03 setembro 2026

A campanha da esquerda (Análise*)

Caso se reeleja, Lula determinará uma derrota prolongada da direita, que permitirá à esquerda elaborar um projeto estratégico de futuro para o Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - (Ricardo Stuckert/PR)

Por Emir Sader*

Para a esquerda, se trata, antes de tudo, de ganhar as eleições, de reeleger Lula, de eleger ou reeleger seus governadores, senadores, deputados. Não há como subestimar a busca desses resultados, que permitirão dar continuidade a seus governos, seus mandatos e eleger a outros.

A disputa política democrática passa pelas eleições, como momento em que a população é chamada a votar, a decidir sobre os rumos do país. Não há como não concentrar todos os esforços na disputa eleitoral.

A reeleição de Lula supõe a capacidade de transmitir os resultados extremamente positivos do governo, assim como o que Lula pretende fazer no seu quarto mandato. Mas supõe, também, a capacidade de centrar os temas no que são as prioridades para a esquerda: denúncias sobre as desigualdades ainda existentes no país, suas origens, causas e as formas de superá-las.

Da mesma forma que a campanha é uma disputa sobre quais temas são prioritários para o povo e para o Brasil. Para a esquerda, as campanhas eleitorais têm que ser momentos de avançar na consciência social da população, na compreensão que as pessoas têm que ter sobre os problemas, especialmente as desigualdades sociais.

Difundir por que é fundamental diminuir a brutal jornada semanal em que os trabalhadores dispõem de somente um dia para descanso, depois de seis dias de intenso trabalho.

Difundir por que é fundamental a nova reforma tributária, em que a grande maioria da população deixará de pagar imposto de renda. Enquanto os mais ricos passarão a pagar mais.

Uma campanha eleitoral vencedora é aquela que elege os candidatos populares, mas, também, aquela que fortalece a consciência social da população, que fortalece a organização popular.

Esta campanha tem como objetivo principal a reeleição de Lula. Mas, também, o avanço na ainda insuficiente consciência social dos grandes problemas que afetam o Brasil, suas origens, suas causas, suas alternativas, suas soluções.

Sem consciência social, sem consciência de classe profunda na população, a esquerda não consegue avançar. A vitória eleitoral se torna efêmera, se não desembocar, também, em consciência social e organização popular.

Nessas eleições, se disputa o futuro do Brasil. Caso se reeleja, Lula determinará uma derrota prolongada da direita, que permitirá à esquerda elaborar um projeto estratégico de futuro para o Brasil. Projeto que a esquerda não dispõe ainda, que precisa elaborar, sobre que futuro quer para o país, que Estado, que cultura.

É uma eleição que projetará o futuro do Brasil por um período longo, neste século de transição entre a hegemonia norte-americana do século passado e o papel novo dos BRICS neste século.

*Emir Sader é sociólogo, filósofo, professor, cientista político e escritor.  Fonte: Revista Fórum

CCJ do Senado aprova PEC que acaba com jornada 6X1

 Dos 27 senadores presentes, apenas quatro foram contrários; matéria ainda precisa passar pelo plenário da Casa

Foto: Geraldo Magela / Agência Senado

Da Agência Brasil*

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou, nesta quarta-feira (2), por votação simbólica, a proposta de emenda à Constituição (PEC) que põe fim à jornada de seis dias de trabalho por um de descanso (6×1). A matéria ainda precisa passar pelo plenário da Casa, em dois turnos de votação.

A PEC 221 de 2019 prevê a obrigatoriedade de descanso remunerado de dois dias por semana, sem redução salarial, e reduz a atual jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, com uma regra de transição de 14 meses.

Dos 27 senadores presentes na comissão, apenas quatro registraram votos contrários: o líder da oposição Rogério Marinho (PL-RN), Hamilton Mourão (Republicanos-RS), Tereza Cristina (PP-MS) e Jaime Bagattoli (PL-RO).

O relator Omar Aziz (PSD-AM) rejeitou todas as 36 emendas apresentadas à PEC, incluindo propostas para manter a possibilidade de escalas de 6×1 ou jornadas superiores a 40 horas.

“Até porque todas as emendas que foram apresentadas, as 36 emendas, nenhuma pede mais benefício para o trabalhador”, justificou o relator.

A PEC foi criticada pelo líder da oposição Rogério Marinho, que reclamou do pouco tempo para debater o tema e destacou que a proposta traria inflação para a economia.

“Nós vamos gerar, sem dúvida nenhuma, inflação, desemprego e informalidade em nome da perpetuação do projeto de poder”, disse o parlamentar potiguar.

Estudos sobre o fim da 6×1 divergem sobre os impactos para a inflação e o Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos no país).

Rogério Marinho defendeu uma outra PEC, a que cria um regime trabalhista por hora trabalhada, e defendeu as negociações individuais entre patrões e empregados para definição da escala de trabalho.

“Esse projeto vai na contramão da necessidade de darmos competitividade à população, ao país e à sociedade brasileira”, criticou.

O líder da oposição ainda apresentou um destaque para limitar o descanso remunerado dos trabalhados à apenas um dia na semana. Porém, o destaque foi rejeitado pela CCJ.

A senadora Eliziane Gama (PSD-MA) rebateu os argumentos de Rogério Marinho e citou a pressão de empresários contra a PEC por aumentar direitos dos trabalhadores.

“Toda vez que o Congresso Nacional busca assegurar direitos trabalhistas, o discurso é o mesmo, a economia vai quebrar, o desemprego vai imperar, a inflação vai ocorrer. Isso é um discurso simplesmente para atender os grandes empresários deste país”, afirmou.

A senadora defendeu que a PEC assegura mais dignidade à vida dos trabalhadores, “sobretudo às mulheres brasileiras, que têm dupla ou tripla jornada de trabalho, e hoje, com a aprovação do fim da escala 6×1, nós vamos dar dignidade, saúde mental e vamos melhorar a produtividade no Brasil”.

O senador Jaime Bagattoli (PL-RO) reclamou da “falta de mão de obra” no Brasil e defendeu a jornada flexível por hora trabalhada.

“Está difícil a contratação de funcionário. Nós, patrões, queremos que os nossos funcionários estejam com a melhor qualidade de vida”, disse, acrescentando que não tinha como apoiar a PEC.

“Como é que nós vamos reduzir de 44 horas para 40 horas e essa empresa vai ter a mesma produção? Claro que não. Não adianta nós dizermos que não vai aumentar os custos”, completou o senador por Rondônia.

O relator da proposta, senador Omar Aziz, lembrou que mesmo o PL, partido da oposição, votou majoritariamente a favor da PEC na Câmara dos Deputados e rejeitou a tese de que a redução da jornada vai “quebrar” a economia.

“Quando se criou o 13º salário, diziam que o Brasil ia quebrar, ia ter problema. Depois que se reduziu de 48 horas para 44 horas, também [apontaram] os mesmos problemas. O Brasil é muito forte e tem uma massa trabalhadora que nos dá muito orgulho”, disse Aziz.

O relator da PEC do fim da 6×1 ainda criticou os acordos individuais entre patrão e trabalhador, argumentando que não há igualdade de condições nessa relação.

“O assédio ao trabalhador é quando você faz o contato individual. Ou é desse jeito ou ele tá fora. Aí uma pessoa que tá precisando desesperadamente daquele trabalho, vai aceitar. Acordo individual é assédio ao trabalhador, sim! Acordo coletivo, não!”, acrescentou.

O relator também rejeitou a emenda que aumentava a regra de transição da PEC de 14 meses para até quatro anos. Foram rejeitadas ainda as sugestões de parlamentares para adiar a implementação da regra para uma lei complementar posterior e para compensações fiscais às empresas.

*Via Sul21

01 setembro 2026

FOI GOLPE - Podcast do Brasil de Fato marca os 10 anos do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff

Ataque à democracia brasileira, queda da primeira mulher eleita à presidência significou a ascensão da extrema direita


Discurso de Dilma Rousseff no palácio presidencial da Alvorada | Crédito: Evaristo Sá/AFP

Por Igor Carvalho, editado por Rodrigo Gomes, no BdF*

O dia 31 de agosto de 2016 entrou para a história do Brasil. Dilma Rousseff, a primeira mulher eleita à Presidência da República no Brasil, pelo PT, era cassada pelo Congresso Nacional, em um ambiente hostil, pautado pela misoginia e pela violência política de gênero. Essa história é contada no podcast “O golpe contra Dilma – 10 anos depois”, lançado pelo Brasil de Fato, nesta segunda-feira (31).

Antes, em 17 de abril, Dilma e o país acompanharam um dos episódios mais insalubres da história política brasileira. Durante horas, deputados correram ao microfone para declarar seus votos pela admissibilidade do processo de impeachment. Entre os discursos, muitos dedicaram sua manifestação a familiares, amigos e eleitores.

Porém, um deles chocou ao dedicar seu voto à memória de Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador da ditadura militar. Era Jair Bolsonaro, agora ex-presidente, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado. Mas aquele ataque à democracia, confirmado pelo golpe, significava, também, a ascensão da extrema direita no país.

Protagonista do golpe, Eduardo Cunha, que era presidente da Câmara dos Deputados à época, usou o pedido de impeachment, assinado pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale e Janaína Paschoal, como moeda de troca com o Palácio do Planalto.

Cunha enfrentava um pedido de cassação de seu mandato, que estava na Comissão de Ética da Casa, e tentou barganhar: não pautaria o impeachment de Dilma Rousseff no plenário em troca dos votos petistas pela sua absolvição no colegiado. O PT não topou.

Esse e outros bastidores que contextualizam o momento político que derrubou a ex-presidenta estão no novo podcast do Brasil de Fato:

31 agosto 2026

NO NOS MOVERAN! - Joan Baez

 


*Via YouTube

Em números — Globo favorece Flávio Bolsonaro

 



Por Jeferson Miola*

Terminei artigo sobre a entrevista do presidente Lula no Jornal Nacional dizendo que “a Globo se condenou a fazer com Flávio Bolsonaro o mesmo tipo de entrevista inquisitorial e policialesca, com perguntas insistentes durante um longo tempo sobre a ficha criminal do gângster”.

Disse ainda que, “se não fizer isso, que seria o mínimo de isonomia jornalística, a Globo assumirá que a entrevista do Lula terá sido uma poderosa peça de propaganda contra sua reeleição”.

A entrevista de Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional não deixa dúvidas sobre a escolha da Globo de se perfilar ao lado de Donald Trump, Marco Rubio e Bolsonaros na guerra para impedir a reeleição de Lula.

Os entrevistadores César Tralli e Renata Vasconcellos dispensaram tratamentos distintos ao Lula e a Flávio. Tiveram uma condescendência escandalosa com as omissões, contradições e mentiras deslavadas do gângster-filho.

A diferença de tratamento não ficou restrita à incisividade e vilania das perguntas, mas é comprovada nas estatísticas das duas entrevistas, que confirmam a decisão editorial e institucional da Globo de prejudicar Lula e favorecer Flávio Bolsonaro.

Praticamente metade do tempo da entrevista de Lula, ou seja, 18min 50seg, 47,1% da duração total, foi utilizado para fustigá-lo em relação à corrupção. E com uma abordagem agressiva, inquisitorial e condenatória:

Os jornalistas sacrificaram a abordagem de temas essenciais, como a ameaça estrangeira ao país, terras raras, juros, SUS etc., para fixar a idéia de associação de Lula e do PT com corrupção.

Mas, por outro lado, o arquicorrupto Flávio, cuja trajetória pessoal e familiar é marcada por ilícitos e corrupção com mandatos parlamentares, foi inquirido sobre corrupção em apenas 31,1% do tempo total da entrevista, durante 11min e 55seg – 7 minutos a menos que Lula. Algo inexplicável em relação a quem é beneficiário da maior fraude financeira do país.

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O disparate é enorme também em relação à quantidade de perguntas feitas aos candidatos sobre corrupção. O JN inquiriu Lula o dobro de vezes que questionou Flávio: em 10 das 15 perguntas. A cada três perguntas feitas a Lula, duas foram sobre corrupção:

Devem ser lembradas, ainda, as interrupções e réplicas feitas pela dupla de jornalistas da Globo a Lula na inquirição sobre corrupção, postura não observada em relação a Flávio.

Um momento específico da entrevista de Flávio evidenciou a conduta totalmente faccional dos entrevistadores. Foi na pergunta sobre a proximidade dele com Rodrigo Bacellar, o deputado aliado preso por envolvimento com o Comando Vermelho.

O questionamento com a resposta durou apenas 38 segundos [sim, 38 segundos!], sem que Tralli e Renata o interpelassem, como fizeram repetidamente com Lula.

A jornalista Neide Duarte, que trabalhou 42 anos na Globo, criticou duramente a opção falsificadora e manipuladora da Globo na entrevista de Lula. Ela disse: “vocês [Globo] continuam nessa batalha para derrubar Lula. Descaradamente agora”.

A Globo tirou o simulacro de imparcialidade e isonomia e vestiu a camiseta do time do Trump, dos Bolsonaro e da extrema-direita. Entrou com tudo na eleição para tentar impedir o quarto mandato de Lula.

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*Fonte: Viomundo

30 agosto 2026

A Globo está onde sempre esteve: contra o Brasil e os brasileiros

Caíram as máscaras. Não há mais ilusões. A Globo reafirmou seu eterno golpismo*

Presidente Lula durante entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo - Crédito: Ricardo Stuckert


Por Leonardo Attuch*

O editorial publicado neste domingo pelo jornal O Globo, em que o grupo afirma que “não há do que se desculpar” por sua atuação durante a Lava Jato, tem pelo menos uma virtude: desfaz ilusões.

Depois de tudo o que aconteceu no Brasil na última década, depois dos 580 dias de prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, da anulação de suas condenações, do reconhecimento da parcialidade de Sergio Moro pelo Supremo Tribunal Federal no processo do tríplex e da destruição de empresas, empregos e capacidade produtiva nacional, a Globo decidiu que não tem nada a rever.

Talvez seja melhor assim. Porque a frase permite compreender que a Globo está exatamente onde sempre esteve: contra o Brasil e contra os brasileiros.

Não se trata de um desvio ocasional, de um erro jornalístico ou de uma escolha infeliz feita durante a cobertura de determinado acontecimento. Trata-se de uma posição histórica.

A Globo é e sempre foi um dos mais poderosos aparelhos ideológicos das classes dominantes brasileiras e do imperialismo. Nos grandes confrontos sobre os destinos do País, quase invariavelmente colocou seu imenso poder de comunicação a serviço daqueles que defendem um Brasil subordinado, desigual e incapaz de exercer plenamente sua soberania. Mudam os personagens, mudam os pretextos, mudam as campanhas, mas o lado permanece essencialmente o mesmo.

Essa história não começou com Lula, Dilma Rousseff ou a Lava Jato. Antes mesmo da existência da Rede Globo de Televisão, o jornal O Globo integrou o campo político e midiático que combateu Getúlio Vargas, especialmente na crise que culminou no suicídio do presidente, em 24 de agosto de 1954. A Carta-Testamento transformou a morte de Vargas numa denúncia histórica contra as forças nacionais e estrangeiras que se levantavam contra seu projeto de desenvolvimento.

A reação popular ao suicídio foi explosiva e atingiu também os veículos identificados com a campanha contra Getúlio. Carros de O Globo foram incendiados por manifestantes.

Não se trata de celebrar a violência contra empresas ou trabalhadores da imprensa, mas de registrar o tamanho da revolta e a percepção, já naquele momento, de que determinados meios de comunicação não eram simples observadores da crise brasileira. Eram atores políticos.

Dez anos depois, não haveria sequer espaço para dúvidas. O Globo apoiou o golpe militar de 1964 que derrubou o presidente constitucional João Goulart e instaurou uma ditadura que duraria 21 anos. O golpe foi vendido como defesa da democracia e produziu exatamente o contrário: cassações, censura, perseguições políticas, prisões, torturas, assassinatos e exílio.

Enquanto milhares de brasileiros pagavam o preço da ditadura, as Organizações Globo cresceram extraordinariamente. Foi durante o regime militar que a Rede Globo se consolidou nacionalmente, construiu uma posição dominante na formação da opinião pública brasileira e adquiriu uma capacidade de influência política sem paralelo entre empresas privadas do País.

A ditadura precisava de instrumentos capazes de produzir consenso, enquanto a Globo precisava das condições políticas, econômicas e regulatórias que permitissem sua expansão. Os interesses convergiram.

Somente em 2013, quase meio século depois do golpe, a Globo reconheceu publicamente que apoiar a ruptura de 1964 havia sido um erro. O pedido de desculpas poderia ter representado um verdadeiro acerto de contas com a história, mas a Globo já preparava mais um golpe. Naquele exato momento, o Brasil começava a ingressar em um novo ciclo de desestabilização política que terminaria, três anos depois, com a derrubada da presidenta Dilma Rousseff.

As chamadas “jornadas de junho de 2013” foram incentivadas e amplificadas pela Globo e seus jornalistas. Vieram depois as manifestações contra Dilma, a Lava Jato, a demonização da política e a fabricação de um ambiente no qual derrubar uma presidenta legitimamente eleita passou a ser apresentado como solução para os problemas nacionais.

Em 2016, Dilma foi afastada por um golpe parlamentar apoiado entusiasticamente pela Globo. Se em 2013 o grupo pedia desculpas por ter apoiado o golpe de 1964, três anos depois já participava da legitimação de uma nova ruptura democrática, desta vez sem tanques nas ruas.

Deste golpe, a Globo nunca pediu desculpas. E não pedirá, porque reconhecer o erro significaria admitir também responsabilidade pelos retrocessos econômicos e sociais que vieram depois – e que fazem parte do programa econômico da Globo, ou seja, do neoliberalismo.

O governo Michel Temer implementou uma agenda que jamais teria recebido respaldo popular nas urnas, com congelamento dos gastos públicos, reforma trabalhista, enfraquecimento da proteção social e redução da capacidade do Estado brasileiro de promover desenvolvimento e combater desigualdades.

Paralelamente, a Lava Jato produzia uma das maiores destruições econômicas autoinfligidas da história brasileira. Em vez de punir empresários e executivos que tivessem cometido crimes e preservar empresas, empregos, tecnologia e capacidade produtiva, o Brasil permitiu que suas maiores construtoras fossem devastadas. Companhias brasileiras que competiam internacionalmente em engenharia pesada foram destruídas ou dramaticamente reduzidas, milhares de fornecedores foram atingidos e uma cadeia produtiva inteira sofreu consequências que o País sente até hoje.

Milhões de trabalhadores pagaram uma conta que não era deles. Projetos foram interrompidos, investimentos desapareceram, famílias perderam renda e a capacidade brasileira de competir em grandes obras de infraestrutura no exterior foi duramente atingida.

A Globo não apenas cobriu a Lava Jato. Transformou-a num espetáculo permanente e seus protagonistas em heróis nacionais. Procuradores e juízes passaram a ocupar o imaginário brasileiro como integrantes de uma cruzada moral supostamente acima da política, das garantias individuais e, em determinados momentos, do próprio escrutínio jornalístico que deveria acompanhar qualquer concentração extraordinária de poder.

Foi nesse ambiente que surgiu o infame PowerPoint de Deltan Dallagnol. Lula aparecia no centro de uma teia de acusações que, reproduzida massivamente pela imprensa e pela televisão, produziu perante milhões de brasileiros uma condenação política antes mesmo da condenação judicial. A presunção de inocência foi substituída pela presunção televisiva de culpa.

Em abril de 2018, a ofensiva atingiu seu objetivo principal. Lula foi condenado por Sergio Moro, preso por 580 dias e impedido de disputar a eleição presidencial daquele ano, na qual aparecia como favorito. Jair Bolsonaro venceu aquela eleição e, poucas semanas depois, o juiz que havia condenado o principal adversário do candidato vencedor abandonou a magistratura para se tornar ministro da Justiça do novo governo.

Mais tarde, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações de Lula e declarou Sergio Moro parcial no processo do tríplex. São fatos de uma gravidade histórica extraordinária. O principal candidato à Presidência foi retirado da eleição, o beneficiário político de sua ausência chegou ao Planalto e o juiz responsável pela condenação tornou-se ministro desse mesmo governo.

Sem a destruição política de Lula e sua exclusão da eleição de 2018, o fascismo e o bolsonarismo provavelmente não teriam chegado à Presidência da República. A Globo pode ter posteriormente entrado em conflito com Jair Bolsonaro, especialmente quando seu governo passou a atacá-la diretamente, mas isso não apaga sua responsabilidade na criação do ambiente político que tornou possível a ascensão da extrema direita. O fascismo bolsonarista não caiu do céu: germinou no terreno preparado pela criminalização generalizada da política, pela destruição da confiança nas instituições e pela transformação da Lava Jato numa cruzada moral.

A história produziu então uma de suas grandes ironias. O homem que havia sido preso, impedido de disputar uma eleição e submetido durante anos a um processo de destruição de reputação recuperou seus direitos políticos, derrotou Bolsonaro nas urnas e voltou à Presidência da República. Lula retornou ao Palácio do Planalto depois de sobreviver a uma das maiores operações de perseguição política da história brasileira recente.

Mesmo depois de tudo o que sofreu, Lula não transformou seu terceiro mandato numa guerra contra a Globo. Ao contrário, procurou estabelecer uma relação civilizada, institucional e pragmática com o maior conglomerado de comunicação do País. Compreendeu que governar o Brasil exige diálogo inclusive com aqueles que trabalharam contra seu projeto político e contra sua própria liberdade.

Na sabatina da Globo, Lula cobrou algo elementar: um pedido de desculpas pela forma como foi tratado durante a Lava Jato e, em particular, pelo espetáculo do PowerPoint que ajudou a apresentá-lo aos brasileiros como culpado antes de qualquer julgamento definitivo. Não pediu censura, não pediu submissão e não pediu que a imprensa deixasse de investigar governos. Pediu apenas que uma instituição com enorme poder reconhecesse os próprios erros diante dos fatos revelados pela história.

A resposta chegou neste domingo: “Não há do que se desculpar”.

Pronto. Caíram as máscaras e, com elas, qualquer ilusão de que a Globo estivesse disposta a fazer um acerto de contas sério com sua própria história. O grupo que levou quase meio século para admitir que errou ao apoiar o golpe de 1964 agora se recusa a reconhecer qualquer responsabilidade pelo ambiente político e midiático que ajudou a construir durante a Lava Jato.

A questão, evidentemente, transcende Lula e diz respeito a projetos de Brasil. De um lado, existe historicamente um projeto de construção de uma nação soberana, industrializada, socialmente integrada, capaz de controlar seus recursos estratégicos, reduzir desigualdades e exercer autonomia no sistema internacional. Esse impulso apareceu, com suas diferentes características e contradições, em Getúlio Vargas, João Goulart e, mais recentemente, nos governos Lula e Dilma.

Do outro lado está o projeto de um Brasil subordinado, dependente, socialmente desigual, financeirizado e permanentemente condicionado pelos interesses de suas elites econômicas e pelos centros internacionais de poder. Sempre que esses dois projetos entraram em choque, a Globo soube de que lado ficar. Combateu Getúlio, apoiou o golpe contra João Goulart, prosperou durante a ditadura, apoiou a derrubada de Dilma, transformou a Lava Jato em espetáculo e ajudou a construir o ambiente que levou Lula à prisão e o retirou da eleição de 2018.

A Globo pode até afirmar que não deve desculpas. Os brasileiros têm o direito de olhar para sua história e chegar à conclusão oposta. Deve desculpas pelo apoio ao golpe de 1964, como ela própria finalmente reconheceu em 2013; deve uma autocrítica profunda por seu papel na crise que culminou no golpe parlamentar contra Dilma; deve explicações pela transformação da Lava Jato em espetáculo permanente; e deve refletir sobre sua participação na construção do ambiente que permitiu a prisão de Lula, sua exclusão da eleição e a posterior ascensão do bolsonarismo.

Depois de Getúlio, 1964, junho de 2013, 2016, Lava Jato e 2018, já não há espaço para ilusões. Lula tentou construir uma relação civilizada e pragmática depois de retornar à Presidência. A Globo respondeu neste domingo que “não há do que se desculpar”.

Que assim seja. Cada um escolheu seu lugar na história.

A Globo está onde sempre esteve: contra as forças populares, contra os interesses nacionais e, portanto, contra o Brasil e os brasileiros.

*Jornalista e escritor. Fonte: Brasil247

28 agosto 2026

CUT completa 43 anos: Central nasceu da luta e da organização da classe trabalhadora

Fundada em 28 de agosto de 1983, em meio à crise econômica e à luta pela redemocratização do país, Central nasceu da mobilização de trabalhadores e se tornou uma das principais organizações sindicais do país*

Nascida em meio a uma crise econômica grave nos anos 1980, com desemprego em patamares altos e em plena ditadura militar, a CUT completa 43 anos nesta sexta-feira (28). Fundada em 28 de agosto de 1983, a Central surgiu em um período de intensa mobilização sindical, reunindo trabalhadores e trabalhadoras de diferentes categorias e regiões do país.

A criação da CUT também representou um desafio à legislação sindical vigente na época, que impunha restrições à organização conjunta de trabalhadores de diferentes categorias.

A Central foi a primeira organização sindical de caráter intersindical e intercategorial criada no país após o golpe militar de 1964 e também a primeira central sindical brasileira construída a partir de um processo de organização pelas bases de trabalhadores.

Ao longo dessas mais de quatro décadas, a CUT teve atuação determinante nas lutas e conquistas de todos os principais direitos da classe trabalhadora como a política de valorização real do salário mínimo, o fortalecimento dos processos de negociação coletiva, a redução da jornada de trabalho para 44 horas nos anos 1980.

Além dessas, fazem parte da história da CUT diversas lutas por avanços nos direitos das mulheres, população negra, lutando pela igualdade racial e de gênero e a luta pela democracia, seja pelo fim da ditadura e eleições diretas (Diretas Já!) na primeira década, seja nos dias atuais contra os ataques da extrema direita.

Ao completar 43 anos, a CUT se mantém centrada nas principais demandas dos trabalhadores, como a recém conquistada isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, o fim da escala 6x1, a luta pelo fim da violência contra a mulher e a regulamentação de novas formas de trabalho, como aplicativos, por exemplo.

Nesse cenário, a CUT também projeta os próximos desafios da classe trabalhadora. Em mensagem sobre a data, o presidente nacional da Central, Sergio Nobre, destacou a importância das eleições e convocou sindicatos, ramos, estaduais e militantes para a preparação do 15º Congresso Nacional da CUT (15º Concut), previsto para 2027.

“O Brasil vive, mais uma vez, um momento decisivo. Nas eleições, cada trabalhadora e cada trabalhador terá a oportunidade de ir às urnas e escolher quem realmente representa os seus interesses.”

Sergio Nobre defendeu a mobilização para a escolha de representantes comprometidos com a democracia e com os direitos sociais. “Vamos trabalhar para eleger representantes da classe trabalhadora comprometidos com a democracia, os direitos sociais e um Brasil mais justo e soberano.”

O presidente da CUT também convocou a militância e as entidades filiadas a iniciarem a preparação para o próximo congresso da Central, que deverá discutir estratégias e os caminhos da organização sindical.

“Desde já, convocamos nossa militância, nossos sindicatos, ramos e estaduais a se prepararem para o 15º Congresso Nacional da CUT, o 15º Concut, que acontecerá em 2027. Vamos, juntos, renovar nossas estratégias e construir os novos caminhos da organização sindical.”

Na mensagem pelos 43 anos da CUT, Sergio Nobre ressaltou ainda a trajetória da Central e a perspectiva de continuidade da atuação sindical. 

A CUT chega aos 43 anos de história com muita garra, coragem e esperança. Aguerrida no presente e sempre preparada para o futuro
- Sergio Nobre
O surgimento de uma Central que faz parte da história do país

Ponto de partida – ‘A’ Conclat

A história começou com a 1º Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), em 1981, na Praia Grande, litoral de São Pauulo, que reuniu mais de 5 mil trabalhadores e trabalhadoras de todas as regiões do país. Ao todo, 5.059 delegados participaram da fundação da CUT, representando 912 entidades, entre sindicatos urbanos e rurais, associações pré-sindicais, associações de funcionários públicos, federações e entidades nacionais.

Os temas prioritários discutidos na Conclat, diziam respeito aos ataques aos direitos da classe trabalhadora, como o direito ao trabalho, sindicalismo, saúde e previdência social, políticas salarial, econômica, agrária e problemas nacionais. Porém, acima de tudo, a luta era pela reconquista da democracia, que era usurpada pelo regime militar – um período de em que a classe trabalhadora sofreu na pele todos os retrocessos e horrores da ditadura.

Como resultado da Conclat, foi criada a Comissão Nacional Pró-CUT que, dois anos depois, deu origem à Central Única dos Trabalhadores.

Fundação da CUT – ‘O’ Conclat

O 1º Congresso Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat) foi realizado no galpão dos antigos estúdios cinematográficos Vera Cruz, em São Bernardo do Campo (SP). Foi naquele espaço que delegados e delegadas aprovaram a criação da nova central sindical.

Novamente, mais de cinco mil representantes de trabalhadores comparecem ao encontro.

Assim, após deliberaram sobre as pautas prioritárias de reivindicação da classe trabalhadora, no dia 28 de agosto de 1983, então, nasceu a CUT.

Contexto: a crise econômica e mobilização

A fundação da CUT ocorreu em meio a uma profunda crise econômica. O país enfrentava inflação elevada, recessão, aumento do desemprego e perda do poder de compra dos salários, além de uma dívida externa superior a US$ 100 bilhões.

Um mês antes da fundação da Central, trabalhadores e trabalhadoras realizaram uma greve geral em todo o país. Na indústria paulista, somente nos dois primeiros meses de 1983, cerca de 47 mil trabalhadores foram demitidos, número próximo ao total de dispensas registradas durante todo o ano anterior.

Além das dificuldades econômicas, o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar. Nesse contexto, o congresso de fundação da CUT aprovou uma agenda de lutas que incluía o fim da Lei de Segurança Nacional e do regime militar, o combate ao desemprego, reajustes periódicos dos salários, reforma agrária, liberdade e autonomia sindical.

A defesa da cidadania e o combate ao autoritarismo também estavam entre as pautas da nova Central, em um período marcado pela repressão política e por restrições às liberdades democráticas.

Primeira direção

Para o primeiro ano de atuação, foi escolhida uma coordenação-geral liderada por Jair Meneguelli, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, atual Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que naquele período estava sob intervenção.

Em 1984, foi eleita a primeira direção da Central com chapa completa, tendo Meneguelli como primeiro presidente da CUT.

Organização presente em todo o país

Ao longo de 43 anos, a CUT ampliou sua presença e passou a reunir entidades de diferentes ramos da atividade econômica. Atualmente, a Central conta com 3.960 entidades filiadas, 7,9 milhões de associados e associadas e uma base de 25,8 milhões de trabalhadores e trabalhadoras.

De caráter classista, autônomo e democrático, a CUT organiza trabalhadores e trabalhadoras da cidade e do campo, dos setores público e privado, ativos e inativos.

Entre seus princípios está a defesa da liberdade e da autonomia sindical, com independência em relação ao Estado, governos, empregadores, partidos políticos e instituições religiosas.

Desde sua fundação, a Central participa de mobilizações e debates relacionados às condições de trabalho, à defesa de direitos e às transformações políticas, econômicas e sociais do Brasil.

Ao completar 43 anos nesta sexta-feira (28), a CUT refoça sua atuação sindical por meio das entidades filiadas e da organização de trabalhadores e trabalhadoras em diferentes setores da economia brasileira.

Assista ao vídeo especial em celebração aos 43 anos da CUT e conheça um pouco dessa história de luta, resistência e conquistas da classe trabalhadora!

*Escrito por: Walber Pinto | Editado por: André Accarini - Fonte: https://www.cut.org.br/