20 maio 2019

Volver - Carlos Gardel



*Letra: Alfredo Le Pera - Música: Carlos Gardel (1934)

Eleição foi uma fraude: povo tem que decidir os rumos do Brasil



Por Emir Sader*

Tão rapidamente quanto montou a monstruosa operação de fraude que levou a entrega da presidência do Brasil a um grupo de aventureiros, a direita desiste de transformar o capitão num presidente. Unanimemente os órgãos da velha mídia se pronunciam no sentido de que com esse cara nao da mais. Que ao invés de agregar, unir, somar forças, ele só desagrega, destrói, gera o caos. Alguns deles falam de que o governo que eles mesmos elegeram está desmilinguindo. O problema é que está arrastando o país.

Como foi possível que um presidente eleito com mais de 50 milhões de votos, se revele incapaz de dirigir o país? Simplesmente porque o único objetivo da direita nas eleições era impedir que o PT voltasse a governar. Valia de tudo. Da mesma forma que a fraude do impeachment, a fraude do processo, da prisão e da condenação do Lula, manipularam as eleições, mediante outra fraude, denunciada pela mídia, mas absolvida pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Os resultados estão aí. Elegeram o único que tinha um certo caudal de votos, para se prestar à manipulação que levou à sua vitória e à derrota do PT. Não importava quão qualificado estava para governar. Agora a mesma mídia que o apoiou diz que ele é um fracasso na economia, na educação, nas relações internacionais, em tudo. Depois de uma carreira de quase trinta anos de carreira política inócua e cheia de irregularidades, em que foi acompanhado pelos filhos. Depois do Carlos ser um vereador notoriamente vinculado às milícias, com os evidentes sinais de relação com a morte da Marielle.

Mas preferiram isso, um personagem assim, qualquer coisa, contanto que garantisse, com a derrota do PT, a manutenção do modelo neoliberal, o único projeto que a direita tem para o Brasil. Não tem o direito de se surpreenderem com a política de liberação geral do uso de armas, com a política de asfixia da educação com os gigantescos cortes de recursos e de liquidação da autonomia universitária. Tudo isso estava na campanha, com o gesto da arminha e com os ataques aos professores.

Um presidente fraudulento, que se negou a discutir e a explicitar o que iria fazer no governo, o primeiro que nunca participou de debates públicos, eleito por uma operação de manipulação da opinião pública com imagens forjadas difundidas por milhões de robôs, só poderia dar num presidente fraudulento.

Quem se diz decepcionado com ele, quem já manifestou disposição de substituí-lo, tem que se perguntar como o elegeram, como o preferiram, como deixaram de lado tudo o que sabiam dele, como toleram a operação de fraude eleitoral.

Podem tentar uma operação de substituição, como se ele não tivesse cumprido com o que prometia. Na verdade, a decepção da direita vem da incapacidade do governo organizar uma maioria para aprovar a continuidade do programa neoliberal, a reforma da previdência, no momento atual. Toleram tudo o resto, menos o que desvia a atenção e as energias do governo, o que desgasta o apoio para aprovar a medidas neoliberais do governo. Não importa que se dissemina o uso de armas, que governos estaduais coloquem em prática políticas de genocídio da população, que se destrua a educação pública no Brasil. Que a imagem do país no exterior seja absolutamente degradada. Mas não perdoa o bloqueio na aprovação dos projetos neoliberais.

A oposição democrática não pode ficar apenas olhando os movimentos da direita, não deve ficar opinando que alternativa seria menos ruim – a continuidade desastrada do atual presidente, a posse do vice, o papel dos militares. Nada disso interessa, nem ao país, nem à democracia, nem ao povo brasileiro. Nada disso corrige a farsa eleitoral que impediu a expressão democrática do povo, que teria levado à eleição do Lula ou do Haddad.

É preciso voltar a denunciar a farsa eleitoral, a falsificação da vontade popular pela monstruosa operação de whats’up e de robôs. A direita tem que pagar o preço pela eleição de um candidato que ela mesma considera incapaz de governar o país. Não pode simplesmente substituí-lo por quem o acompanhou nessa operação criminosa.

É preciso dar a voz ao povo, em condições transparentes, democráticas. É preciso denunciar a operação que desviou o país do caminho que todas as pesquisas mostravam que era o preferido, no primeiro turno. A esquerda tem que polarizar contra todas as alternativas da direita e não ficar torcendo por alguma delas, preferindo algum eventual mal menor. As contradições que se dão no seio da direita ocuparam até aqui o centro do cenário político. E’ hora da esquerda voltar a se apresentar como alternativa, mostrar que o país é viável, é governável, que foi governado muito bem pela esquerda, quando as eleições se deram de maneira democrática.

*Colunista do 247, Emir Sader (foto)  é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros - Via https://www.brasil247.com

19 maio 2019

Outros poderes atuam para barrar decreto do porte de armas editado por Bolsonaro - Especialistas explicam que atitude do presidente é inconstitucional e caracteriza abuso de pode


Porte de armas foi liberado por decreto de Bolsonaro para quase 20 categorias profissionais; ações na Justiça podem impedir sua vigência / Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Brasil de Fato* - por Luciana Console - O porte de armas no Brasil foi facilitado com a publicação do decreto nº 9.785 pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL), no último dia 7 de maio. Outros poderes, entretanto, discordam da legalidade da medida tomada pelo Executivo. 
O entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) é de que o decreto fere o Estatuto do Desarmamento.
Para Felippe Angeli, especialista em relações internacionais do Instituto Sou da Paz, a atitude do presidente de alterar substancialmente o Estatuto fere a legislação. 
“A lei [Estatuto do Desarmamento] aprovada pelo Congresso Nacional veda de forma muito expressa. O porte [de arma] é proibido em território nacional e ali estabelece algumas exceções. A presidência poderia regulamentar as exceções e não ampliar na questão do porte, como fez para várias categorias”, explica Angeli. 
O especialista explica que a competência da presidência se dá somente no âmbito de detalhar e trazer interpretações, mas nunca alterar o conteúdo, como fez Bolsonaro com o decreto do porte de arma. Ele considera a atitude "completamente inconstitucional" e afirma que ela dá base para os pedidos de suspensão que já estão em vigor. 
O principal ponto do decreto é a ampliação do porte de arma de fogo para quase 20 categorias profissionais, entre elas políticos, caminhoneiros, moradores de área rural e jornalistas de cobertura policial. Em pronunciamento, o presidente também incluiu atiradores esportivos, caçadores e praças das Forças Armadas.
Segundo João Telésforo, membro do Núcleo de Atuação Política do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM), o Brasil detém recorde em homicídios com arma de fogo no mundo. Ele ressalta, porém, que os números poderiam ser bem maiores caso o Estatuto do Desarmamento não tivesse sido aprovado. A principal função do Estatuto foi atuar na diminuição de circulação de armas de fogo pelo país.
“A curva de crescimento se atenuou, o número elevado de mortes por arma de fogo no brasil tem vários fatores, mas um deles é exatamente a facilidade de obter armas de fogo e o estatuto atenuou isso”, explica Telésforo.
Ele explica que as consequências de alteração do Estatuto pelo decreto de Bolsonaro podem sentenciar o país a mais mortes, e cita o risco de que os impactos do chamado “decreto da morte” aumentem a violência contra a mulher e conflitos no campo. Para o integrante do IBCCRIM, o governo Bolsonaro está dando carta branca para matar ao mesmo tempo em que está armando as pessoas. 
Telésforo também adverte que a questão da ampliação do porte de arma vai muito além do ideal conservador. Ele se remete à atitude de submissão do presidente aos EUA e empresas estadunidenses. 
"Estamos enfrentando interesses de grandes corporações. Não é simplesmente uma ideologia conservadora que está em jogo aqui. Está em jogo um interesse corporativo tentando sequestrar as decisões do estado brasileiro”, argumenta. 
Para contrapor às tentativas de suspensão do decreto de Bolsonaro, Telésforo revela que há articulação da bancada da bala para apresentar um PL que amplie ainda mais porte de armas no campo. 
O especialista entende que é preciso pressão popular, e explica que não "se pode depender somente das instituições nos dias de hoje". Ele também aponta que é justamente o medo da pressão popular que provavelmente fez com que Bolsonaro caminhasse por "vias ilegais" ao tentar liberar o porte de armas, já que se seguisse o que determina a lei, seria necessário que o presidente encaminhasse um projeto de lei ao Congresso Nacional.
*Edição: Rodrigo Chagas - https://www.brasildefato.com.br

Bolsonaro cai como Jânio ou como Collor? Qual o destino traçado para o fim do 'Mito'


Jânio, Bolsonaro e Collor


Por Antônio Mello*

Desde a semana passada, o presidente Jair Bolsonaro vem sentindo a pressão do cargo sobre seus ombros. Anunciou um tsunami para essa quarta e o tsunami, ao que parece, foi o pedido de quebra dos sigilos bancário e fiscal de seu filho Flávio, sua mulher Michele, seu amigão, o motorista e policial Queiroz, família e mais dezenas de pessoas, num total de quase cem. Investigação que cobre um período de doze anos, de janeiro de 2007 a dezembro de 2018. O início das apurações já mostrou que vem muita sujeira por aí.

Ontem [16/05], Bolsonaro esteve em Dallas, Texas, EUA, numa viagem fracassada, para receber um prêmio esvaziado, e foi declarado persona non grata pelos prefeitos de Nova York e Dallas, e várias personalidades se negaram a se encontrar com ele ou fizeram pior, declararam Bolsonaro persona non grata naquelas cidades.

Na chegada ao Brasil, deprimido, Bolsonaro distribuiu a suas listas de WhatsApp texto [que pode ser lido aqui] de uma pessoa, que é quase como o antigo argumento que Jânio Quadros usou para renunciar, de que o Brasil é ingovernável graças às "forças ocultas" (Jânio) ou às "corporações", no texto endossado por Bolsonaro.

A verdade é que o governo mal começou e já acabou, e só se discute agora qual seu final: Bolsonaro renuncia, como Jânio, alegando ser impossível governar o país, pondo a culpa nas corporações, no "marxismo cultural" e no PT?

Ou Bolsonaro vai aguardar que as investigações avancem sobre as relações "pouco republicanas" de suas famílias, inclusive com as milícias, e o motorista Queiroz abra o jogo e faça como Eriberto França, o motorista que denunciou todo o esquema de corrupção que levou ao impeachment de Collor?

Collor durou dois anos. Jânio, nem sete meses. Quanto tempo ainda vai durar o governo Bolsonaro?

17 maio 2019

Ao retornar para a prisão, Zé Dirceu deixa recado: 'O Brasil já está mudando'


Zé Dirceu: 'Vulcão já está em erupção'

São Paulo – RBA - Após a Justiça do Paraná determinar, na noite de ontem (16), a prisão do ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, ele divulgou um áudio via redes sociais comentando a atual situação do país. “O Brasil já está mudando, o vulcão está em erupção”, disse.
Dirceu chama os brasileiros à luta e pede para que “fiquem aí na trincheira de vocês que é a nossa". "Como eu disse, um vulcão embaixo de um país de jovens e mulheres vai, como está acontecendo, entrar em erupção.”
Em sua fala breve, o ex-ministro ainda disse que está preparando o segundo volume de sua autobiografia. No primeiro, Zé Dirceu: Memórias – Volume 1(Geração Editorial, 2018), que escreveu durante seu último período encarcerado (entre agosto de 2015 e maio de 2017), ele apresentou bastidores de sua militância nos anos 1960, o exílio e treinamento em Cuba, a vida clandestina durante a ditadura civil-militar (1964-1985), entre outros aspectos que contribuíram para a construção de uma das figuras políticas mais relevantes do país após a redemocratização.
“Eu me preparei para isso, vou retomar o segundo volume lá, vou ler mais, manter a saúde, manter o contato, viu?”, disse. Sobre a questão judicial, Dirceu comentou: “Tem uma série de recursos jurídicos a curto prazo, tem uma série de decisões para serem tomadas lá no Supremo, no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Vamos ver se nós conseguimos justiça a curto prazo”.
A decisão de mandar Dirceu de volta à prisão foi tomada no final do expediente de ontem, pelo juiz federal Luiz Antônio Bonat, do Paraná. A celeridade da decisão teve relação com a decisão tomada no mesmo dia pelo Tribunal Regional Federal (TRF-4), que negou recurso da defesa do ex-ministro, que solicitava a prescrição de sua pena. Dirceu foi condenado em segunda instância pelo TRF-4 a oito anos e dez meses em processo da Operação Lava Jato, por suposto recebimento de propinas em função de contrato da Petrobras com a fornecedora da estatal Apolo Tubulars, entre 2009 e 2012.
Leia o conteúdo do áudio na íntegra:
"Meus amigos, boa noite. Estamos aqui nos preparando para mais essa trincheira de luta. Vamos ver assim. Tem uma série de recursos jurídicos aí a curto prazo, tem uma série de decisões para serem tomadas lá no Supremo, no STJ. Vamos ver se nós conseguimos justiça a curto prazo, viu?

Mas eu me preparei pra isso, vou retomar o segundo volume lá, vou ler mais, manter a saúde, manter o contato, viu?

Fiquem ai na trincheira de vocês que é a nossa. Vamos à luta. O Brasil já está mudando, o vulcão já está em erupção. Como eu disse no Tuca, um vulcão embaixo de um país de jovens e mulheres vai, como está acontecendo, entrar em erupção. Beijos a todos e todas."

SE QUISEREM, PEGAM






Por Moisés Mendes*
Mais uma provocação de Bolsonaro sobre a situação complicada do filho Flavio: “Venham pra cima, não vão me pegar”.
Um presidente que se considerava poderoso disse mais ou menos a mesma coisa lá em 1992. Era forte, bonito, rico, cheiroso.
Esse presidente tinha o apoio da elite da Avenida Paulista, dos coronéis do Nordeste, do latifúndio do Centro e do Sul, dos bancos, da Globo e da imprensa.
Seu ministério tinha esses nomes, do primeiro time das suas áreas, que os mais antigos sabem bem o que representavam: Sérgio Paulo Rouanet, Adib Jatene, José Lutzenberger, Alceni Guerra, Célio Borja, Celso Lafer, Francisco Rezek, Hélio Jaguaribe, Jarbas Passarinho, José Goldemberg, Marcílio Marques Moreira, Carlos Chiarelli, Pratini de Moraes, Ozires Silva e Arthur Antunes Coimbra, o Zico.

Era um timaço, com nomes respeitados do centro e da direita. Pois o presidente com a proteção desses craques achava que eles seriam seu escudo e que ele nunca cairia.

Formou um ministério de notáveis, que em tese poderiam protegê-lo. Acabou caindo como um saco de batatas, sem apoio de ninguém. Chamava-se Fernando Collor de Mello.
Bolsonaro tem um ministério medíocre, de terceira categoria, tem atritos com os militares, tem três filhos que só tumultuam (um deles envolvido em investigações com milicianos). E não tem o apoio das elites, nem da Globo, nem da imprensa.
Bolsonaro tem o apoio do latifúndio, dos grileiros e da classe média reacionária que puxou sua campanha. Nem o baixo clero do Congresso o apoia. Talvez nem possa contar mais com o apoio incondicional das igrejas neopentecostais.
Pois Collor teve no ministério um intelectual da grandeza de um Sérgio Paulo Rouanet e tombou. Pouco antes de cair, disse em pronunciamento na TV: “Enganam-se aqueles que pensam que vão cassar o mandato do presidente da República”.
Bolsonaro tem Damares. Se quiser mesmo, a direita pode derrubá-lo a qualquer momento, como derrubou Collor.

*Jornalista - via Blog do Moisés Mendes


**Charge do Kayser

16 maio 2019

Morro da Casa Verde e Saudosa Maloca (Adoniran Barbosa)



*Cantam:  Verônica Ferriani e Diogo Nogueira

CAPACHO, BOLSONARO DIZ 'ESTADOS UNIDOS ACIMA DE TUDO' E PROVOCA INDIGNAÇÃO



Discurso na cerimônia de entrega do prêmio oferecido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, em Dallas, no Texas, teve o bordão de seu governo refeito para incluir os Estados Unidos - "Brasil e Estados unidos acima de tudo" -, gerando revolta nas redes sociais; o presidente brasileiro também voltou a bater continência à bandeira americana (do 247)
CLIQUE AQUI para ler na íntegra.

Chico Whitaker cria abaixo assinado contra decreto sobre armamento de Bolsonaro - 'Política de retrocesso civilizatório provocará mais mortes, mais sofrimento e desgraça no Brasil', alerta Prêmio Nobel Alternativo

Homem protesta Durante comissão especial na Câmara, em 2015. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Jornal GGN – 
Por
 Lilian Milena* - O arquiteto brasileiro, ganhador do Right Livelihood Award de 2006 (também conhecido como ‘Prêmio Nobel Alternativo’), concedido pelo Parlamento Sueco, Chico Whitaker, criou um abaixo assinado contra a “liberação generalizada da posse e porte de armas”, pretendida pelo presidente Jair Bolsonaro.
No dia 7 de maio, o líder do Planalto publicou um decreto alterando as regras sobre o uso de armas e de munição, facilitando ainda mais o porte de armas de fogo fora de casa.
“Confio nos Poderes Legislativo e Judiciário para invalidar imediatamente esse decreto, que só beneficiará fabricantes e contrabandistas de armas, estimulará a violência para resolver conflitos pessoais e sociais e disseminará o ódio em nosso país”, alerta Whitaker.
Ele avalia que a medida de governo significa “um retrocesso civilizatório” que “provocará mais mortes e sofrimentos” no país.
“Eu pessoalmente, e todos que assinam a presente Declaração, abdicamos antecipadamente, de forma absoluta e irretratável, do direito de possuir e portar armas que nos seja eventualmente concedido por decretos, leis ou decisões judiciais”, conclui no manifestou.
Na terça-feira (14), o Ministério Público Federal em Brasília protocolou na 17ª Vara da Justiça Federal um pedido de suspensão imediata e total do decreto que flexibiliza o porte de armas. A entidade avalia que, além de desrespeitar o Estatuto do Desarmamento, a medida “coloca em risco a segurança pública de todos os brasileiros”.
O MPF critica ainda a ampliação do porte de armas para 20 categorias feita de forma genérica “e permanente” pelo presidente da República de modo a “dispensar a análise” dos requisitos para uma pessoa obter e portar armas de fogo. Os procuradores também se preocupam com o fato de o presidente autorizar a prática de tiro esportivo por crianças e adolescentes: “flagrante retrocesso à proteção genericamente conferida pela Constituição da República e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente”.
Governo explora falsa sensação de segurança
“Eu estou fazendo algo que o povo sempre quis, levando-se em conta o referendo de 2005 [que manteve o comércio de armas no país]. O governo federal, naquela época, e os que se sucederam, simplesmente, via decreto, não cumpriram a legislação e extrapolaram a lei, não permitindo que pessoas de bem tivessem mais acesso a armas e munições”, declarou Bolsonaro em rápida entrevista a jornalistas, no dia 7 de maio, logo após cerimônia no Palácio do Planalto para assinatura do decreto que regulamenta a posse, o porte e a comercialização de armas e munições para caçadores, atiradores esportivos e colecionadores, os chamados CACs.
Em janeiro, logo após outro decreto publicado por Bolsonaro, facilitando a posse de armas, o GGN conversou com a coordenadora do Grupo de Pesquisa sobre Violência e Administração de Conflitos da UFSCar, membro da diretoria do IBCCRIM (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais), Jacqueline Sinhoretto sobre os impactos da medida na segurança pública, uma vez que aumenta disponibilidade de armas nos espaços privados e públicos.
Sinhoretto apontou que existem diversos estudos comprovando que o aumento da circulação reflete diretamente na ampliação de mortos e feridos em confrontos, seja com a polícia, seja entre cidadãos e criminosos.
Um desses estudos é de autoria de Daniel Castro Cerqueira, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e um dos coordenadores do Atlas da Violência. Ele mostrou que, entre 1995 e 2003, a taxa de homicídios no Brasil cresceu 21,4%, enquanto que, entre 2003 e 2012, o crescimento da taxa de assassinatos no período foi de 0,3%. A diferença entre um período e outro é que, em 2003, ocorreu a implementação do Estatuto do Desarmamento.
“Concluímos que 1% a mais de armas nas cidades faz aumentar a taxa de homicídio em 2%, não tendo efeito para dissuadir os crimes econômicos”, escreveu na conclusão de um trabalho apresentado em 2013
A própria Jacqueline Sinhoretto coordenou outro estudo, encomendado pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo ao IBCCRIM em 2000, onde, a partir da comparação entre dados de boletins de ocorrência que tiveram mortos e feridos, em casos de crimes patrimoniais, a conclusão foi que a parcela da população da cidade de São Paulo que possuía arma de fogo corria um risco 56% superior de ser vítima fatal numa situação de roubo do que o restante da população e, ainda, as vítimas de tentativas de latrocínio conseguiram evitar o desfecho fatal em apenas 13,8% dos casos.
“Mesmo quando a arma de fogo está presente na cena do crime, na mão do assaltante, na maioria dos casos não chega a ser usada. Quando a vítima está armada a tendência é agir”, explica a pesquisadora.
E, no momento em que é surpreendida, dificilmente a pessoa apresenta condições e reflexos rápidos suficientes para reverter o quadro a seu favor.
“Verificamos também que, em uma situação de ocorrência onde várias pessoas estão armadas, o número de vítimas é maior que dois. Não é só o assaltante que está ferido e a vítima, mas outros que estão passando no local, ou que acompanham a vítima. Portanto, o objetivo de autodefesa não se cumpre sem outras consequências que são tão nefastas quanto a ação que se quer evitar”, pondera Jacqueline.

15 maio 2019

Multidão toma as ruas de Porto Alegre contra cortes na educação e contra reforma da Previdência


Foi uma manifestação como há tempos não se via em Porto Alegre. Reminiscente dos movimentos de Junho de 2013 e das mobilizações secundaristas de 2016. Milhares de estudantes, professores, técnicos-administrativos ou apenas apoiadores da causa caminharam pelas ruas centrais de Porto Alegre nesta quarta-feira (15) para marcar o Dia Nacional de Mobilização pela Educação.
Após manifestações esparsas pela manhã, uma concentração de estudantes começou a se formar por volta do meio-dia na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Após um abraço coletivo ao prédio, eles rumaram para a frente do Instituto de Educação Flores da Cunha, onde estava marcado um ato para as 14h. Pelo caminho, estudantes que aguardavam no Campus Central da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) se juntaram ao ato.

“Unificou, unificou, estudante, funcionário e professor”. Com esse canto, representantes do Centro dos Professores do Rio Grande do Sul (CPERS) se juntaram ao ato pouco antes das 14h, já diante do IE. A partir dele, os cantos dos estudantes começaram a se alternar com falas em um carro som. “O Bolsonaro tinha dito que ia vir um tsunami, olha aí o tsunami”, disse a presidente do sindicato, Helenir Schürer. 

Outras falas já respondiam à frase feita momentos antes pelo presidente Jair Bolsonaro de que os atos desta quarta eram de “idiotas úteis”. “A universidade é nossa, o Instituto Federal é nosso, a educação pública é do Brasil, não de Bolsonaro. Sigamos nas ruas em defesa da educação”, disse a coordenadora do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFRGS, Gabriela Silveira. (...)
CLIQUE AQUI para ler (e ver) na íntegra. (via Sul21)

Tsunami da educação toma escolas e ruas do país e causa confusão no governo

Dia nacional de greve na educação tem adesão ampla, apoio popular e leva governo a bater cabeça. Ministro da Educação terá de depor na Câmara. Conselhos de reitores de SP apoia movimento

Assembleia da USP em São Carlos que aprovou adesão à greve

São Paulo – O dia nacional de greve na educação, neste 15 de maio, começa com paralisações em escolas e promessas de manifestações em dezenas de cidades pelo país todo. O movimento tem apoio de trabalhadores no setor de ensino, além de professores, pesquisadores, alunos e pais de alunos. A tag #TsunamiDaEducação já se posiciona no topo do Twitter.

Em São Paulo, é esperado um forte ato de protesto previsto para começar às 14h diante do Masp, na Avenida Paulista. Em Brasília, a partir das 10h, o ato unificado acontece no Museu Nacional. Belo Horizonte tem manifestação às 9h30 na Praça da Estação e às 15h na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Curitiba tem ato iniciado às 8h30 na Praça Santos Andrade com caminhada até o Centro Cívico.O Rio de Janeiro terá manifestação às 15 na Cinelândia.

A expectativa de que a primeira grande greve nacional sob o governo de Jair Bolsonaro se confirme em uma das maiores mobilizações do setor na história do país levou o Palácio do Planalto a baterem cabeça ontem. Na Câmara, com votos contrários apenas de deputados do PSL e do Novo, os parlamentares aprovaram requerimento de Orlando Silva (PCdoB-SP) convocando o ministro da Educação Abraham Weintraub para dar explicações sobre a política de cortes e sua conduta movida a rancor ideológico contra as universidades federais.

Enquanto isso, o líder do governo na Câmara, Delegado Waldir (PSL-GO), revelou que, durante reunião com Bolsonaro, acompanhado de vários colegas deputados, o presidente teria telefonado para o ministro da Educação para pedir a suspensão dos cortes. A notícia acabou sendo negada por ordem da Casa Civil. Teria sido mais um recuo de um recuo na curta história desde governo.

Mas o deputado Capitão Wagner (Pros-CE), aliado de Bolsonaro e que esteva presente à reunião de onde partiu o telefonema, foi à tribuna e desmentiu o desmentido: “Quem criou o boato? Foi o governo, que voltou atrás e depois voltou atrás de novo. Recuou duas vezes. Ou ministro está mentindo, ou o presidente não ligou para ele. Será que o presidente forjou a ligação na nossa frente?”

Em São Paulo, o conselho de reitores das universidades estaduais (USP, Unicamp, Unesp) divulgou nota em apoio ao movimento.

"No Brasil, como em todos os países desenvolvidos, a pesquisa nas universidades é financiada majoritariamente pelo governo (...) Interromper o fluxo de recursos para estas instituições constitui um equívoco estratégico que impedirá o País de enfrentar e resolver os grandes desafios sociais e econômicos do Brasil", diz o documento (íntegra abaixo).

Acompanhe a cobertura do dia pela Rádio Brasil Atual, no FM 98,9, na TVT e aqui na RBA.

Nota do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp)

A propósito da anunciada manifestação de diversas entidades em defesa da Educação, prevista para 15 de maio, o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) destaca a importância de a comunidade universitária debater as questões relativas aos complexos problemas da educação, ciência e tecnologia no Brasil e suas consequências para o desenvolvimento do País.

As universidades públicas estaduais paulistas (USP, Unicamp e Unesp) integram o sistema público de universidades brasileiras, respondem por mais de 35% da produção científica nacional e são responsáveis por 35% dos programas de pós-graduação de excelência no País.

Ocupam lugar de destaque entre as universidades brasileiras no que diz respeito a inovações, bem como nos rankings internacionais de ensino superior. Em conjunto com as outras universidades públicas, formam os melhores quadros profissionais do País, em todas as áreas do conhecimento.

Cerca de 95% da produção científica brasileira é feita em universidades públicas e por institutos de pesquisa, federais ou estaduais. Estas pesquisas produzem inovação e formam quadros de profissionais capazes de inovar e de desenvolver o País.

No Brasil, como em todos os países desenvolvidos, a pesquisa nas universidades é financiada majoritariamente pelo governo. Agências públicas federais de fomento que integram o sistema nacional de CT&I são fundamentais para o funcionamento das universidades, que dependem desses recursos para financiar suas linhas de pesquisa.

Interromper o fluxo de recursos para estas instituições constitui um equívoco estratégico que impedirá o País de enfrentar e resolver os grandes desafios sociais e econômicos do Brasil.

Campinas, 13 de maio de 2019.

Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp)”

*Via RBA

14 maio 2019

Em 15 de maio, um dia para fazer História



Por Paulo Moreira Leite para o Jornalistas pela Democracia
Todos os sinais indicam que é possível prever que uma massa imensa de brasileiros e brasileiras irá às ruas, amanhã, para mostrar sua indignação diante do corte nas verbas destinadas as universidades e institutos federais de ensino, anunciadas de modo irresponsável e vingativo por Bolsonaro-Weintraub.
Em São Paulo, os protestos envolvem a grande massa de estudantes e professores de todos os níveis de ensino e têm apoio formal das reitorias das universidades públicas. Alunos de instituições privadas também convocam a paralisação, apoiada  pelas entidades de estudantes, sindicatos de professores de todos os níveis de ensino e dez centrais sindicais -- unidas pela primeira vez em décadas.
Na Universidade Federal de Minas Gerais, só uma plenária para preparar os protestos reuniu 3 500 estudantes -- deixando antecipar o que se pode esperar para amanhã.
Em Niterói, os preparativos na Universidade Federal Fluminense envolveram entre 10 000 e 15 000 alunos alunos, conforme a Folha de S. Paulo  -- isso quer dizer que 1 em cada 4  alunos matriculados se engajaram nos preparativos.
Animados por uma alegre trilha sonora disponível nas redes, com Chico Buarque, Zélia Duncan, Arnaldo Antunes, Paulo Miklos e tantos outros, sob medida para ser ouvida nos pontos de concentração, os protestos de 15 de maio nascem com vocação para fazer história.
Além dos atos públicos, em várias cidades serão organizadas aulas públicas, onde a população poderá debater os motivos da paralisação -- e outros temas atuais, como a reforma da Previdência. 
Quatro meses depois da posse de Bolsonaro, os protestos constituem a primeira grande manifestação organizada contra um governo que tem ameaçado o país com projetos irresponsáveis do ponto de vista da democracia, trágicos do ponto do plano econômico e temerários na esfera social.
Incapaz de responder a qualquer problema importante, a política econômica do governo Bolsonaro-Paulo Guedes é definida como suicida por economistas insuspeitos da mais leve simpatia pelos governos Lula-Dilma.
Sua política externa é marcada por uma vergonhosa subordinação aos interesses do império norte-americano, num grau que recorda o período histórico anterior à soberania das nações e à constituição dos Estados Nacionais.
Sua visão de sociedade pode ser resumida por um projeto de reforma da Previdência que pretende entregar o destino de nossos velhinhos e velhinhas, protegidos por um embrião de Estado de bem-estar social, às roletas do cassino financeiro que administra o capitalismo mundial. 
Neste ambiente de escombro político, tragédia econômica e flagelo social, o programa de Jair Bolsonaro e seu segundo ministro da Educação em três meses consegue mostrar-se particularmente ruinoso.
Num país que por vários séculos foi proibido pelos colonizadores de ter uma universidade, sua orientação, tosca e improvisada, não passa de uma deliberada guerra de extermínio conduzida por um guru sem curso superior e falsa erudição, mal disfarçados por uma obscenidade permanente.   
Aqui, projetos destrutivos se misturam a demonstrações escancaradas de truculência e ignorância sobre a função real das universidades públicas no desenvolvimento do país. Sua receita combina o desprezo pela formação científica da juventude a um só esforço permanente pela supressão da liberdade de mestres e estudantes. 
Numa nação ainda dispersa e ainda desorientada após uma derrota devastadora na eleição presidencial, amanhã é dia do país caminhar para um novo ponto de encontro e abrir outra perspectiva para o país.  
 Alguma dúvida?
*Via 247

13 maio 2019

Vida pública de Bolsonaro é demarcada por ideia da morte



Por Janio de Freitas, na Folha de S.Paulo*
A violência não basta a Jair Bolsonaro. Esse ir além é o traço só seu na conturbação que, por genética maldosa e incorreção educativa, assemelha o pai e os três filhos maiores.
Os desvios de dinheiro público verificados nos gabinetes parlamentaresde Jair, Flávio e agora Carlos (as verbas de Eduardo ainda não foram examinadas) expõem sua íntima interação, por exemplo, na improbidade que em outros casos deu, e voltaria a dar, grandes escândalos de imprensa. Jair tem algo particular, porém, e apenas seu —que se saiba.
A vida pública de Jair Bolsonaro é demarcada por uma ideia persistente: a morte. Alheia. Provocada. Não importa de quem. Iniciante na carreira militar, sua estreia no noticiário se deu pela maneira como pensou em elevar os vencimentos dos tenentes. Não com um manifesto, greve, um movimento de solidariedade civil. Sua atitude foi ameaçar de explosão o abastecimento de água do Rio e de explodir quartéis, caso 
não saísse o aumento.
Os danos à vida dos cariocas, com inestimáveis vítimas, e as mortes de oficiais e soldados eram indiferentes ao seu estado muito mais do que reivindicatório. A mesma ideia de vitimação de inocentes que ocorre a terroristas da Al Qaeda, do Estado Islâmico, do Boko Haram.
Afastado do Exército, em acordo de cúpula que o preservou da punição, e eleito por militares e suas famílias, na política Bolsonaro acompanhou a corrente integrada por policiais questionados e por ligados às milícias no Rio.
Sempre apoiado pelo mesmo segmento eleitoral, em Brasília ligou-se à bancada da bala e aos ruralistas. E deu continuidade ao uso da tribuna para a apologia dos crimes de morte da ditadura, torturadores, policiais degenerados e operações de extermínio. A relação dos Bolsonaros com milicianos estava aí anunciada.
Questões como saúde e educação nunca o interessaram. Já a tomada de terras indígenas, o morticínio de tribos por grileiros, madeireiros e policiais, a expulsão de favelados não deixaram de o animar: contra as vítimas, sempre na defesa da violência. A letal, sobretudo. Trinta anos de vida mansa, egocêntrica, desumana em muitos sentidos.
A campanha à Presidência é de memória recente, impossível esquecer um candidato cujo simbolismo era a pose de mocinho ou de bandido com a mímica de pistoleiro. Por escolha sua, de prazer aberto no rosto, sem distinguir lugares e ocasiões. Nas palavras, de variação muito limitada, sempre a difusão das armas letais, a validade da morte alheia a pretexto de defesa, a promessa prioritária de armar os civis. Programa para saúde, educação, retomada do crescimento, emprego —nada, isso seria programa para vida.
Empossado, Bolsonaro orgulhou-se de fazer a primeira amputação doEstatuto do Desarmamento como ato inicial de “governo”. Mais armas, mais assassinatos. O segundo ato da política de mortes visou à impunidade do proprietário de terra que mate ou mande matar invasores. É o inovador direito de ser assassino.
A nova amputação, já quase extinção, do Estatuto do Desarmamentoveio, agora, acrescentando à função liberatória aberrações não esperáveis nem de Bolsonaro. Porte de arma para repórter de assuntos policiais é atrair tiros sobre jornalistas, o que poderia dar aos Bolsonaros alguma sensação de justiça à sua maneira, mas demonstra ignorar também o que são jornalismo, repórter e imprensa.
Liberar para menores de idade o uso de armas em clubes de tiro, pendente só de autorização paterna ou do responsável, é um incentivo combinado à criminalidade e à deseducação. É perto do inacreditável. Uma indústria de vocacionados para a violência, de recorrentes a armas, de maníacos da morte. Tudo isso em uma só pessoa —do que temos exemplo.
Cá em minha vida longa, desconfio muito dessa liberação de posse e porte de armas, e estoque de munição, para “dar direito à defesa pessoal”.
*Jornalista - via Conversa Afiada

12 maio 2019

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