Quando esses setores se retiram do debate sobre o autoritarismo, eles deixam o campo livre para que o radicalismo avance sem contrapesos
Foto: Guilherme Santos/Sul21
Por Andréa Sommer (*)
A ideia de que o combate ao fascismo é um papel exclusivo da esquerda é um grande equívoco. No senso comum, nas redes sociais, conversas informais, criou-se a narrativa de que pessoas de direita estariam, “por natureza”, distantes dessa pauta. No entanto, se olharmos para os fundamentos da ciência política e para a história das instituições, essa divisão não resiste a uma análise séria e profunda.
Ser de direita, seja na vertente liberal, conservadora ou democrata-cristã e ser antifascista não é contradição. Na verdade, é uma condição para a sobrevivência do próprio conservadorismo e do liberalismo. Afinal, se você defende eleições livres, a separação de poderes e a alternância no comando, você está, na prática, rejeitando a essência do fascismo.
Regimes autoritários não surgem do nada. Eles não dependem apenas de líderes radicais, mas da cumplicidade de quem deveria vigiar as instituições. Na Itália de Mussolini ou na Alemanha de Hitler, a democracia não ruiu num piscar de olhos, mas foi corroída quando parcelas importantes da sociedade decidiram que “flexibilizar” certas regras em nome de um inimigo comum era aceitável.
O perigo começa quando a polarização cega o cidadão para o fato de que a democracia depende, fundamentalmente, do direito de discordar. Se você acredita que a oposição deve manifestar-se sem medo de perseguição e que a imprensa deve ser livre para criticar qualquer governo, você já opera princípios antifascistas.
Porto Alegre sedia a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos. O evento coloca a capital gaúcha no centro de um debate global urgente sobre os riscos do autoritarismo. A pergunta incômoda, mas necessária, é: quantas pessoas da direita democrática estarão atentas a essas discussões?
Não se trata de concordar com todas as teses que serão apresentadas, mas de entender que o extremismo é uma ameaça universal. Historicamente, a direita democrática sempre foi o fiel da balança na manutenção da estabilidade institucional e da segurança jurídica. Quando esses setores se retiram do debate sobre o autoritarismo, eles deixam o campo livre para que o radicalismo avance sem contrapesos.
Na democracia, o conflito é normal e saudável. O problema surge quando a política deixa de ser uma disputa de projetos e passa a ser uma lógica de eliminação do adversário. Quando essa linha se apaga, todos perdem, independentemente da ideologia.
O fascismo não ataca apenas um lado, ele tira liberdades individuais e a própria possibilidade de participação política de todos os cidadãos. Fugir dessa reflexão pode ter consequências graves. No fim das contas, a questão central de 2026 não é se você se identifica com a direita ou com a esquerda. A pergunta que define o nosso tempo é: se a democracia começar a ser ameaçada por ideias autoritárias, de que lado da história você estará?
*Visitando (sexta-feira, 20/03/2026) as dependências da Faculdade de Direito de Santo Ângelo/RS - CNEC (e o hotel onde ele se hospedava)- com meu querido pai, colega, sócio, companheiro e amigo Dr. José Nunes Garcia, no dia em que ele comemorou 50 ANOS de sua Formatura no Curso de Direito por essa Faculdade.
**Parabéns e muitas felicidades, Doutor (hoje também Defensor Público Inativo)!!!
A atuação institucional diante do avanço da extrema direita foi o eixo da mesa “Papel e limites da ação institucional na luta democrática”, realizada nesta quinta-feira (26), em Porto Alegre, durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela soberania dos povos. O encontro destacou a importância da articulação global, da mobilização popular e da atuação institucional para enfrentar o fascismo, o neoliberalismo e as desigualdades sociais.
O debate, mediado pelas deputadas federais Maria do Rosário (PT/TS) e Daiana Santos (PCdoB/RS), reuniu lideranças como o senador uruguaio Oscar Andrade, a eurodeputada espanhola Ana Miranda, o eurodeputado português João Oliveira, Abdul Osmanu (conselheiro municipal dos Estados Unidos), o deputado Glauber Braga (Brasil), o deputado Erkan Baş (Turquia) e a ex-deputada argentina Vilma Ripoll.
O papel da institucionalidade na América Latina: avanços e limites
O senador Oscar Andrade, do Partido Comunista do Uruguai e da Frente Ampla, iniciou a fala questionando se é possível triunfar contra um sistema econômico que classificou como perverso e cruel. Ele afirmou que “não há limites” para a luta dos povos, incluindo a atuação institucional.
Ele destacou que a conquista de governos progressistas trouxe avanços, mas também revelou limites. “Ter o governo é melhor que não ter, é indiscutível, mas não é suficiente para enfrentar um bloco de poder hegemônico.”
Andrade também apontou dificuldades comuns na região, como o distanciamento entre governos e suas bases sociais. “Muitas vezes terminamos em confronto com a base social que nos deu nascimento”, afirmou, citando experiências no Brasil, Uruguai, Argentina e Equador.
Outro ponto crítico, segundo ele, é o abandono da disputa no campo das ideias. “Confundimos o incremento de políticas sociais com a construção de uma população mais solidária”, disse. Segundo ele, isso pode resultar em reações de setores populares influenciados pelo individualismo e pela meritocracia.
Para o senador, o desafio é articular estratégias de longo prazo com ações táticas imediatas, avaliando não apenas resultados de governo, mas também avanços na consciência social e na organização popular. “Não há forma de defender a democracia se a democracia não se radicaliza. Não há saída nacional. A saída é global e passa pela unidade dos povos”, concluiu.
Senador uruguaio Oscar Andrade | Crédito: Nacho Lemus/Telesur
Extrema direita na Europa: avanço e apoio institucional
A eurodeputada Ana Miranda, do Bloco Nacionalista Galego, resgatou a memória do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, realizado há 25 anos, e defendeu a continuidade do internacionalismo. “Aquele espírito de que outro mundo é possível deve continuar.”
Miranda destacou a luta pela soberania dos povos, citando a Galiza, onde vive, uma comunidade autónoma da Espanha, além da Palestina e da República Saaraui, como exemplos de territórios que reivindicam reconhecimento e autodeterminação.
A parlamentar criticou o cenário europeu, denunciando “três grupos parlamentares neofascistas, neonazis, racistas e xenófobos no Parlamento Europeu” que utilizam instrumentos democráticos para disseminar discursos de ódio. Também relatou episódios de censura contra deputados antifascistas, enquanto parlamentares de extrema direita permanecem impunes.
Ela resgatou ainda a relação histórica entre a América Latina e povos europeus perseguidos pelo fascismo, destacando o acolhimento de exilados galegos no continente. Para a eurodeputada, o antifascismo é inseparável da política de esquerda. “Não se pode fazer política de esquerda se não é antifascista, anti-imperialista e anticapitalista.”
Mobilização de massas: essencial para mudanças além das instituições
O eurodeputado João Oliveira, do Partido Comunista Português, destacou a importância da conferência diante da ofensiva imperialista, especialmente dos Estados Unidos. Ele também saudou povos como os de Cuba, Venezuela, Palestina e Irã, países símbolos de resistência contra o imperialismo.
Oliveira apresentou quatro pontos centrais, entre eles a necessidade de articular ação institucional e luta popular. “A ação institucional tem mais relevância quanto mais estiver ligada à luta dos trabalhadores e dos povos”, afirmou.
Ele também alertou para o risco do “atentismo”, ou seja, a expectativa de mudanças apenas pela via institucional, e defendeu uma concepção ampliada de democracia, que inclua dimensões econômicas, sociais, culturais e participativas.
Por fim, enfatizou que o combate ao fascismo deve ser feito a partir do confronto de classe. “O fascismo é um instrumento do capital, a expressão violenta da ditadura do capital sobre os trabalhadores e os povos”, afirmou. “Compreender essa raiz é fundamental para enfrentar a extrema direita, que avança em instituições como o Parlamento Europeu com o apoio de forças conservadoras e social-democratas.”
Para Oliveira, o enfrentamento ao fascismo exige a construção de uma alternativa baseada na justiça social, na igualdade, na soberania e nos interesses dos trabalhadores e dos povos.
Contra-revolução global e precarização do trabalho
O deputado turco Erkan Baş afirmou que o mundo vive uma nova fase histórica, marcada por uma ofensiva global do capital, que definiu como uma contra-revolução de âmbito internacional. “Não estamos apenas diante de uma crise do capitalismo. O que estamos vivendo é um processo de contra-revolução organizada em escala mundial. Entramos em um novo período”, declarou.
Segundo ele, imperialismo e fascismo atuam de forma articulada, combinando guerras multidimensionais, tecnologias avançadas, formas autoritárias de política e um Estado reduzido a aparato de repressão. O objetivo, afirmou, é “liquidar todos os direitos e liberdades conquistados pelos trabalhadores e pelos povos”.
Para o deputado, essa dinâmica tem impactos diretos nas condições de vida. “Milhões de pessoas trabalham mais horas, mais dias e mais anos, e ainda assim vivem pior. Pela primeira vez, a nova geração é mais pobre que a anterior.”
Baş também denunciou a precarização do trabalho na Turquia. Segundo ele, nos últimos 25 anos, pelo menos 35 mil trabalhadores morreram no que são chamados de acidentes de trabalho, mas que ele considera “assassinatos no local de trabalho”. Destacou que 98% dessas mortes ocorreram em locais sem organização sindical, o que classificou como uma forma de “classicídio”.
Para o parlamentar, “neste período de reestruturação, o parlamento não é um local de soluções, é um campo de batalha”.
Ele reforçou que a transformação política depende da organização popular. “As pessoas não devem ser objeto da política, mas sujeitos dela. Sindicatos, organizações locais e a unidade da classe trabalhadora são a base.” E concluiu: “Não há salvação individual. A libertação só pode ser coletiva.”
Organização popular e internacionalismo nos Estados Unidos
O conselheiro municipal de Connecticut (EUA), Abdul Osmanu, fez um apelo à organização internacional da classe trabalhadora e ao enfrentamento direto ao fascismo e ao imperialismo. Jovem, negro, muçulmano e socialista, ele destacou sua trajetória e afirmou: “é o nosso momento de agir”.
Osmanu citou experiências brasileiras, como o orçamento participativo de Porto Alegre, que influenciaram iniciativas em sua cidade, ampliando a participação popular.
Ele criticou a separação entre política doméstica e internacional. “Os problemas da Palestina, do Irã, do Sudão e da Venezuela também são problemas dos Estados Unidos”. Filho de imigrantes ganeses, também criticou o papel de instituições internacionais na produção de desigualdades globais e defendeu o enfrentamento ao imperialismo como condição para a libertação dos povos. “Se não desmantelarmos o imperialismo, nossos povos não serão livres, e nós também não seremos.”
Ao final, reforçou o chamado à ação coletiva: “A filosofia interpreta o mundo, mas o ponto é transformá-lo.”
“Aquele espírito de que outro mundo é possível deve continuar”, enfatizou a eurodeputada Ana Miranda | Crédito: Vinícius Manfron
Diagnóstico de crise exige articulação internacional
O deputado Glauber Braga (Psol/RJ) afirmou que o momento exige um diagnóstico duro da realidade global. “Eu fico me perguntando se não seria o caso de começarmos com o diagnóstico de que nós estamos no fundo do poço.” Segundo ele, esse reconhecimento não é sinal de pessimismo, mas condição para a superação. “A consciência de que a gente está no fundo do poço talvez seja uma necessidade para que a gente possa sair dele.”
Braga avaliou que não há mais “grau de recurso” dentro da institucionalidade e que a saída passa pela articulação internacional. “As armas estão com eles. A grana está com eles. Os veículos de comunicação, as big techs, estão com eles. O que nós temos é a consciência de que somos classe trabalhadora”, declarou.
Parlamento como tribuna e limites das mudanças institucionais
A ex-deputada argentina Vilma Ripoll ressaltou a importância da atuação parlamentar como espaço de disputa, mas com limites claros. “É importante integrar os parlamentos, porque é uma tribuna das posições de esquerda.”
Segundo ela, esse espaço permite levar demandas populares para dentro das instituições, mas não é suficiente para promover mudanças estruturais. “Desde essas instituições não vão vir as mudanças de fundo.”
Ripoll citou exemplos recentes na Argentina, como mobilizações no Hospital Garrahan e nas universidades, para mostrar que avanços dependem da pressão popular. “É a mobilização fora do Congresso que dinamiza e leva força para dentro.”
Ao final a deputada Daiana Santos ressaltou a importância da relação direta com as massas. “A luta institucional só ganha força quando ouve as massas. Não vamos avançar contra esse fascismo sem essa compreensão, que está no dia a dia e em cada ação coletiva”, afirmou. Para a parlamentar a soberania significa garantir comida na mesa, segurança e atenção ao campo e à cidade, sempre com foco na classe trabalhadora.
Já a deputada Maria do Rosário [PT/RS] reforçou a importância da unidade dos socialistas e do campo popular. “Não nos conformamos com ação puramente institucional; ação institucional e luta de massas se misturam. Nossa missão é enfrentar os avanços da extrema direita no Brasil e no mundo”, declarou.
Ativistas exaltaram escolha da capital gaúcha como palco do evento, rememorando a cidade que ficou conhecida mundialmente por receber o Fórum Social Mundial
Parlamentares, figuras públicas e ativistas tomaram ruas do Centro Histórico nesta quinta, 26
Foto: Igor Sperotto
Por Niara Aureliano, no Extra Classe*
Ativistas de pelo menos 50 países, que participam da 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, se somaram a representantes dos movimentos sociais e população para tomar as ruas de Porto Alegre na noite da quinta, 26 de março, entoando palavras de ordem em diversos idiomas. A articulação pretende construir e aprovar, entre 26 e 29 de março, uma agenda global para frear o avanço da extrema direita em todo o mundo.
No primeiro dia de debates, parlamentares do Brasil, Espanha, Itália, Portugal, Venezuela, Chile, Turquia e Cuba compartilharam experiências sobre o limite da institucionalidade e o aprofundamento da democracia em governos populares. Em seguida, a partir do Largo Glênio Peres, marcharam pelo Centro Histórico. Segundo os organizadores, a Conferência conta com mais de 4.300 participantes.
Nacionalidades, rostos e idiomas diversos
As investidas imperialistas em países na América Latina e Oriente Médio emergenciam o encontro, avaliam organizadores da Conferência. Disputas geopolíticas e o crescimento de movimentos políticos identificados com a extrema direita exigem uma resposta global dos movimentos antifascistas.
Presidente estadual da CUT, Amarildo Cenci
Foto: Igor Sperotto
De acordo com o presidente da CUT-RS Amarildo Cenci, a questão da guerra contra o Irã foi debatida com a presença jornalista Brenno Altman, de ascendência judaica, especialista em sionismo e conflitos do Oriente Médio, envolvendo Israel.
“A mesa refletiu sobre o quanto essa questão hoje é de interesse de todo o planeta, da humanidade. Se acontecer de aquele ser derrotado e massacrado, será uma nova uma Palestina, uma Líbia, uma Síria”, explica, como o ataque à Venezuela seria tentativa dos EUA de subordinar todo mundo aos interesses.
“Segue-se o compromisso de que a gente, a humanidade, tem que se juntar nessa hora por paz, mas uma paz com justiça, com igualdade e com soberania dos povos. Atrás do imperialismo existe um capitalismo exagerado; atrás de um capitalismo exagerado e do imperialismo, tem fascismo, autoritarismo, morte, miséria e é isso que nós precisamos combater”, reflete Cenci.
Silvia Saravia veste vermelho, no centro da foto, com a camiseta do grupo Libres Del Sur
Foto: Niara Aureliano
Da Argentina, o grupo Libres Del Sur trouxe jovens e trabalhadores das províncias de Córdoba, Chaco, Corrientes, San Luis, San Juan, Missiones e Neuquén.
Eles denunciam que o país padece sob o comando do presidente Javier Milei e asseguram que os danos serão de médio a longo prazo no que diz respeito aos recursos naturais e à indústria, por exemplo. Isso porque a política é de submissão aos interesses dos Estados Unidos e não aos interesses do povo argentino.
“Cremos que é importante contar que na Argentina não é toda a população que apoia Milei. Queremos contar que há muitos grupos enfrentando e que estamos convencidos e convencidas que vamos derrotá-lo! Dizemos que vamos jogá-lo na lata de lixo da história porque o que ele está propondo não é uma receita nova, como afirma, mas receitas antigas que já sabemos que falharão, empobrecerão nosso povo e lhe tirarão a soberania”, declara a argentina Silvia Saravia, porta-voz do grupo.
Porto Alegre de lutas
Representantes exaltaram a escolha da capital gaúcha como palco do primeiro encontro internacional antifascista. Experiências de participação popular, como o orçamento participativo, também foram rememoradas. A convocatória do evento destacou a Porto Alegre núcleo de resistência popular que reuniu mais de 20 mil ativistas de 117 países em 2012, quando da realização do Fórum Social Mundial.
Vereadora da capital, Natasha Ferreira (PT)
Foto: mandato Natasha Ferreira
A radicalidade esperada da agenda a ser construída durante a Conferência Antifascista deve ter como base a participação popular. “Cada vez mais, as pessoas não querem saber da política e isso é bom para a extrema direita. Nós precisamos fazer o inverso, chamar as pessoas a participar, tomarem conta dos espaços e transformar o parlamento naquilo que ele deve ser”, defende a vereadora de Porto Alegre Natasha Ferreira (PT).
“De fato, inclusive, a gente está votando o plano diretor em Porto Alegre. Plano diretor que é dos empresários, completamente atravessado. Estamos lutando para que as pessoas mais pobres não sofram com os efeitos climáticos que acontecem em Porto Alegre, como as enchentes, verão escaldante, ventania que causa falta de energia. Fruto da precarização de uma cidade que não tem investimento em adaptação e mitigação da crise climática” alerta.
Porto Alegre deverá ser vanguarda para as lutas antifascistas do mundo, almejam os organizadores. Para os participantes, destacam-se ainda as lutas progressistas e suas dificuldades no Sul do país.
Shahla Othman, presidente do Comitê Catarinense em Solidariedade ao Povo Palestino
Foto: Igor Sperotto
Shahla Othman, presidente do Comitê Catarinense de Solidariedade ao povo palestino Khader Othman, chegou à capital gaúcha na quarta, 25 de março, para participar da Conferência e reforçou que a luta contra o fascismo no Sul do país precisa ser mais forte e estar melhor organizada.
Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), de 2025, enfatizou o crescimento de células neonazistas no sul e sudeste do Brasil, e a disseminação de discursos de ódio de direita extrema.
“A luta contra o fascismo aqui no Sul, principalmente, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, tem que ser muito mais forte do que é. Contra o fascismo, contra o imperialismo, contra o sionismo. Sou filha de palestino. Meu pai foi expulso em 1967. Preso, torturado e expulso de suas terras porque ele fazia jornais para denunciar os crimes de Israel lá em 1967. Meu pai nasceu em 1939. Não existia Israel ainda, era Palestina”, conta Shahla.
América Latina
Erlon Schüler, diretor do Sinpro/RS
Foto: Igor Sperotto
Para o diretor do Sinpro/RS, Erlon Schüler, a atuação dos movimentos progressistas deve também focar nas pautas antirracistas, antimisóginas e antiLGBTfóbicas, em destaque na marcha – que chamou atenção com a presença de delegações do continente africano e americano – e de mulheres.
Todas essas lutas se entrelaçam, para combater também a entrega de riquezas e defender a soberania dos povos latino-americanos, o que passa pelo parlamento.
“Esse ato é importante. Primeiro, porque conjugou o aniversário de Porto Alegre, e com isso, as pessoas estão mais atentas ao que está acontecendo na cidade. Não existe só o South Summit (evento empresarial), que é só para uma parte da população. E estamos em ano de eleição. A direita está se organizando. Eles querem fatias importantes da política, como o Senado, então temos que estar nesses movimentos que antecedem para trocar entre nós, para dizer para as pessoas o que significa esta luta. Esse é o momento de estar na rua”.
Presidente nacional da CTB, Adilson Araujo
Foto: Igor Sperotto
O presidente da Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB), Adilson Araújo, que veio de São Paulo, reforça o direito dos povos e nações à autodeterminação. Para ele, o mundo assiste ao recrudescimento dos fascistas e a tarefa é materializar unidade, solidariedade e defesa da soberania e democracia para os povos de todo o mundo.
“A política genocida praticada e patrocinada pelo imperialismo norte-americano tenta de alguma maneira também se voltar contra a nossa América”, diz. Para Adilson, a América Latina e o Caribe levantam suas bandeiras no sentido de dizer que aqui não há espaço para neofascista. “Nós que tivemos a grandeza de, há 20 anos atrás, no encontro em Mar del Plata, junto com Lula, Tabaré, Hugo Chaves, Fidel e até mesmo Dieguito Maradona: quando Chaves proclamou Alca al carajo! fazer levantar e ecoar esse propósito maior que é lutar pela paz contra a guerra”, finaliza.
Resposta à extrema direita deve ter cooperação mundial entre partidos progressistas, movimentos sociais e governos democráticos, afirma Humberto Costa
Evento internacional em Porto Alegre será realizado entre os dias 26 e 29 de março
O Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras participa da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que teve início nesta quinta-feira, 26, em Porto Alegre, e reunirá lideranças políticas, movimentos sociais e organizações de diversos países. A secretária-adjunta de Relações Internacionais do PT, Misiara Oliveira, representa o partido na Conferência.
O evento internacional, que vai até o dia 29 de março de 2026, propõe uma extensa programação composta de conferências e mesas de debates com a participação de representações governamentais, parlamentares e de autoridades antifascistas de várias partes do mundo.
A Conferência, que começou esta tarde com o Fórum de Autoridades Antifascistas, será aberta oficialmente às 18h com a Marcha da 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, no Largo Glênio Peres (em frente ao Mercado Público), na capital gaúcha.
Como marco editorial da I Conferência Internacional Antifascista, o Núcleo de Cooperação Internacional da Fundação Perseu Abramo (FPA) produziu uma publicação especial que reúne reflexões estratégicas sobre o avanço contemporâneo da extrema direita e os desafios colocados às forças democráticas em escala global. Assinam os artigos o presidente nacional do PT, Edinho Silva; o secretário de Relações Internacionais do PT, Humberto Costa; Mônica Valente, diretora da FPA e secretária-executiva do Foro de São Paulo e Valter Pomar, diretor de Cooperação Internacional da FPA.
O secretário de Relações Internacionais do PT, senador Humberto Costa, em seu artigo “A luta antifascista no século XXI: democracia, soberania e nova ordem internacional”, que compõe a publicação, destaca que “o atual cenário internacional é marcado por uma reorganização transnacional da extrema direita, que não pode ser interpretada como fenômeno isolado ou episódico”. “Trata-se de um processo mais profundo de radicalização política, que exige a atualização do antifascismo como projeto político global”, argumenta o secretário.
Para o titular da SRI-PT, a resposta para as ações da extrema-direita cada vez mais articulada em escala global, também “precisa ser internacionalista, baseada na cooperação entre partidos progressistas, movimentos sociais e governos comprometidos com a democracia”.
A programação do evento informa também que “além das conferências principais, o encontro também contará com espaço para atividades autogestionadas, permitindo que militantes, movimentos sociais, coletivos, organizações e participantes em geral realizem suas próprias atividades, discussões, oficinas, lançamentos, rodas de conversa ou experiências formativas”.
Acesse aqui e/ou confira abaixo a íntegra da apresentação, programação e dos artigos da publicação sobre a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos:
Conferência nacional reúne 40 mil participantes e define diretrizes para reforma agrária, regularização fundiária e transição agroecológica no Brasil rural
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a 3ª Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília - DF (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
247* - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma série de anúncios nesta terça-feira (24) ao abrir a 3ª Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário (CNDRSS), em Brasília (DF). O evento, que se estende até 27 de março no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, concentrou assinaturas de decretos e entregas que somam R$ 62,6 bilhões de reais em investimentos: R$ 23 bilhões em renegociação de dívidas rurais, R$ 37 bilhões contratados pelo Plano Safra, R$ 2,5 bilhões para aquisição de terras destinadas à reforma agrária em 2026 e R$ 150 milhões em chamadas públicas de inovação para a agricultura familiar, além de 234 mil famílias incluídas no Plano Nacional de Reforma Agrária desde 2023.
"O Desenrola Rural tratou de renegociar dívidas de 507 mil agricultores, num total de R$ 23 bilhões. Ao mesmo tempo em que o Plano Safra deste ano já fez um milhão de operações, R$ 37 bilhões foram contratados. E nós fazemos dois milhões por ano, então ainda falta um milhão de contratos para ser feito até o final do ano. Floresta Produtiva: foram R$ 557 milhões para recuperar terras degradadas. Coopera Mais Brasil: 40 milhões para o fortalecimento de 530 organizações da agricultura familiar", afirmou Lula durante seu discurso na abertura da conferência.
Regularização fundiária e titulação quilombola
Entre os atos mais relevantes do evento, o governo federal assinou o decreto de criação do Programa Nacional de Regularização Fundiária — Terras do Brasil. A iniciativa tem como foco a formalização de imóveis rurais em situação irregular, com prioridade para agricultores familiares, assentados da reforma agrária e povos e comunidades tradicionais. O decreto também institui a Política Nacional de Governança da Terra e a Plataforma Terras do Brasil, um sistema eletrônico que integrará dados fundiários entre os diferentes entes federativos do país.
Outro destaque foi a entrega do título de domínio do Território Quilombola de Alcântara, no Maranhão, com 45,9 mil hectares. Foram concedidos ainda 18 títulos para dez territórios quilombolas em oito estados, beneficiando 5,6 mil famílias e abrangendo 59,5 mil hectares. Lula também destacou os avanços acumulados desde 2023 nas políticas voltadas às comunidades quilombolas: "Desde 2023 foram 32 títulos, 60 decretos quilombolas, beneficiando 10,1 mil famílias em 271 mil hectares, excluindo o que nós anunciamos hoje."
Desapropriações em sete estados
A programação da conferência incluiu a assinatura de nove decretos de interesse social para desapropriação de áreas destinadas a comunidades quilombolas em sete estados: Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Maranhão, São Paulo, Piauí, Tocantins e Rio Grande do Sul. As medidas abrangem 590 famílias e 12 mil hectares. Outros sete decretos foram assinados para desapropriação em áreas com conflitos agrários ou imóveis que não cumprem a função social da propriedade, atingindo Goiás, Maranhão, Rio Grande do Norte e Santa Catarina, com 479 famílias e 15,4 mil hectares contemplados.
Semiárido e mudanças climáticas
O governo também regulamentou o Programa Garantia Safra por meio de decreto específico. A medida cria uma estratégia voltada à resiliência dos agricultores do semiárido diante das mudanças climáticas, permitindo o uso de recursos do Fundo do programa para apoiar a produção familiar ainda em 2026. O decreto atualiza atribuições dos entes envolvidos e aprimora o monitoramento com base em dados de órgãos oficiais.
Inovação tecnológica para a agricultura familiar
Em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o governo lançou chamadas públicas de inovação no valor de R$ 150 milhões, organizadas em quatro eixos: bioinsumos (R$ 50 milhões), sistemas de produção agroecológica e orgânica (R$ 50 milhões), soluções digitais para pequenas propriedades rurais (R$ 25 milhões) e aquicultura de espécies nativas (R$ 25 milhões). O objetivo é desenvolver tecnologias sustentáveis aplicáveis à realidade da agricultura de pequeno porte.
Ministros e movimentos sociais reforçam pautas do campo
O ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, enalteceu a estrutura técnica construída para viabilizar as políticas públicas do setor. "Agradeço aos 1.300 servidoras e servidores que vieram trabalhar no MDA. Agradeço igualmente a esses servidores e servidoras que criaram 65 novas políticas públicas para o Brasil em consulta com os representantes do campo brasileiro", declarou.
Teixeira também elencou os principais desafios à frente do ministério: "O nosso primeiro desafio é soberania alimentar e comida de qualidade na mesa do povo. Nós saímos do Mapa da Fome, mas agora a gente tem que transitar para uma soberania alimentar, para que o nosso povo coma comida de verdade, frutas, legumes e verduras que serão produzidos pela agricultura familiar. O segundo desafio é a transição para a agroecologia, sair de uma agricultura de base química e ir para uma agricultura de base biológica e para a agroecologia."
A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, reforçou a dimensão social e ambiental das políticas voltadas aos quilombos. "Os quilombos são espaços de resistência, mas também de inovação, produção sustentável e combate à crise climática. O Ministério da Igualdade Racial segue de portas abertas e com o compromisso de trabalhar ao lado de vocês por um Brasil rural que seja sustentável e antirracista", afirmou.
Participação social e mobilização nacional
A conferência, que tem como tema central "Uma agenda política de transformação agroecológica para o Brasil Rural", reuniu representantes de todo o país para debater e definir as diretrizes das políticas públicas voltadas aos povos do campo, das águas e das florestas. As etapas preparatórias mobilizaram mais de 40 mil participantes e produziram cerca de mil propostas que orientam os debates desta fase nacional.
A representante da Coordenação Nacional do MST, Ceres Hadich, sintetizou o espírito do encontro: "O marco da 3ª Conferência de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário nos inspira a sonhar e acreditar que, se temos povo organizado e disposto a mudar a sua realidade e seus territórios, se temos um governo comprometido com isso, sim, é possível, mais que unificar e reconstruir, apontar as bases para a construção de um projeto popular para o nosso país, com reforma agrária, com agroecologia, com cooperação, com economia popular e solidária, com educação e cultura e livre de violências."
Deputada afirma que retratação da GloboNews sobre PowerPoint do caso Master não repara danos e cobra responsabilidade na comunicação
Maria do Rosário (Foto: Kayo Magalhães/Agência Câmara)
247* - A deputada federal Maria do Rosário [PT/RS] criticou o pedido de desculpas feito pela Globo após a exibição de um PowerPoint considerado equivocado sobre o chamado caso Master. Em publicação nas redes sociais, a parlamentar avaliou que a retratação é necessária, mas insuficiente para reparar os danos causados pela divulgação de informações imprecisas.
A manifestação ocorre após a jornalista Andréia Sadi, durante o programa Estúdio I, da GloboNews, pedir desculpas ao público pela apresentação exibida na última sexta-feira (20). Segundo a própria jornalista, o conteúdo associava, sem provas, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro.
Em sua publicação, Maria do Rosário afirmou: “A GLOBO pediu desculpas por seu powerpoint que induzia a interpretações falsas sobre o caso Master. Se retratou depois de um fim de semana inteiro com desinformação circulando. É necessário, mas está longe de ser suficiente para reparar os danos causados.” A deputada também defendeu maior rigor na atuação da imprensa. “Comunicação responsável é dever com a verdade e com a democracia”, escreveu.
A parlamentar ainda acrescentou que “o escândalo Bolsomaster tem origem e figuras que se beneficiaram dele, o PT e o governo Lula não se relacionam com isso”. Em outro trecho, declarou: “Vorcaro é o calcanhar de Aquiles da direita e da família Bolsonaro”.
A GLOBO pediu desculpas por seu powerpoint que induzia a interpretações falsas sobre o caso Master.
Se retratou depois de um fim de semana inteiro com desinformação circulando. É necessário, mas está longe de ser suficiente para reparar os danos causados.
Durante o pedido de desculpas, Andréia Sadi reconheceu falhas na elaboração do material. “O material estava errado e incompleto e também não deixou claro o critério que foi usado para a seleção das informações”, afirmou. Ela explicou que a apresentação misturou contatos institucionais com nomes citados por Vorcaro como tendo relação contratual ou pessoal, além de incluir pessoas ainda sob análise da Polícia Federal.
A jornalista também destacou que a arte exibida não contemplava todos os envolvidos já conhecidos publicamente. “Não foram incluídos nomes que já se tornaram públicos por envolvimento com o caso Master, como ministros do Supremo e políticos, nem ex-diretores do Banco Central, que estão sob escrutínio da polícia por suspeita de corrupção na relação com o banqueiro”, disse. Ao final, Sadi reiterou o compromisso editorial da GloboNews e formalizou o pedido de desculpas. “Diante de um material incompleto e em desacordo com os nossos princípios editoriais, a gente pede desculpas”, concluiu.