16 agosto 2026

Eleições 2026 - Lula inicia campanha no mesmo estádio onde fez discurso histórico durante greve de 1979

Milhares acompanharam o lançamento da campanha à reeleição neste domingo (16)


Geraldo Alckmin e Fernando Haddad também discursaram no lançamento da campanha de Lula à reeleição | Crédito: Ricardo Stuckert

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deu início à sua campanha à reeleição neste domingo (16). O discurso do petista de 80 anos de idade foi acompanhado por milhares de apoiadores, concentrados no gramado do Estádio 1º Maio, em São Bernardo do Campo (SP), mesmo local onde, em março de 1979, Lula discursou nas assembleias da Grande Greve do ABC.

Usando o chapéu panamá que virou sua marca, Lula justificou o acessório por conta da radioterapia para tratar um câncer de pele. 

“Sou muito agradecido porque Deus sempre foi muito generoso comigo. Deus fez vocês e vocês fizeram o Lula ser o que ele é. Portanto, obrigado a vocês, trabalhadores e trabalhadoras desse país, que um dia tiveram consciência de apostar em um igual. A quantidade de diploma mostra o conhecimento, mas a inteligência é saber utilizar esse conhecimento em benefício de quem e para quem”, disse.

Lula fez uma breve retrospectiva das greves dos metalúrgicos entre 1978 e 1980, afirmando ter tido as maiores lições de política da sua vida nesse período. Quase 48 anos depois, aquele líder sindical disputa sua sétima eleição, buscando o quarto mandato na presidência, algo inédito na história do país.

Retrospectiva

O ato resgatou imagens de Lula discursando naquele mesmo estádio para um mar de trabalhadores metalúrgicos. As históricas greves dos anos 1970 fortaleceram o caminho para a redemocratização no Brasil e deram origem ao Partido dos Trabalhadores (PT). Na sequência, depoimentos de membros do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC relembraram que a luta por melhores condições de trabalho encontrou uma grande referência na liderança de Lula em São Bernardo do Campo.

Lula afirmou que os trabalhadores deram um voto de confiança para a sua capacidade, assim como o povo brasileiro anos depois. “Muito obrigado a cada homem e mulher, em cada estado do país, cada trabalhador que teve a coragem de levantar e dizer que vai colocar na Presidência da República um peão quase analfabeto porque tenho o diploma primário e o curso do Senai [de torneiro mecânico]”, agradeceu. 

Ele se emocionou ao lembrar da morte da mãe, dona Lindu, em 1980, quando estava preso por conta da greve. “No tempo da ditadura militar, um delegado de polícia permitiu que eu fosse ao enterro da minha mãe. Agora, no regime democrático, um ministro que indiquei não permitiu que eu fosse ao enterro do seu irmão”, pontuou. 

O presidente relacionou o surgimento do PT à luta sindical, por terem identificado a necessidade de eleger políticos comprometidos com as pautas da classe trabalhadora. “Eu dizia que odiava política, pensava que era esperto. É preciso gostar da política para escolher corretamente, senão a gente passa o ano inteiro brigando com o patrão, mas chega na eleição e elege o patrão. É uma contradição colocar a raposa no galinheiro. Essa descoberta política eu tive aqui no estádio”, disse.


Estádio Euclides da Cunha, em São Bernardo do Campo (SP), no lançamento da campanha de Lula (PT)
Estádio Euclides da Cunha, em São Bernardo do Campo (SP), no lançamento da campanha de Lula (PT) | Crédito: Ricardo Stuckert

Compromissos

Para além da retrospectiva da sua trajetória e do simbolismo do Estádio Euclides da Cunha, o presidente também comentou o momento atual da política e criticou a extrema direita. “O povo brasileiro não vai aceitar que a mentira vença a verdade”, disse Lula.

“O esforço que eu faço todo dia é para não falhar com vocês. Podem ter certeza da minha lealdade, é por isso que tenho muito orgulho de estar aqui 47 anos depois. Enquanto for vivo, não vou parar de lutar. Essa direita ficava dando risada de idosos morrendo por falta de oxigênio [na pandemia de covid-19], é responsável por 400 mil pessoas na covid. O que essa gente pensa para o povo brasileiro?”, questionou.

Ministério da Segurança Pública

Ao abordar a segurança pública, Lula afirmou que pretende continuar mirando na estrutura financeira das organizações criminosas, mas também vai enfrentar aqueles que tentam se impor por meio da violência em territórios vulneráveis.  

“Se for aprovada a PEC da Segurança Pública, vou criar o Ministério da Segurança Pública para dividir a responsabilidade com estados e municípios para libertar o povo, prendendo todo mundo que acha que é dono de uma favela ou bairro pobre”, garantiu.

Ainda no tema da violência, o presidente reafirmou a defesa das mulheres e pediu que os homens se eduquem a esse respeito. “Mulheres desse país, não abaixem a cabeça nunca porque nós, homens, precisamos aprender a respeitar vocês como companheiras, não como serviçais”, enfatizou.

Ato de lançamento do presidente Lula (PT) à reeleição em São Bernardo do Campo (SP)
Ato de lançamento do presidente Lula (PT) à reeleição em São Bernardo do Campo (SP) | Crédito: Ricardo Stuckert

Futuro e terras raras

Diversos programas foram destacados pelo presidente Lula como feitos importantes dos seus governos, sobretudo na educação. Ele relacionou o futuro do país com escolas em tempo integral, ensino superior e oportunidade dos jovens se desenvolverem em diferentes áreas com qualidade.

“O Brasil tem 300 e poucas faculdades, eu e Dilma [Rousseff] em apenas 16 anos, fizemos 200. Isso é pensar no futuro. O futuro significa formar os nossos jovens. Se preparem porque vai ter mais. […] Vamos terminar o mandato com 800 Institutos Federais”, disse.

Ao tratar do futuro do país, o candidato do PT defendeu a exploração de terras raras sem interferências externas. “Queremos colocar as meninas e os meninos para estudarem como explorar esses minérios, como produzir celulares, chips, baterias elétricas. Ninguém vai explorar nossos minerais críticos. Nós que vamos explorar em benefício do povo brasileiro”, enfatizou.

*Editado por: Monyse Ravena - Via Redação BdF

14 agosto 2026

ACABOU: Kassab decreta a derrota de Flávio Bolsonaro*

Em jantar com a elite paulistana, Kassab, vice de Caiado e presidente do PSD, diz que o Centrão fechou com Lula — e que isso sepulta a candidatura de Flávio Bolsonaro.

- Tarcísio de Freitas com Gilberto Kassab e Flávio Bolsonaro (Eduardo Knapp Folhapress / Marina Uezima Brazil Photo Press via AFP)


Por Renato Rovai*

Em jantar com a elite paulistana na casa do ex-tucano Andrea Matarazzo, o presidente do PSD e vice na chapa de Ronaldo Caiado afirmou que o Centrão fechou com Lula e que isso inviabiliza a candidatura do filho de Bolsonaro

Gilberto Kassab não é homem de fazer prognóstico eleitoral por impulso. Kassabão é a raposa felpuda mais experiente do Centrão, presidente nacional do PSD e agora vice na chapa de Ronaldo Caiado — e quando ele fala algo em público, é porque já fez a conta do que isso pode render.

Além de Andrea Matarazzo e de empresários paulistas, o jantar teve “figuras ilustres” como o ex-ministro da Saúde Mandetta e a eterna socialité Narcisa Tamborindeguy do “ai que loucura”.

Era a plateia certa para esse tipo de recado: não é para o eleitor, é para o mercado e para o próprio Centrão se convencer de que apostar no filho de Bolsonaro é apostar no cavalo errado.

“Quando a campanha começar, isso vai ficar claro”, disse Kassab, explicando que o Centrão, ao não fechar com Flávio, já declarou — na prática — que seu candidato é Lula.

Aqui está o ponto que poucos analistas e comentaristas estão captando: essa frase não é retórica de bastidor. Ela tem efeito prático, mensurável, no horário eleitoral gratuito.

90% do tempo de TV e rádio é distribuído proporcionalmente ao tamanho das bancadas na Câmara dos Deputados. Isso significa que, quando partidos do Centrão — Republicanos, PP, União Brasil — deixam de compor com Flávio, o tempo desses partidos simplesmente some do lado bolsonarista e é dividido por todos os outros. O que favorece Lula e o próprio PSD.

Foi exatamente isso que Kassab descreveu ao dizer que o PSD sai de 30 segundos para 2 minutos e 20 — o que ele, com o humor ácido de sempre, chamou de tempo de “uma novela”.

Ainda há outro efeito essa distribuição do tempo de propaganda, Lula poderá fazer duas coisas ao mesmo tempo — mostrar o que fez de concreto no governo e desconstruir Flávio Bolsona, expondo o entorno dele.

Foi essa a aposta que o próprio Kassab fez no jantar. Que durante a campanha, Lula vai destruir Flávio.

O recado por trás do recado é o seguinte: o Centrão, que historicamente se vende ao melhor pagador e evita compromisso público antes da hora, já escolheu de que lado vai ficar. E quando o fisiologismo se antecipa dessa forma, é porque a conta interna do poder já foi fechada. Ou seja, o cavalo já passou selado. E o nome dele é Lula, segundo Kassab.

*Via Revista Fórum

12 agosto 2026

Pesquisa CNT/MDA mostra que Lula está muito próximo de vencer no primeiro turno

Presidente lidera cenários e atinge 52,6% de potencial de voto

      Presidente Lula - Crédito: Ricardo Stuckert/PR

247* – O presidente Lula (PT) lidera todos os cenários de intenção de voto para a eleição presidencial de 2026 e registra números que o deixam no limite de uma vitória em primeiro turno, segundo dados da 169ª Pesquisa CNT de Opinião, realizada pelo Instituto MDA e contratada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT).

Na pesquisa estimulada de primeiro turno, Lula aparece na liderança isolada com 42,4% das intenções de voto. Seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL), figura em segundo lugar com 28,7%. Na sequência, aparecem Ronaldo Caiado (4%), Romeu Zema (3,3%), Renan Santos (2,8%), Augusto Cury (1,2%). Os demais não chegam a 1%. Os votos brancos e nulos somam 6,8%, enquanto os indecisos representam 7,2%.

Matematicamente, a definição da eleição no primeiro turno exige que o candidato vencedor obtenha mais de 50% dos votos válidos, superando a soma de todos os seus concorrentes diretos. Na amostragem da pesquisa CNT/MDA, a soma de todos os adversários de Lula atinge 43,4% das intenções de voto. Dessa forma, caso Lula consiga atrair apenas 0,6% dos votos que hoje estão distribuídos entre seus oponentes, ele alcançará 43,0% contra 42,8% do conjunto da oposição, garantindo numericamente a maioria absoluta necessária para vencer o pleito em primeiro turno. Essa pequena margem de crescimento pode ser alcançada ao longo da própria campanha eleitoral, impulsionada pelo início da propaganda no rádio e na televisão, pelo fortalecimento dos palanques regionais e pela mobilização de sua base aliada. Cabe destacar que o Instituto MDA foi o que apresentou o maior índice de acerto no resultado final das últimas eleições presidenciais, o que confere ainda maior relevância estratégica e precisão analítica a esse cenário.

O levantamento revela ainda a força do potencial eleitoral de Lula: 52,6% dos entrevistados afirmam que votariam nele com certeza ou que poderiam votar na sua candidatura.

Nas simulações de segundo turno, o presidente vence com folga todos os adversários testados:

  • Lula x Flávio Bolsonaro: Lula lidera com 48% contra 39,1% de Flávio Bolsonaro (brancos/nulos: 10,6%; indecisos: 2,3%).
  • Lula x Romeu Zema: Lula marca 49,1% frente a 34,9% do ex-governador mineiro (brancos/nulos: 11,8%; indecisos: 4,2%).
  • Lula x Ronaldo Caiado: Lula vence por 47,9% a 35,9% (brancos/nulos: 11,7%; indecisos: 4,5%).
  • Lula x Renan Santos: Lula soma 48,5% contra 33% (brancos/nulos: 13,6%; indecisos: 4,9%).
  • Lula x Augusto Cury: Lula alcança 48,6% diante de 32,4% (brancos/nulos: 13,4%; indecisos: 5,6%).

O levantamento do Instituto MDA para a CNT foi realizado de maneira presencial entre os dias 5 e 9 de agosto de 2026, com 2.002 entrevistas distribuídas proporcionalmente pelo país. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-06935/2026.

*Fonte: https://www.brasil247.com/

07 agosto 2026

UNINDO ESFORÇOS - A mídia independente traz a antítese do mercado e do capital, aponta debate com jornalistas na Flipei

Representantes de mídias progressistas resgatam história da imprensa e examinam desafios de sustentabilidade financeira*

Jornalistas da mídia independente durante debate na Flipei. | Crédito: Luís Indriunas/Brasil de Fato

Por Luís Indriunas*

A mídia independente tem um papel fundamental para a democracia, sendo a antítese do jornalismo de mercado, mas carece de apoio político e financeiro para fazer parte da construção do país. O debate “Desafios do jornalismo independente e progressista”, ocorrido nesta quinta-feira (6) na 8ª Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), reuniu jornalistas que atuam em alguns dos principais veículos independentes para discutir a série de desafios do jornalismo progressista. Sob mediação da jornalista Dri Delorenzo, o debate também incluiu questões de mudanças tecnológicas, como as redes sociais e a inteligência artificial.

“A gente tem uma grande redação que pode construir, sim, coisas muito melhores. Agora, a grande discussão é que as nossas mídias deveriam conseguir também fazer parte da construção de um projeto de país, estar dentro desse pensar o projeto do país”, disse Renato Rovai, fundador e diretor da Revista Fórum, uma das primeiras iniciativas nesse modelo que se consolidou ao longo das últimas décadas.

“Nós somos uma mídia séria, que faz jornalismo, que não planta fake news, que obviamente tem campo, tem lado. Mas que lado é esse? É o lado da antítese do capital puro e simples, do mercado”, completou.

Da democratização à polarização

Dentro desse contexto, o fundador do Jornal GGN, Luis Nassif, fez um resgate da história do jornalismo desde a ditadura até a redemocratização. “É tudo uma questão de mercado”, disse o jornalista no início da sua fala.

Nassif lembra que, após a ditadura, quando toda a imprensa atuava numa só direção, os grandes jornais perceberam um mercado para diferentes opiniões, a partir da redemocratização. É o caso da Folha de S.Paulo, que começou a ter vários colunistas de esquerda e a cobrir temas caros ao campo progressista.

“Quando entra a democracia, entram o pacto das diretas e o pacto da Constituinte. Com esse pacto, os jornais que sempre recaíam para a direita passam a disputar todos os públicos.” É um momento em que os jornais garantiam liquidez e estavam protegidos dos impactos dos mercados internacionais de mídia. No entanto, dois fenômenos acabaram com esse modelo: a crise financeira de 2008 e o início da internet.

Nesse momento, ao mesmo tempo em que a mídia independente cresce, os grandes jornais adotam, como destaca, o modelo Murdoch [megaempresário de mídia estadunidense], que “espalha toda sorte de ataques contra a esquerda”.

Desse período, destacam-se a cobertura da mídia comercial do mensalão e, depois, do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Neste momento, a mídia independente assume papel fundamental no combate ao discurso da classe dominante contra os governos progressistas.

Nassif aponta que, após as manifestações de julho de 2013, surge uma polarização incentivada pela mídia comercial. O diretor do Jornal GGN lembra que esse movimento contou também com uma articulação para bloquear o investimento publicitário na mídia independente, com até mesmo um seminário para agências publicitárias, promovido pela editora Abril, que comparava a cobertura editorial dos veículos progressistas a grupos radicais da internet. “Nesse momento, o mercado publicitário se fechou à mídia independente”, contou.

A essa articulação somam-se as mudanças constantes dos algoritmos das big techs, que diminuem o faturamento pelas visualizações. “Na verdade, atualmente, o único modelo que garante ainda a imprensa independente é o apoio dos leitores”, concluiu.

Novas lutas pela democracia

Florestan Fernandes Júnior, do Conselho Editorial do Brasil 247, aponta que a história da mídia independente está presente na luta pela democracia, lembrando que ela surge combatendo a ditadura e passa recentemente pelo golpe de 8 de janeiro. “São duas lutas que marcam a nossa geração: uma ditadura com censura e o governo Bolsonaro, que queria impor um sistema autocrático.”

A partir da crise financeira apontada por Nassif, o diretor do Diário do Centro do Mundo (DCM), Kiko Nogueira, destacou a dificuldade de manter um jornalismo de qualidade para além do jornalismo de comentaristas, apostando na reportagem.

“Os recursos são muito parcos para isso. Então a mídia cresceu, a mídia começou com muita opinião, entrevistas, mas há muita opinião e pouca reportagem, pouca produção própria de conteúdo”, destacou.

“A mídia independente talvez enfrente hoje dificuldades ainda maiores do que as vividas nos quatro anos do Bolsonaro. Se, durante o governo anterior, o desafio era resistir aos ataques à democracia e à liberdade de imprensa. Agora, a preocupação é garantir condições mínimas de sustentabilidade para que esse jornalismo continue existindo”, completou Fernandes Júnior.

Dentro desse contexto desafiador, a coordenadora de jornalismo do Brasil de Fato, Monyse Ravena, lembra que há uma discussão do próprio lugar do jornalismo na sociedade. “A gente tem um momento de bastante desvalorização da informação produzida a partir do jornalismo. Você tem uma espécie de concorrência muito direta com outros produtores de conteúdo, como os influenciadores, e uma lógica de produção de conteúdo que prioriza esses outros formatos. Assim, o próprio lugar do jornalismo como esse, fiador da notícia, dos acontecimentos, está posto em cheque”.

Quanto à crise de recursos, Ravena lembra que “no princípio, no fim, é sobre a propriedade dos meios de produção que vai definir esse contexto. Então, essas grandes empresas, essas grandes plataformas não estão sob o nosso poder, não foram criadas a partir desse lugar e a gente tem esses efeitos no cotidiano.”

A coordenadora do Brasil de Fato coloca ainda outro obstáculo atual, que é um processo “muito feroz de judicialização”. “Todo mundo aqui enfrenta isso no cotidiano e isso também é um reflexo um pouco dessa disputa, que, no fim, é uma disputa de visão de mundo.”

*Editado por: Gia Matheus Almeida - Via BdF

05 agosto 2026

REAÇÃO - Governo diz que alegações dos EUA para cancelar visto da embaixadora são falsas e buscam interferir nas eleições

Em nota, a Secretaria de Comunicação diz que medida 'não é um fato isolado' e recorda outras hostilidades, como tarifas

A embaixadora brasileira Maria Luísa Viotti | Crédito: José Cruz/Agência Brasil

A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República emitiu nesta terça-feira (4) uma nota criticando a decisão dos Estados Unidos de cancelar o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.

“As duas justificativas apresentadas [pelos EUA] são falsas”, afirma a nota.

Segundo o Departamento de Estado dos Estados Unidos, o cancelamento é uma resposta à demora das autoridades brasileiras em conceder o aval diplomático para que Daniel Perez, um republicano filho de cubanos, assuma a embaixada dos EUA no Brasil.

Uma outra razão oculta para o cancelamento seria a negativa dos vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que viajariam ao Brasil, há cerca de dez dias. Eram eles, o secretário-assistente Riley M. Barnes e o subsecretário-assistente Samuel Samson. Ambos tinham audiências marcadas com a Justiça Eleitoral.

Na nota, o governo brasileiro justifica as negativas porque eles “planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional”.

A nota lembra ainda que autoridades como ministros da Suprema Corte e funcionários de primeiro escalão do Poder Executivo tiveram seus vistos cancelados pelo governo de Donald Trump.

“A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo”, completa a nota.

Leia a nota na íntegra:

“O Governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo Departamento de Estado dos EUA de alterar o visto da embaixadora do Brasil em Washington.

As duas justificativas apresentadas são falsas.

O processo de concessão de agrément é confidencial e o nome designado só deveria vir a público depois de concedida a anuência, conforme estipula o artigo 4 da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.

O governo dos Estados Unidos anunciou publicamente o nome de seu candidato antes de apresentar o pedido formal de agrément ao governo brasileiro.

O Brasil segue estritamente o direito internacional. Não há regra na Convenção de Viena estipulando prazo para a concessão do agrément. O pedido norte-americano ainda se encontra em análise.

Os dois funcionários do governo norte-americano que tiveram seus vistos de entrada no Brasil negados planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional.

Vale recordar que seguem em vigor sanções individuais sobre autoridades brasileiras, notadamente o cancelamento de vistos para os EUA, com base na alegação infundada de perseguição política ao ex-presidente Bolsonaro. Entre essas autoridades estão ministros da Suprema Corte e funcionários de primeiro escalão do Poder Executivo.

O governo brasileiro não poupou esforços para resolver essas diferenças. O próprio presidente Lula, em sua visita a Washington em maio último, entre outros assuntos, solicitou ao presidente Trump o levantamento das sanções individuais.

A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo.

Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente.

Em linha com sua tradição diplomática, o governo brasileiro se opõe à lógica de confrontação e reitera a defesa do diálogo e da negociação em todas as suas relações internacionais.”

*Fonte: Redação do BdF Editado por: Gia Matheus AlmeidaFacebook