ambientais. “É como não usar radar para controlar velocidade”, disse o coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo, ao Brasil de Fato.

O texto aprovado pela Câmara retirou a vedação direta, mas passou a exigir notificação prévia antes da aplicação de medidas cautelares, ou seja, uma manobra semelhante à que está sendo proposta agora, dando tempo para que o desmatamento prossiga.

O estado de Mosquini acumulou mais de 611 mil hectares de vegetação nativa perdidos desde 2019 e ostentou médias anuais de desmatamento acima de 100 mil hectares durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), político que o deputado apoia. A área desmatada caiu de 145 mil hectares em 2022, no último ano de Bolsonaro, para 15 mil hectares no ano passado.

O maior doador individual do deputado é o empresário e fazendeiro Sérgio Botelho Teixeira, sócio-diretor da Italac, que recebeu uma multa de R$ 5,5 milhões do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em dezembro de 2025 por desmatamento de reserva legal em uma fazenda no Tocantins. Desde 2018, Teixeira doou R$ 250 mil para campanhas eleitorais de Mosquini.

A unidade da Italac fica em Jaru (RO) e tem uma capacidade instalada de 1,3 milhão de litros, produzindo diversos derivados de leite, do composto lácteo ao doce de leite.

À BBC News Brasil, o deputado disse que não tinha conhecimento da multa aplicada à fazenda do empresário. A defesa de Teixeira disse que a multa aplicada pelo Ibama ocorreu devido a um engano em registros cadastrais da fazenda e que o assunto está sendo analisado pela Justiça Federal.

*Editado por: Gia Matheus Almeida - Fonte: BdF

01 julho 2026

Ato homenageia santiaguense vítima da ditadura e relembra lutas por direitos humanos em Santiago/RS*



Na noite do último sábado, 27/06,  o Espaço Strazzabosco, em Santiago/RS, recebeu um importante ato em homenagem póstuma à santiaguense Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones, uma das vítimas da ditadura civil-militar brasileira (que durou 21 longos anos). O encontro reuniu participantes de Santiago e Região para um momento de memória, reflexão e valorização da luta pelos direitos humanos.

A atividade integrou a programação do projeto Caminhos Revolucionários II, coordenado por Antônio Prestes Braga (Santo Ângelo) e Júlio Garcia (Santiago). O evento Caminhos Revolucionários II (que também foi realizado em Porto Alegre e São Leopoldo/RS) foi marcado por denúncias dos crimes praticados pela ditadura, por homenagens às vítimas da mesma (como foi o caso de Sônia) e debates sobre a importância da preservação da memória histórica.


Além da homenagem à santiaguense, o público acompanhou a exibição do documentário-ficção “Basílicia Sawicki”, que retrata a história da jovem missioneira argentina filha de imigrantes ucranianos sacrificada no início do século passado durante sua luta pelos direitos dos pequenos agricultores, resgatando um importante capítulo das lutas populares na América Latina. Na oportunidade, usaram da palavra Júlio César Schmitt Garcia e Antônio Prestes Braga (pelos Caminhos Revolucionários II) e Iara Chagas Castiel (representando a Comissão Executiva Municipal do PT).


O ato destacou a relevância de manter viva a memória daqueles que perderam a vida em defesa da democracia, da justiça social e dos direitos humanos, promovendo um espaço de reflexão sobre o passado e seus ensinamentos para as novas gerações.

O evento foi realizado no Espaço Cultural Strazzabosco e reuniu integrantes do projeto, convidados e membros da comunidade local e regional. 

*Com o site Santiago News

Lula sobe mais de 2 pontos e amplia liderança no 1º turno, mostra AtlasIntel

Principal adversário do presidente, Flávio Bolsonaro saiu de 39% em abril para 36,6% em junho

Presidente Lula e Flávio Bolsonaro - Crédito Ricardo Stuckert/Pr - Waldemir Barreto/Ag. Senado 

Por Guilherme Levorato*

O presidente Lula (PT) ampliou sua vantagem na disputa presidencial de 2026 e chegou a 46,3% das intenções de voto no principal cenário de primeiro turno testado pela AtlasIntel/Bloomberg. Principal adversário do presidente, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) saiu de 39% em abril para 36,6% em junho, segundo levantamento divulgado nesta quarta-feira (1º).

De acordo com os dados da AtlasIntel/Bloomberg, Lula avançou 2,3 pontos percentuais em relação à rodada de abril, quando aparecia com 44%. Já Flávio recuou 2,4 pontos no mesmo intervalo, reduzindo sua competitividade no primeiro turno.

No cenário estimulado, Renan Santos (Missão) aparece na terceira posição, com 7,8% das intenções de voto. Em seguida vêm Ronaldo Caiado (PSD), com 2,9%, Romeu Zema (Novo), com 2%, e Joaquim Barbosa (DC), com 1%. Aécio Neves (PSDB) soma 0,7%, Samara Martins (UP) tem 0,6%, Augusto Cury (Avante) registra 0,5%, Cabo Daciolo (Mobiliza) aparece com 0,2%, enquanto Rui Costa Pimenta (PCO) e Edmilson Costa (PCB) marcam 0,1% cada. Hertz Dias (PSTU) não pontuou.

Brancos e nulos somam 1,2%, enquanto 0,1% dos entrevistados disseram não saber em quem votariam. O resultado reforça a concentração da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, embora o crescimento de Renan Santos também tenha sido registrado pelo levantamento: ele passou de 5% em abril para 7,8% em junho.

A pesquisa também mediu o desempenho de Lula e Flávio por segmentos do eleitorado. O presidente atinge seu melhor resultado entre eleitores com 60 anos ou mais, faixa em que chega a 54,6%, e no Nordeste, onde registra 57,7%. Entre os eleitores que votaram em Lula em 2022, 88,4% afirmam que repetiriam o voto.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, apresenta melhor desempenho entre eleitores de 25 a 34 anos, segmento em que alcança 41,4%. O senador também tem seus melhores percentuais entre evangélicos, com 42,9%, no Sudeste, com 42,6%, e entre eleitores que votaram em Jair Bolsonaro em 2022, grupo no qual chega a 74,8%.

Nas simulações de segundo turno, Lula também aparece à frente de Flávio Bolsonaro. Segundo a AtlasIntel/Bloomberg, o presidente marca 48,8%, contra 42,3% do senador. Em maio, os dois estavam empatados numericamente com 48%, de acordo com o InfoMoney.

A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg ouviu 4.999 eleitores entre os dias 26 e 30 de junho. A margem de erro é de um ponto percentual, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-04582/2026.

*Fonte: Brasil247