Em abril, 2 mil pessoas plantaram áreas verdes no deserto de Tengger, em ação coordenada entre Estado e sociedade civil
A China intensificou seus esforços para combater a desertificação, fenômeno que já afeta cerca de 1,5 milhão de quilômetros quadrados, ou 27% do território nacional, impactando diretamente a vida de aproximadamente 400 milhões de pessoas. Nas últimas décadas, o país conseguiu reverter a expansão dessas áreas degradadas, transformando o controle da degradação do solo em uma política de Estado com resultados concretos.
No deserto de Tengger, o quarto maior da China, que cobre cerca de 44 mil quilômetros quadrados nas províncias de Ningxia, Gansu e Mongólia Interior, dunas móveis já ameaçaram cidades, estradas e áreas agrícolas. No início de abril, na cidade de Zhongwei, província autônoma Hui de Ningxia, cerca de 2 mil pessoas participaram da instalação de quadrículas de palha, técnica tradicional que fixa a areia e permite o crescimento de vegetação resistente. A ação contou com drones, sensores de solo e monitoramento por satélite, otimizando o planejamento e acompanhamento do terreno.
Ao longo dos anos, Zhongwei construiu um cinturão verde de 153 quilômetros na borda do deserto, recuperando cerca de 146 mil hectares de terras degradadas. Para 2026, a meta é expandir esse processo para mais 30 mil hectares, fortalecendo a proteção ambiental, reduzindo a erosão, preservando o Rio Amarelo, garantindo segurança hídrica e alimentar para milhões de pessoas e diminuindo o impacto de tempestades de areia.
Programa Três-Norte de Barreiras Verdes: estratégia nacional contra a desertificação
Essas ações integram políticas nacionais mais amplas, como o Programa Três-Norte de Barreiras Verdes, que foi iniciado em 1978 e é considerado o maior projeto de reflorestamento do mundo, com mais de 66 bilhões de árvores plantadas em 13 províncias do norte, nordeste e noroeste da China. Conhecida como a “Grande Muralha Verde” da China, é uma iniciativa colossal iniciada em 1978 para combater a desertificação no norte do país. Visando ser concluído até 2050, o projeto planta barreiras de árvores e vegetação para reter areia, reduzir tempestades e recuperar ecossistemas, aumentando a cobertura florestal de 12% para mais de 23%.
O programa utiliza espécies nativas resistentes à seca, como Tamarix, Populus e Caragana korshinskii, além de arbustos e gramíneas adaptadas, gerando múltiplos benefícios: fixação da areia, aumento da retenção de água no solo, redução da sedimentação no Rio Amarelo, criação de corredores ecológicos contínuos, absorção de milhões de toneladas de CO₂ por ano, proteção de espécies nativas e redução das tempestades de areia que afetam o norte da China, incluindo Pequim. O projeto visa cobrir mais de 4,5 mil quilômetros, utilizando dados de satélite e novas estratégias de restauração de pastagens para aumentar a sustentabilidade, não apenas plantando árvores, mas recuperando ecossistemas.
O reflorestamento fortalece a biodiversidade, cria micro-habitats para fauna local, melhora a fertilidade do solo e protege áreas agrícolas e pastagens. Além disso, ajuda a reduzir ventos fortes, tempestades de areia e os efeitos de secas prolongadas, aumentando a resiliência climática da região.
O impacto social é igualmente relevante. O programa emprega e capacita milhares de pessoas, envolve escolas, universidades e ONGs em atividades de plantio, manutenção e monitoramento, promovendo educação ambiental, mobilização comunitária e consciência sobre sustentabilidade. Agricultores locais recebem treinamento em manejo sustentável do solo e reflorestamento, gerando emprego e renda adicional para as comunidades rurais.
A integração de tecnologias avançadas, como drones autônomos, sensores de umidade e modelos de inteligência artificial, permite monitoramento em tempo real, planejamento estratégico e previsão de áreas críticas, garantindo resultados sustentáveis e eficientes.
Liderança internacional e cooperação
Globalmente, a desertificação afeta cerca de 40% das terras do planeta, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Desde que aderiu à Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação em 1994, a China compartilha experiência, tecnologia e especialistas com países africanos e da Ásia Central, fortalecendo a cooperação Sul-Sul. Seus projetos são referência internacional em fóruns da ONU e da FAO, mostrando que é possível combinar mobilização social, conhecimento tradicional e tecnologia avançada para enfrentar um dos principais desafios ambientais do século 21.
Além disso, as ações chinesas contribuem para mitigar as mudanças climáticas, absorvendo CO₂ e reduzindo a intensidade de tempestades de areia. A combinação de tradição, inovação tecnológica, participação comunitária e políticas públicas colocou a China como líder mundial na luta contra a desertificação, promovendo desenvolvimento sustentável, segurança alimentar, adaptação climática e preservação da biodiversidade.
*Por Bruno Falci, Editado por: Rafaella Coury - via BdF















