Da desclassificação da seleção ao uso político da camisa amarela, artigo analisa a degradação simbólica da bandeira nacional
Poucas horas após a desclassificação da seleção brasileira, um balão com o maior de todos os símbolos nacionais, a bandeira do Brasil, apareceu caído no asfalto de uma rua de Guarapari, cidade turística no litoral do Espírito Santo.
Quis o destino que o balão caísse ao lado da sarjeta, passando aos pedestres a impressão de que a nossa bandeira estava perto de ser engolida pelo esgoto da cidade.
O acaso nos leva a uma reflexão. De certa maneira, aquela imagem demonstra o que acontece quando a nossa paixão coletiva e o sentimento patriótico se vinculam a algo que pouco ou nada tem a ver com a verdadeira noção de patriotismo.
Infelizmente, a camisa da seleção brasileira foi alçada à condição de símbolo da Nação por razões que dizem respeito a tudo, menos à qualidade do futebol ou à aderência aos valores de pertencimento e unidade que permeiam o próprio conceito de nação. Passou a servir, inclusive, à manipulação ideológica dos fascistas que tentaram um golpe de Estado.
Há anos, quem acompanha o esporte sabe o que aconteceu. Conhece o desleixo da CBF com o futebol brasileiro e sabe como a principal entidade do esporte no país foi instrumentalizada, servindo aos interesses políticos da ditadura militar. Foi nesse processo que o futebol deixou, gradualmente, de ser um valor para os dirigentes da CBF.
Nesse sentido, vale lembrar que, em maio de 2015, pouco antes de os bolsonaristas transformarem a camisa amarela em traje fascista, o todo-poderoso ex-presidente da CBF, José Maria Marin, foi preso, acusado de envolvimento em um megaesquema de corrupção, durante uma reunião anual da FIFA, em Zurique, na Suíça. As investigações, conhecidas como Fifagate, apuravam crimes de extorsão, fraude e lavagem de dinheiro, envolvendo mais de US$ 100 milhões em propinas relacionadas à comercialização e aos direitos de transmissão de torneios de futebol na América Latina, como a Copa América e a Copa do Brasil.
Marin cumpriu parte da pena na penitenciária do Brooklyn, em Nova York.
Como se pode constatar, a camisa da seleção brasileira já vinha, havia muito tempo, sendo enlameada pelos maiores representantes da própria CBF. Não por acaso, caiu como uma luva para o grupo de golpistas do 8 de Janeiro, todos condenados por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e dano qualificado mediante violência e grave ameaça. Já ali, a CBF deveria ter feito uma ação no sentido de impedir que a imagem da instituição e seu símbolo maior, a camisa da seleção, fossem envolvidos em atos criminosos. Mas nada fez, talvez por concordância ideológica e moral.
A saída da seleção brasileira da Copa do Mundo não poderia ser mais melancólica, tendo em Neymar, principal representante do bolsonarismo no futebol, a expressão de atitudes antidesportivas que envergonham o país. Ao ofender e agredir verbalmente os jogadores da Noruega após uma derrota mais do que justa, Neymar acabou desrespeitando não apenas os adversários, mas todos aqueles que amam o futebol, especialmente os grandes craques do passado, como Garrincha, Pelé, Gérson, Rivellino, Zico, Sócrates, Falcão e tantos outros que sabiam sair de cabeça erguida do campo, reconhecendo a derrota e as qualidades dos adversários.
*Jornalista - Fonte: Brasil247











