23 fevereiro 2026

Cuba, a Espanha do século XXI*

 

O quadro Guernica, de Pablo Picasso, lembra a destruição, em 1937, da cidade basca, no Norte da Espanha, por bombardeios de aviões fornecidos pela Alemanha nazifascista. O crítico de arte Robert Rosenblum analisa a obra: "Ela equivale a uma imagem do fim do mundo, sobretudo do mundo moderno, como o conhecemos. Um clarão ofuscante de chamas, em seguida a sensação do caos definitivo. Mulheres e crianças gritando, um touro, um cavalo, uma visão de choque e trauma que representa todo o nosso pavor à beira do abismo. Da forma mais impressionante e poderosa, Guernica anuncia a mensagem da guerra, do potencial destrutivo do século 20"


A inação diante de Cuba repete o erro fatal de Munique: apaziguar o agressor só adia a guerra e a torna mais devastadora — a história não perdoa os que se calam diante do fascismo renascente

Por Gabriel Cohn*, em A Terra é Redonda

1.

As atitudes do discípulo menor do senhor Adolf Hitler, com direito a reivindicação análoga à Grande Alemanha (Grossdeutschland) nazista no esgar maníaco da Grande América-MAGA, o senhor Donald Trump, vêm alisando o caminho de tendência atual de fundamental importância.

Trata-se da experiência de pesadelo configurada na repetição passo a passo nos primeiros 30 anos do século XXI do período correspondente no século passado.

Que ninguém se iluda: no ritmo atual teremos no final desta década situação análoga à da Europa em 1939, após as tentativas de apaziguar Hitler em Munique no ano anterior.

O imbróglio geopolítico é no mínimo comparável e o potencial destrutivo é incomparavelmente maior, com uma Europa que mais parece a sua problemática área balcânica da fase inicial do século passado, uma projeção oriental em plena expansão e os Estados Unidos em fase neocolonial maníaca (com bem menos racionalidade do que a obsessão nazista por “espaço vital”).

A expansão agressiva nazista na Europa há um século não ganhou impulso no vácuo.

Foi precedida por um teste decisivo da capacidade de resistência internacional, em condições históricas especialmente expressivas. Deu-se ela há exatos 90 anos, quando a República espanhola de 1936 atraiu sobre si a fúria fascista com seu agente, o general Francisco Franco, como operador do eixo Alemanha-Itália.

A Espanha representava na segunda metade da década de 1930 a cabal síntese dos dilemas que atravessavam as sociedades europeias desde a primeira guerra mundial de 1914-1918 (ou, como se veria depois, desde a primeira etapa da guerra de trinta anos de 1914-1945).

Cortada de alto a baixo pelo conflito entre as forças ultrarreacionárias no poder e os movimentos populares e autonomistas centrados na Catalunha e no País Basco, ela, junto com Portugal, pagava o preço do arrogante desprezo europeu por aquelas sombras de eminência histórica passada.

O historiador britânico Gerald Brennan encontrou uma expressão clara ao falar no “labirinto espanhol”.

O que antes era um caminho sem saída nacional hoje parece ter-se convertido em armadilha em escala planetária, com uma superpotência (que a Alemanha nunca foi) em fase de desagregação e incapaz de sequer gerar objetivos nacionais claros no seu centro.

2.

A península ibérica era em 1936 o território perfeito como campo de provas para o avanço bélico da extrema direita no poder na Alemanha e na Itália, a começar pelo teste de armamentos como os aeronáuticos da Legião Condor, que se imortalizou na destruição da pequena e pacífica Guernica (Condor, sim, como a organização de extermínio dos regimes de ultradireita argentinos, chilenos e brasileiros pouco mais de três décadas depois).

Não se tratava de uma guerra de destruição nacional, era muito mais o uso oportunista de uma plataforma disponível para a preparação de avanços belicosos sem limite. Desde que, e esse era o ponto, não encontrasse oposição armada convincente.

Não encontrou. O que fez o governo da Frente Popular com tintura socialista na fronteiriça França?

Nenhum passo de solidariedade, para dizer o mínimo, com o resto da Europa igualmente calada, exceto na intervenção cautelosa, mas real com base no movimento comunista, da União Soviética.

O que ficou de luminoso naquele período foi a valorosa valentia combativa da oposição popular no interior da Espanha e o movimento, único em seu alcance e amplitude, de solidariedade até o sacrifício das Brigadas Internacionais, com uma adesão voluntária que incluiu numerosos brasileiros como Mario Pedrosa, a título de exemplo.

Há quem sustente, de modo plausível, que nos encontramos hoje diante de uma sequência de testes desse tipo, com o morticínio em Gaza desempenhando o papel exemplar para outras agressões em cadeia, caso essa logre seu repugnante êxito.

Desafio análogo se apresenta neste momento, com Donald Trump ameaçando a literal sobrevivência do povo cubano e arreganhando os dentes para quem ousar qualquer oposição, por ora só encontrando resposta efetiva no valoroso México, o mesmo que em 1936 vivia a mais consistente revolução nacional na América Latina.

Especialmente atingidos pela provocação, além é claro dos vizinhos mais próximos, são os países nucleares da associação internacional independente BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, com o Brasil envolvido mais do que como mero destaque na sigla.

No Brasil as ações mais fortes de apoio a Cuba vêm do interior da sociedade para além do Estado nacional, como o MST e os petroleiros. Isso é vital, mas insuficiente.

Ameaças à integridade de nações e, no caso extremo como presenciamos agora, quando populações inteiras são postas como alvo de agressão letal, só podem ser contidas com ações decididas e rápidas no plano internacional, antes que o complexo industrial-militar ao Norte se arreganhe demais.

Do contrário, o conflito bélico que com razão se busca evitar corre o risco de se concretizar, como há um século em circunstâncias semelhantes. Não vivemos a melhor hora para se confiar na racionalidade de governantes e representantes, em Washington ou em Miami.

Cabe ao povo a solidariedade a Cuba e a cobrança aos governantes que o representam.

Espanha republicana sim, Cuba independente sim, fascismo nunca mais, com ou sem Adolf ou Donald.

De Lula, Celso Amorim e equipe cabe exigir firmeza e ação pronta.

*Gabriel Cohn é professor emérito da FFLCH- USP. Autor, entre outros livros, de A difícil República (Azougue). [https://amzn.to/4mJBJeM]

**Via Viomundo

22 fevereiro 2026

POLÍTICA - A direita orienta os ‘conselheiros’ de Lula

 



Por Moisés Mendes*

Tenta ser divertida, mas é muito chata uma das alas do debate sobre a homenagem da Acadêmicos de Niterói a Lula. Dizem o que Lula deveria ter feito, não como opinião, mas como um alerta que não foi ouvido.

Tem gente nas redes sociais dizendo que Lula, o mais intuitivo de todos os políticos desde Getúlio Vargas, deveria ouvir o seu Mércio, o mais famoso morador da Aberta dos Morros, em Porto Alegre, e suas advertências infalíveis.

Gente que sabe tudo e saberia mais do que Lula, que não prestou atenção nos seus avisos. Dizem que dona Eulália, da fruteira Nossa Senhora de Lourdes de Cacequi, mandou um sinal amarelo pelo whats para o Planalto.

Que o seu Bento, capataz de fazenda em Sorocaba, avisou um amigo que conhece alguém em Brasília. Vozes conhecidas das esquerdas influenciam seu Bento.

Não vá, Lula, que é fria. Cuidado, Lula, que as arapucas estão onde a gente menos espera. Você experimentou e venceu todas as crueldades da direita, mas não se deu conta de que a homenagem era uma armadilha.

Você, Lula, que eles encarceraram por 580 dias para sair da prisão caindo aos pedaços, você saiu inteiro e conseguiu se reeleger pela terceira vez. Mas agora você foi amador, Lula. É o que dizem os alarmistas profissionais.

Você, que sabia que sairia da prisão mais forte do que entrou, não sabe tudo, Lula. É o que a direita diz e parte da esquerda, inclusive com mandato, repete no mesmo ritmo.

É uma ladainha. A mesma conversinha que contagia parte das esquerdas com os ataques dos jornalões, do centrão e do bolsonarismo ao STF. As esquerdas viraram papagaios da direita.

A direita pauta a esquerda em quase tudo e até nessa história da arapuca da Sapucaí. É cansativo, mas dirão durante muito tempo que Lula caiu numa tocaia.

A escola de Niterói apenas o atraiu para um roteiro bem urdido, sabendo que o TSE logo estará sob o controle de Nunes Marques e André Mendonça.

Lula não se deu conta disso. Nem o pessoal do seu entorno. Ninguém em Brasília percebeu que, ao invés da bravura e da imaginação dos negros de Niterói, o que havia era uma trama.

Lula enfrenta o jogo sujo de Trump. Avisa ao mundo que irá encarar as big techs. Dá dribles no fascismo nacional e mundial. Mas é ingênuo quando o assunto é Carnaval.

É o que eles repetem. Que Lula caiu na conversa do sambinha de Niterói. Que a homenagem subiu à cabeça dele e de Janja. Que Lula precisa ser mais esperto e não se aliar aos que colocam a tradicional família brasileira dentro de latas de conserva.

Essa é a parte aparentemente divertida da guerra do fascismo contra a Acadêmicos de Niterói, contra os negros e a arte do povo e contra as alegorias que denunciaram a extrema direita enlatada.

Caíram no conto das pautas das Malus Gaspares e nas conversas dos Mervais para dar conselhos a Lula. Alertaram Lula como se fizessem parte da batucada dos jornalões. Recomendaram que Lula se recolhesse a um retiro no Pico dos Marins, na Serra da Mantiqueira.

Curem o porre moralista e parem com isso. Sejam menos influenciáveis pelas homilias da Globo News. Evitem comentários deselegantes sobre um homem com pós-doutorado em como lidar com as pedras, os podres e as latas no seu caminho.

Lula foi empurrado pelo sentimento de que merecia a homenagem, como faz desde o dia em que peitou os ditadores. Lula é sentimento. Olhou para Janja e disse: nóis vai. E foram.

E venceram, porque a racionalidade mais básica e rasa não pode vencer o poder da intuição e dos movimentos genuínos da arte e da política que ainda resiste ao lavajatismo e à tentativa de ressurreição do bolsonarismo.

Lula e Janja foram tão bravos quanto a Acadêmicos de Niterói. Ah, sim, dizem que Lula foi personalista. Assim é na política, meus amigos não foliões. A política não existe sem personalidades e celebridades.

Nem o futebol, nem a Igreja e muito menos uma escola de samba. Lula foi homenageado porque merece até continuar correndo riscos que só ele corre como líder vencedor.

A direita não gostou? Por que a esquerda precisa se incomodar com esse incômodo deles? Se Lula fosse ouvir tudo o que dizem no Natal, na Páscoa e no Carnaval, seria um Tarcísio vacilante qualquer, não seria o Lula.

*Jornalista - Fonte:  Blog do Moisés Mendes

Internacional - Solidariedade com Mélenchon*

 



São Paulo, 21 de fevereiro de 2026

Ao camarada Jean Luc Mélenchon,
Aos camaradas da França Insubmissa,

Queiram receber a nossa mais fraternal solidariedade contra a furiosa campanha da extrema-direita, da direita e da mídia de satanização da LFI.

As provocações não conhecem limites!

Após o trágico assassinato de um fascista em Lyon, no dia 14 de fevereiro – que nada tem a ver com os conhecidos hábitos da LFI – uma onda sem precedentes de calunias foi desatada contra o camarada Mélenchon, os parlamentares e militantes do seu partido. Locais foram covardemente atacados, a sede nacional teve que ser desocupada sob ameaça de bomba.

São os sinais da decadência de um sistema apodrecido que, por cima da democracia, lança mão da violência para intimidar qualquer resistência à sua política social de corte de direitos, que acompanha o apoio a guerras destrutivas pelo mundo e ao genocídio na Palestina.

Desde o Brasil, em luta pela soberania nacional e pelos direitos do nosso povo, compartilhamos que em nenhuma parte vão conseguir calar as vozes da mudança que defendem os direitos e a democracia contra os “podres poderes”.

Vossa luta é a nossa luta!

Markus Sokol
Comitê Nacional do Diálogo e Ação Petista (DAP)

17 fevereiro 2026

O desfile da Acadêmicos de Niterói que a Globo não mostrou

Ângela Carrato: ''A Acadêmicos de Niterói, além da história do Lula, contou também a história recente do Brasil, que a mídia golpista, Globo à frente, tenta escamotear''.Fotos: Laís Reverte/Mídia Ninja e Ângela Carrato

Por Ângela Carrato*

Lindo, emocionante e impactante.

Assim pode ser definida a apresentação da Escola de Samba Acadêmicos de Niterói, que abriu o desfile do grupo especial nesta noite de domingo (15/2).

Em pouco mais de uma hora, foi contada a história de Lula, o menino pobre nordestino, que escapou da seca, da pobreza e da fome e se tornou o melhor presidente do Brasil e um dos líderes políticos mais respeitados no mundo.

Antes mesmo do começo do desfile as arquibancadas do sambódromo já cantavam sem parar o lindo samba enredo e o refrão Lu-lá, Lu-lá, ressoava por toda a avenida.

A chegada de Lula foi simplesmente maravilhosa. Todo vestido de branco e com o inseparável chapéu, esbanjava carisma e alegria.

Claro que a TV Globo não mostrou nada disso.

Detentora exclusiva dos direitos de transmissão sobre o desfile carioca, a emissora da família Marinho fez de tudo para jogar o evento para baixo.

Começou a transmissão atrasada, deu voz a uma turma de repórteres e comentaristas que se fixaram no óbvio e ignoraram o importante.

Nada disso foi por acaso.

Nos últimos dias a direção da Globo chegou a pensar em nem transmitir o desfile, a partir da falsa alegação dos setores de oposição de que o evento se constituiria em campanha eleitoral antecipada.

Como ficaria óbvia a censura patronal ao desfile, foi elaborado um protocolo para a cobertura, que toda a equipe da Globo devia seguir.

Pelo protocolo, as referências a Lula seriam as menores possíveis, o mesmo se dando em relação à sua presença.

Tanto que ele foi mostrado uma única vez e en passant. Algo no mínimo inusitado em se tratando de uma homenagem.

O barulho da oposição foi tamanho que a esquerda caviar também chegou a embarcar na conversa de que o “mais prudente” seria ele nem comparecer ao desfile.

Foi feito todo tipo de terrorismo: se Lula for, corre o risco de ser vaiado ou ficar inelegível.
Nada mais distante da realidade.

A Acadêmicos de Niterói desfilou e, além da história do Lula, contou também a história recente do Brasil, que a mídia golpista, Globo à frente, tenta escamotear.

O carro da comissão de frente, o abre-alas, por exemplo, sintetizou muito bem o golpe contra a presidente Dilma Rousseff, os governos golpistas de Michel Temer e Jair Bolsonaro, sem falar no próprio Bolsonaro condenado e pagando pelo que fez atrás das grades.

Não faltou, neste carro, nem a cena do Jair com tornozeleira tentando fugir.

Claro que a Globo corre destas imagens como o diabo da cruz.

Para a cena golpista ficar perfeita, faltou apenas incluir a própria TV da família Marinho nela.

Ao contrário de outras coberturas, a Globo preferiu planos muito abertos feitos do alto por drones ou closes ultra rápidos. Agindo assim evitou mostrar a euforia que tomou conta do sambódromo e também as imagens incríveis que a escola trouxe sobre Lula, sua vida e a própria vida brasileira.

Por tudo isso adorei o desfile e detestei a transmissão da Globo.

A Acadêmicos de Niterói nos proporcionou um espetáculo de cultura popular, de música, de dança e sobretudo de história de um país que voltou a dar certo.

Um Brasil que venceu o medo.

Daí o ódio que a classe dominante – da qual a familia Marinho é parte – nutre contra Lula.

Daí esta cobertura torta e enviesada de um desfile tão importante e significativo.

Cobertura tão enviesada que suprimiu até o seu final apoteótico, com as arquibancadas gritando “sem anistia para golpistas”.

Não faltarão, nos próximos dias, os urubus de sempre, na mídia e fora dela, falando que o desfile foi um “absurdo”, “campanha eleitoral antecipada”.

Para esses velhos e novos corvos só tenho a dizer que a campanha começa apenas em agosto e que Lula sequer ainda é candidato.

Parabéns Acadêmicos de Niterói!

Parabéns Lula pela merecidíssima homenagem!

*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG e membro do Conselho Deliberativo da ABI - Fonte: Viomundo

16 fevereiro 2026

Nota: Inexiste irregularidade eleitoral em desfile, afirma jurídico do PT

A concepção, desenvolvimento e execução do desfile ocorreram de forma autônoma pela agremiação carnavalesca, sem participação do PT ou de Lula




Nota do Jurídico do Partido dos Trabalhadores*

O Partido dos Trabalhadores esclarece, diante de questionamentos públicos sobre o desfile carnavalesco que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que:

1. O enredo apresentado é manifestação típica da liberdade de expressão artística e cultural, plenamente assegurada pela Constituição Federal. A concepção, desenvolvimento e execução do desfile ocorreram de forma autônoma pela agremiação carnavalesca, sem participação, financiamento, coordenação ou qualquer ingerência do Partido dos Trabalhadores ou do presidente Lula;

2. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral é firme no sentido de que manifestações políticas e culturais espontâneas de artistas constituem exercício legítimo da liberdade de expressão, inclusive em contextos eleitorais e em eventos públicos;

3. Nos termos do art. 36-A da Lei das Eleições, não configura propaganda eleitoral antecipada a mera exaltação de qualidades pessoais de agente político, sobretudo quando realizada por terceiros e sem pedido explícito de voto, elemento indispensável para caracterização de irregularidade eleitoral, inexistente no caso;

4. O Tribunal Superior Eleitoral já analisou as medidas judiciais apresentadas sobre o tema, indeferindo pedidos liminares. As demais iniciativas judiciais foram indeferidas;

5. À luz desses elementos, não há fundamento jurídico para qualquer discussão sobre inelegibilidade relacionada ao episódio;

6. O Partido dos Trabalhadores reafirma que atua em estrita observância à legislação eleitoral, tendo orientado previamente seus filiados e apoiadores quanto às regras aplicáveis ao período de pré-campanha.

O Partido reitera seu respeito às instituições e à Justiça Eleitoral, confiante na prevalência da Constituição, da liberdade artística e da segurança jurídica.

Brasília, 16 de fevereiro de 2026

*Via https://pt.org.br/

Acadêmicos de Niterói homenageia Lula na Sapucaí e leva recados políticos ao carnaval do Rio

Enredo sobre a trajetória do presidente abre o Grupo Especial, cita Janja e faz alusão a Bolsonaro como “palhaço preso”

Acadêmicos de Niterói homenageia Lula na Sapucaí e leva recados políticos ao carnaval do Rio (Foto: Lucas Victorio | Riotur)


247* – A Acadêmicos de Niterói abriu os desfiles do Grupo Especial do carnaval do Rio neste domingo, 15 de fevereiro de 2026, na Marquês de Sapucaí, com um enredo que homenageia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e transforma sua trajetória em narrativa carnavalesca, com referências diretas ao PT, alusão a Jair Bolsonaro e repercussão imediata no ambiente político. Desfile sobre o presidente Lula na Sapucaí encerrou com o público gritando “sem anistia”. 

A escola levou para a avenida o samba-enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, apresentando um recorte simbólico da história do presidente, com início em 1952.

Na encenação, o ator e humorista Paulo Vieira interpretou Lula durante a apresentação, enquanto o presidente assistia ao desfile no camarote da Prefeitura do Rio de Janeiro e chegou a descer para a avenida.

A própria escola destacou a dimensão histórica do homenageado. “A liderança política de Lula marcou definitivamente a história do Brasil. Eleito deputado constituinte e presidente da República, Luiz Inácio subiu ao Palácio do Planalto após receber mais de 52 milhões de votos. Alguns dirão que ele bancou o camaleão, disfarçando de verde e amarelo sua coloração essencialmente vermelha”, afirmou a agremiação.

PT, número 13 e grito de guerra na avenida

O samba-enredo trouxe referências explícitas ao universo do PT. A letra reproduziu um dos gritos de guerra associados à militância e mencionou, em duas passagens, o número de urna do partido.

Um dos trechos destacados foi literal: “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”.

Janja também é citada na composição, assim como o filme “Ainda Estou Aqui”, conectando elementos culturais à narrativa política apresentada pela escola.

Na letra, Eurídice Ferreira de Mello, mãe de oito filhos, narra a viagem de “13 noites e 13 dias” com a família em um caminhão “pau-de-arara”, entre Garanhuns, no interior de Pernambuco, e a periferia de Guarujá, no litoral paulista, em alusão à trajetória do chefe do Executivo.

Ausência de Janja e presença de Fafá de Belém

Apesar de ser aguardada no último carro alegórico, a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, não desfilou na homenagem da Acadêmicos de Niterói.

No lugar dela, entrou Fafá de Belém. Segundo pessoas que acompanharam o desfile ao lado de Lula, Janja chegou a passar pela Marquês de Sapucaí, mas retornou pouco depois ao camarote em que o presidente acompanhava a apresentação.

Alegoria faz alusão a Bolsonaro como “palhaço preso”

A agremiação também levou para a avenida uma alegoria com alusão ao ex-presidente Jair Bolsonaro, representado como um palhaço na prisão.

Com feição triste e espantada, a figura vestia trajes listrados, tradicionalmente associados à representação de presidiários na dramaturgia. O palhaço utilizava ainda uma tornozeleira eletrônica com sinais de violação, em referência a episódio que levou à revogação da prisão domiciliar do ex-presidente, em novembro do ano passado.

Reação da oposição e questionamentos sobre verba pública

A participação de Lula gerou forte repercussão, especialmente entre políticos de direita, que o acusaram de fazer propaganda eleitoral antecipada e de utilizar dinheiro público para se promover. Segundo o relato, opositores chegaram a acionar a Justiça contra a participação do presidente no desfile.

Neste ano, o Governo Federal destinou R$ 12 milhões em verba pública para escolas do grupo especial do carnaval do Rio de Janeiro. A Acadêmicos de Niterói deve receber R$ 1 milhão pela participação no desfile.

Com o enredo centrado na trajetória do presidente, referências diretas ao PT e alegorias com forte carga política, a abertura do Grupo Especial transformou a Sapucaí em palco não apenas de espetáculo cultural, mas também de intensa disputa simbólica sobre o Brasil contemporâneo.

*Fonte: Brasil247

15 fevereiro 2026

'Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil' (Samba-Enredo da Acadêmicos de Niterói/RJ)

 



Quanto custa a fome? Quanto importa a vida
Nosso sobrenome é Brasil da Silva
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo

Olê, olê, olê, olá
Vai passar nessa avenida mais um samba popular
Olê, olê, olê, olá
Lula, Lula

Eu vi brilhar a estrela de um país
No choro de Luiz, a luz de Garanhuns
Lugar onde a pobreza e o pranto
Se dividem para tantos
E a riqueza multiplica para alguns

Me via nos olhares dos meus filhos
Assombrados e vazios
Com o peito em pedaços
Parti atrás do amor e dos meus sonhos
Peguei os meus meninos pelos braços
Brilhou um Sol da pátria incessante
Pro destino retirante
Te levei, Luiz Inácio

Por ironia, treze noites, treze dias
Me guiou Santa Luzia, São José alumiou
Da esquerda de Deus Pai, da luta sindical
À liderança mundial

Vi a esperança crescer
E o povo seguir sua voz
Revolucionário é saber
Escolher os seus heróis
Zuzu Angel, Henfil, Vladimir
Que pagaram o preço da raiva
Nós ainda estamos aqui
No Brasil de Rubens Paiva

Lute pra vencer
Aceite se perder
Se o ideal valer
Nunca desista
Não é digno fugir
Nem tão pouco permitir
Leiloarem isso aqui
A prazo, à vista

É, tem filho de pobre virando doutor
Comida na mesa do trabalhador
A fome tem pressa, Betinho dizia
É, teu legado é o espelho das minhas lições
Sem temer tarifas e sanções
Assim que se firma a soberania
Sem mitos falsos, sem anistia

Quanto custa a fome? Quanto importa a vida
Nosso sobrenome é Brasil da Silva
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo

Olê, olê, olê, olá
Vai passar nessa avenida mais um samba popular
Olê, olê, olê, olá
Lula, Lula

Eu vi brilhar a estrela de um país
No choro de Luiz, a luz de Garanhuns
Lugar onde a pobreza e o pranto
Se dividem para tantos
E a riqueza multiplica para alguns

Me via nos olhares dos meus filhos
Assombrados e vazios
Com o peito em pedaços
Parti atrás do amor e dos meus sonhos
Peguei os meus meninos pelos braços
Brilhou um Sol da pátria incessante
Pro destino retirante
Te levei, Luiz Inácio

Por ironia, treze noites, treze dias
Me guiou Santa Luzia, São José alumiou
Da esquerda de Deus Pai, da luta sindical
À liderança mundial

Vi a esperança crescer
E o povo seguir sua voz
Revolucionário é saber
Escolher os seus heróis
Zuzu Angel, Henfil, Vladimir
Que pagaram o preço da raiva
Nós ainda estamos aqui
No Brasil de Rubens Paiva

Lute pra vencer
Aceite se perder
Se o ideal valer
Nunca desista
Não é digno fugir
Nem tampouco permitir
Leiloarem isso aqui
A prazo, à vista

É, tem filho de pobre virando doutor
Comida na mesa do trabalhador
A fome tem pressa, Betinho dizia
É, teu legado é o espelho das minhas lições
Sem temer tarifas e sanções
Assim que se firma a soberania
Sem mitos falsos, sem anistia

Quanto custa a fome? Quanto importa a vida
Nosso sobrenome é Brasil da Silva
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo

Olê, olê, olê, olá
Vai passar nessa avenida mais um samba popular
Olê, olê, olê, olá
Lula, Lula
Olê, olê, olê, olá
Vai passar nessa avenida mais um samba popular
Olê, olê, olê, olá
Lula, Lula

Olê, olê, olê, olá
Lula, Lula
Olê, olê, olê, olá
Lula, Lula

...


*Composição: Teresa Cristina / André Diniz / Paulo César Feital / Fred Camacho / Junior Fionda / Arlindinho / Lequinho / Thiago Oliveira / Tem-Tem Jr..

14 fevereiro 2026

O Samba na Avenida: Liberdade de Expressão Cultural e Risco Eleitoral

 

Por José Geraldo de Sousa Junior*

A escola de samba Acadêmicos de Niterói está homenageando o presidente Lula no Carnaval de 2026 com o enredo “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil”. O samba-enredo, interpretado por Emerson Dias, retrata a trajetória de Lula, desde sua origem humilde até sua atuação política, passando pela luta sindical e pelo combate à fome, como se vê em parte de sua letra.

É… TEM FILHO DE POBRE VIRANDO DOUTOR

COMIDA NA MESA DO TRABALHADOR

A FOME TEM PRESSA, BETINHO DIZIA

É.. TEU LEGADO É ESPELHO DAS MINHAS LIÇÕES

SEM TEMER TARIFAS E SANÇÕES

ASSIM QUE SE FIRMA A SOBERANIA

SEM MITOS FALSOS, SEM ANISTIA

O desfile acontece no dia 15 de fevereiro de 2026, domingo, a partir das 22h. O enredo é uma crítica social e um resgate da história do Brasil, com referências à religiosidade católica e à luta da classe trabalhadora. Afinal, Lula pode até ser candidato, mas antes de tudo é personagem maiúsculo da História, da História do Brasil e da História do Mundo, que em meu tempo de ginasiano era denominada História Universal.

Não surpreende que numa conjuntura política exacerbada, tensionando projetos antagônicos de sociedade, à esquerda, ao centro e à direita, tudo seja misturado no caldeirão da disputa e já se apresentem as petições de impugnação e de criminalização desses projetos. De fato, contra o desfile já são várias as representações e elas ainda se acumularão, até o desfile e depois dele, quando a disputa se desloca das urnas para os tribunais.

Enquanto escrevo, ouço em https://www.website.agenciaradioweb.com.br/meuplayer.php?idmateria=NjMxMjQ=, reportagem do competente radialista Allan Barbosa, a partir da chamada “Planalto teme por crimes eleitorais com samba-enredo a Lula”, entrevistando o advogado e analista político Melillo Dinis, meu companheiro coordenador do Grupo de Análise de Conjuntura Social da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Melillo chama a atenção para riscos associados à possibilidade de caracterização de propaganda antecipada e abuso de poder, tanto mais acentua Allan, quando conduzirá o TSE nas eleições dois ministros que foram indicados pelo Presidente Bolsonaro e que conhecem a decisão da justiça eleitoral em face da reunião do ex-Presidente com diplomatas no Alvorada, resultando em sua condenação a inelegibilidade. Ainda que as diferenças sejam gritantes, entre um ato cultural espontâneo e um ato político forte na agenda eleitoral.

De toda sorte, ontem (11/2), a Justiça Federal rejeitou, duas ações apresentadas contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a Escola de Samba Acadêmicos de Niterói por causa do enredo escolhido pela agremiação para apresentar na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. O juiz federal Francisco Valle Brum justificou que os pedidos não cumprem os requisitos necessários para a abertura de processo e afirmou que não houve demonstração concreta de dano ao patrimônio público (fonte O Correio Brazilense).

E hoje (12/2), com voto dos ministros e ministras Kassio Nunes, André Mendonça e Carmen Lúcia, o TSE negou ação contra tributo a Lula na Sapucaí, claro que rejeitando a liminar pretendida. Para a relatora, ministra Estela Aranha, não é possível classificar propaganda eleitoral antecipada, já que o desfile não ocorreu, além do que “ainda que não possa ser considerada propaganda antecipada a simples reprodução dos fatos nas redes sociais não prejudica uma nova análise após o desfile”. A ação prossegue mas os pontos fixados para a discussão ativam o que tem sido a manifestação conceitual e ordenadora do TSE nesse assunto.

Com efeito, a diferenciação entre crítica política legítima e propaganda eleitoral é um dos pontos em que mais claramente se revela a tensão constitutiva do direito eleitoral em uma ordem democrática. De um lado, a proteção robusta da liberdade de expressão e do pluralismo político; de outro, a necessidade de assegurar igualdade de chances na disputa eleitoral. A jurisprudência recente do Tribunal Superior Eleitoral tem buscado resolver essa tensão por meio de uma inflexão relevante de perspectiva. Em vez de vigiar o conteúdo político do discurso, procura identificar sua funcionalidade eleitoral.

Durante muito tempo, a Justiça Eleitoral brasileira operou com um olhar mais restritivo sobre manifestações políticas fora do período oficial de campanha, temendo que qualquer antecipação do debate eleitoral comprometesse a paridade entre os concorrentes. A reforma introduzida pela Lei 13.165/2015 e sua leitura jurisprudencial posterior, contudo, deslocaram o eixo interpretativo. O reconhecimento explícito de espaços legítimos de pré-campanha e a enumeração de condutas permitidas no art. 36-A da Lei das Eleições sinalizaram uma abertura maior ao debate público. A partir daí, o TSE passou a afirmar com mais nitidez que a mera manifestação política, ainda que valorativa, parcial ou engajada, não se confunde com propaganda eleitoral antecipada.

Nesse contexto, o critério que se consolidou como núcleo distintivo é o do pedido explícito de voto. A Corte tem reiterado que, em regra, somente a presença de um chamamento direto ao eleitor — a solicitação clara de apoio eleitoral — autoriza a caracterização de propaganda antecipada ilícita. Essa orientação não se limita a um formalismo vocabular, mas indica uma preocupação de fundo, vale dizer, evitar que a regulação eleitoral se converta em mecanismo de contenção do debate político. A democracia pressupõe circulação livre de ideias, avaliações sobre governos, críticas a políticas públicas e juízos sobre lideranças. Se toda tomada de posição mais enfática pudesse ser lida como propaganda, o efeito seria um empobrecimento do espaço público e uma inibição indevida da cidadania discursiva.

Isso não significa, porém, que a Justiça Eleitoral seja indiferente aos efeitos eleitorais da comunicação política. O que a jurisprudência procura é distinguir entre o discurso que participa do debate público e aquele que já integra uma estratégia de persuasão eleitoral típica de campanha. Para tanto, a análise raramente se limita à literalidade das palavras empregadas. O Tribunal recorre com frequência à ideia de exame do “conjunto da obra”, considerando contexto, circunstâncias e finalidade. A linguagem utilizada, o momento em que a manifestação ocorre, o meio de difusão, o alcance da mensagem e a eventual vinculação com pré-candidaturas ou estruturas de campanha são elementos que ajudam a revelar se se trata de opinião política ou de promoção eleitoral.

A crítica política legítima, nessa moldura, é compreendida como parte do funcionamento normal do regime democrático. Ela pode ser dura, unilateral, apaixonada e até estrategicamente orientada por preferências ideológicas. Ainda assim, permanece protegida enquanto não se converte em convocação ao voto ou em construção de imagem eleitoral associada a uma candidatura. Elogiar qualidades de uma liderança, defender ideias que ela representa ou criticar adversários não basta, por si só, para configurar propaganda. O que desloca a manifestação para o campo do ilícito é sua transformação em ato de captação de sufrágio.

O tempo também desempenha um papel relevante, mas não absoluto. A proximidade das eleições naturalmente intensifica o escrutínio, pois aumenta o risco de que mensagens aparentemente opinativas tenham finalidade eleitoral imediata. Ainda assim, a Corte tem sinalizado que o calendário eleitoral não suspende a liberdade de expressão. A cidadania política não entra em recesso até o início oficial da campanha. O que se busca evitar é o uso desequilibrado de recursos, meios de comunicação ou estratégias profissionais para antecipar, de forma disfarçada, a disputa eleitoral.

Por trás dessa orientação está uma leitura constitucional que atribui peso elevado à liberdade de expressão e ao pluralismo político. O TSE dialoga, nesse ponto, com a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, que tem afirmado de modo consistente a posição preferencial da liberdade de expressão no sistema constitucional. A intervenção estatal sobre o discurso político tende a ser vista como medida excepcional, justificável apenas quando há risco concreto à lisura e à igualdade da competição eleitoral. Assim, a proteção da igualdade de chances não é abandonada, mas passa a operar como contrapeso, não como ponto de partida.

O resultado é uma mudança de paradigma. A Justiça Eleitoral procura menos policiar opiniões e mais coibir a conversão disfarçada do debate em campanha. A linha divisória entre crítica e propaganda não está na intensidade do posicionamento, nem no fato de a manifestação favorecer simbolicamente alguém, mas na presença de finalidade eleitoral direta. Em outras palavras, o problema não é que o discurso seja político — isso é inerente à democracia —, mas que ele funcione como ato de campanha fora das regras e do tempo próprios.

Essa orientação revela uma compreensão mais madura da esfera pública democrática. O eleitor não é visto como sujeito passivo a ser protegido do excesso de discurso político, mas como cidadão capaz de formar juízo em meio ao pluralismo de vozes. Ao mesmo tempo, preserva-se a ideia de que a disputa eleitoral deve ocorrer em condições minimamente equânimes. A jurisprudência, assim, procura equilibrar dois riscos opostos. O de uma campanha permanente sem regras e o de uma censura eleitoral que sufoque o debate público. Na tensão entre esses polos, a Corte tem optado por errar menos contra a liberdade e intervir apenas quando o discurso deixa de ser política em sentido amplo e se torna, inequivocamente, campanha.

Voltando ao programa da radioweb compreendo e acompanho a interpretação de Melillo, sabendo que ela carrega uma advertência e não uma conclusão. Leitor de Ulrich Beck, para quem o risco não é apenas um problema individual, mas sim uma questão social e política que afeta a todos, Melillo emprestou suas leituras para a Análise de Conjuntura Social que o Grupo de Análise de Conjuntura Social prepara para o episcopado brasileiro (CNBB), lembrando, como aparece no texto – A CONJUNTURA INTERNACIONAL EM 2026 – a única constante é a mudança https://www.cnbb.org.br/wp-content/uploads/test-for-pdf/Analise-de-Conjuntura-Social-A-CONJUNTURA-INTERNACIONAL.pdf – que “Parte de uma cultura em crise é a indefinição de como descrevê-la. Há um cheiro crescente de riscos. O risco é um conceito muito “moderno”. Pressupõe decisões que tentam fazer das consequências imprevisíveis das decisões civilizacionais decisões previsíveis e controláveis. O risco repousa no fato de que nossas decisões civilizacionais envolvem consequências e perigos globais, e isso contradiz radicalmente a linguagem institucionalizada do controle – e mesmo a promessa de controle – que é irradiada ao público global na eventualidade de catástrofes”.

Dito em alemão essa é uma forma sofisticada de conceituar opções de risco. Há ainda as sensíveis e cotidiana ilustradas no pensamento de Riobaldo Tartarana, em Grande Sertões, Veredas (João Guimarães Rosa), no atinar que “Viver é muito perigoso” e que “A vida é assim, um rio que corre para o mar, e a gente não sabe o que vai encontrar no caminho“. O Samba da Acadêmicos de Niterói na avenida, na melhor tradição de retirar da História os grandes legados, desfilará no ritmo da liberdade de expressão cultural ao homenagear um grande brasileiro e sua obra política. Fazer história implica risco, inclusive eleitoral.

(*) José Geraldo de Sousa Junior é professor titular na Faculdade de Direito e ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB) - Fonte: Brasil Popular