13 setembro 2026

OPINIÃO* - Direita brasileira em crise

A construção de uma alternativa requereria um aceno do Bolsonaro de que abandonaria o Flávio e apontaria outro nome, perspectiva sobre a qual não há, até agora, nenhum indício

Por Emir Sader*

Foi tudo muito rápido, entre as declarações eufóricas de Flávio Bolsonaro, apoiado em pesquisas que lhe eram favoráveis, já quase como futuro presidente do Brasil, e a situação atual.

A abertura de todos os arquivos ligados ao caso do Master trouxe novas denúncias, ainda mais graves, sobre as relações do Flávio com o Vorcaro e as informações sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, com, entre outras, as denúncias evidentes do desvio de dinheiro para o irmão do Flávio nos Estados Unidos.

Até que se chegasse a um editorial do Estadão em que se afirma que Flávio não teria mais condições de ser candidato à presidência da república. Além de outras dissidências na direita, entre elas a declaração de Cury que, segundo pesquisas, teria 8%, de que não apoiará o Flávio em um eventual segundo turno. A própria incapacidade de Flávio para conseguir receber apoio de pelo menos um partido da direita ou da extrema direita já revelava o seu isolamento político.

Haveria margem para a mudança do candidato? Haveria poucos dias, só até o dia 16, para mudar o candidato. É pouco tempo para que o pai do Flávio mudasse sua preferência, sempre reafirmada, por esse seu filho. E, considerando que a direita aderiu ao bolsonarismo, está prisioneira dessa adesão e, em especial, às preferências do Bolsonaro, que até aqui não mostrou nenhum sinal de que poderia mudar de opinião.

Tarcísio, que poderia ter mais força como candidato, já foi descartado por Bolsonaro, que prefere alguém da família. A Michelle foi duramente atacada pelo Flávio, temendo que ela pudesse ser escolhida pelo pai como candidata alternativa. A reaparição dela mostrou que ela poderia ser uma candidata sem as acusações – até aqui, pelo menos – do Flávio e certa frescura como imagem, também pelo trabalho que ela fez entre as mulheres, onde o Lula tem sua mais alta preferência.

As alternativas da direita, nessas condições, não tem tu, vai tu mesmo: permanecer com o Flávio, apesar de tudo, mesmo considerando que o seu desgaste na opinião pública e nas pesquisas deve se refletir negativamente nas pesquisas.

Depois de pesquisas que davam resultados favoráveis a ele, surgiu uma pesquisa do Datafolha que retomava a liderança do Lula, brecando a euforia do Flávio e dos bolsonaristas.

A construção de uma alternativa requereria um aceno do Bolsonaro de que abandonaria o Flávio e apontaria outro nome, perspectiva sobre a qual não há, até agora, nenhum indício.

Uma mudança de candidato, que tem esse obstáculo no lado do bolsonarismo, tem também a dificuldade de que vários dos pequenos candidatos se assanhariam com a perspectiva de que herdassem votos do Flávio, em queda. Mesmo o Cury, que aparece com mais votos nas pesquisas, com declarações desastrosas, em especial sobre as mulheres, teria muitas dificuldades para reunificar a direita.

Com esse novo cenário, em que as hostes do Lula reconquistam a confiança, a direita brasileira está em uma sinuca de bico. Com prazo curto para tomar decisão e sem um comando – que só poderia ser do Bolsonaro, que até aqui não demonstra mudar de opinião – é provável que o cenário atual se consolide, com a reiteração das últimas denúncias, muito pesadas para o Flávio.

A mais provável perspectiva, então, é a consolidação da liderança do Lula nas pesquisas e o desgaste da candidatura do Flávio, a poucas semanas do primeiro turno.

*Colunista do 247 (fonte desta postagem), Emir Sader (foto acima) é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

11 setembro 2026

Lula deu show no SBT: largou a mão de Moraes, defendeu a PF, cutucou Mendonça e anunciou mudanças nas bets

 

Lula deu show no SBT: largou a mão de Moraes, defendeu a PF, cutucou Mendonça e anunciou mudanças nas bets

Por Marcelo Hailer*

Show do Lula no SBT. O presidente deu uma entrevista que talvez seja uma das melhores dos últimos tempos: tranquilo, suave, assertivo, firme.

E o mais importante é que ele conseguiu fazer movimentos políticos muito claros sem precisar elevar o tom.

Logo no início, Basília Rodrigues e Marina Demori perguntaram sobre o caso Dark Horse e sobre Alexandre de Moraes. Lula foi direto: Fachin agiu corretamente, tudo precisa ser apurado, divulgado e quem tiver que ser punido deve ser punido.

Eu tinha dito antes, no Twitter, que hoje Lula começaria a soltar a mão de Alexandre de Moraes. E vejam: não é uma traição. Lula fez isso com o próprio filho. Ele não vai se comprometer totalmente com alguém se não tem todas as informações do caso.

Ele repetiu, aliás, a mesma frase que usava em relação a si no processo conduzido por Sergio Moro, nos tempos da Lava Jato: “Só uma pessoa sabe o que fez, a própria pessoa”. E completou: “Alguém que errou tem que pagar”.

Lula também repetiu a defesa da abertura dos sigilos. Quando Basília perguntou se isso valeria inclusive para o caso do INSS, a resposta foi sim.

E, se houver ministro do Supremo envolvido, ele também deve responder.

Essa é uma mudança importante de posição política. Lula deixou claro que não aceita que a Suprema Corte se transforme em uma “balbúrdia”. E atribuiu a Fachin, como presidente do STF, a responsabilidade de colocar ordem na casa.

Cobrado sobre o encontro com Daniel Vorcaro, Lula não se esquivou. Lembrou que também recebeu Silvio Santos, lá atrás, quando o banco do dono do SBT quebrou. Ele estava ao vivo no SBT, diga-se…rs.

E contou a conversa: Vorcaro chegou dizendo que estava sendo perseguido por outro banqueiro, com gente jogando por ele no Banco Central e no Planalto. A resposta de Lula: “Isso não vai acontecer no meu governo, mas vai se investigar tudo. Se o seu banco estiver tranquilo, fique tranquilo. Se tiver algum problema, a gente vai fechar o seu banco”.

Mas talvez o recado político mais forte da entrevista tenha sido para André Mendonça.

Lula defendeu Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e o chamou de “companheiro”. Disse que ele realiza um trabalho extraordinário e que a PF nunca trabalhou tanto quanto agora – e que talvez por isso esteja incomodando.

Lula defendeu ainda a reforma do Judiciário. E, por fim anunciou de alguma maneira que haverá um anúncio sobre as bets nos próximos dias: provavelmente uma regulamentação, ou até o fim das bets.

No conjunto, o que vi foi um presidente muito seguro do papel que precisa desempenhar neste momento. E que não tem pinta de que vai perder sua reeleição. Aliás, se disse um homem de sorte. E pediu votos no sortudo, contra os azarados.

*Via Revista Fórum

10 setembro 2026

O burguês, a elite, o intelectual e Lula

Uma reflexão sobre poder, desigualdade e emancipação na trajetória política do presidente

Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Por Luiz Marques (*)

Signos, sonhos, sombras, imagens, quantas mensagens nos trazem”, trecho do poema “Sigilo de fonte”, de Paulo Leminski.


Originalmente, por “burguês” se entende o habitante do burgo, o sítio fortificado do medievo. Em nota à edição inglesa do “Manifesto de 1848″, de Karl Marx e Friedrich Engels, posteriormente, o conceito ganha contorno científico para representar “a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios da produção social e empregadores do trabalho assalariado”. Não obstante, na linguagem coloquial, incorpora a conotação jocosa e corrosiva da aristocracia – “rico metido à besta”.

Refere-se aos esnobes que mensuram o bom gosto pelo preço das mercadorias, restaurante gourmet, clube de golfe, lancha importada e viagens internacionais. O GPS identifica o perímetro e a posição na hierarquia da sociedade. Indiretamente, o status quo sinaliza o topo da pirâmide social, dividida em partes: “alta, média e baixa”. Troca as diferenças de natureza estrutural pelos degraus na escada vertical do sucesso. Cai no esquecimento o conflito entre a burguesia e o proletariado.

As classes dirigentes suprem uma “revolução dos gerentes”: os responsáveis pela estratégia e pelos rumos das corporações. A formação de sociedades anônimas, com os acionistas em assentos na mesa de direção de holdings, celebra o chief executive officer (CEO)/diretor executivo; contudo, é refratário ao crachá de burguês. 

O exportador rural de commodities, idem, rejeita o figurino do personagem urbano que se estende do fabricante até a distribuição dos produtos no varejo. Já o emoji do comerciante, que se jacta de atacadões espalhados por cidades, aumenta o preconceito de quem vive só de renda (rentista) contra o alpinismo da burguesia (Lula, investido na função de sindicalista, manifesta respeito pelos proprietários das empresas no ABC paulista. Negocia e recua, levanta as reivindicações e daí avança pari passu com os peões. Garante os direitos nas refregas dos dissídios e dignidade àqueles que dependem, exclusivamente, do trabalho. Não despreza adversários).

2.

“Elite”, na acepção de grupo especial, é um derivativo de “eleito” cujo significado teológico vem a ser “escolhido por Deus”. O significado político aponta para uma escolha do “melhor”. Em ambas as hipóteses, expõe a discriminação dos não escolhidos e as injustiças nascidas das desigualdades sociais, escancarando as chagas de um progresso restrito aos pequenos e seletos núcleos de privilegiados. 

Os vocábulos elitismo e elitista têm viés na soberba. A sugestão alternativa para amenizar o cacoete antidemocrático dos membros da elite é “liderança”. Mas não apaga o essencial, isto é, o fato de existir uma forte linha de separação entre os governantes e os governados. A marca subsiste por detrás da palavra de veludo, o que é inconveniente para o sistema pelo descrédito à ideia de mobilidade social.

Estudado por Robert Michels, na obra “Sociologia dos partidos políticos”, de 1915, o divórcio entre os líderes de uma comunidade política e suas bases obedece a uma “lei férrea da oligarquia”. Ao se debruçar sobre a estruturação interna da social-democracia alemã, o autor percebe a constituição do destacamento de notáveis e suas supostas luzes para compensar uma atávica “incompetência das massas”. 

Se pesquisasse os ciclos de sovietes na Rússia em conjunturas revolucionárias (1905, 1917); ou o Orçamento Participativo (OP) de Porto Alegre no período não revolucionário de fins do século XX, em um contexto de conquistas na América Latina, o sociólogo germânico nuançaria a tese peremptória. Condições políticas, econômicas e técnicas influem na formatação do Zeitgeist/espírito do tempo (Lula forma-se no bojo de mobilizações dos trabalhadores. John D. French, em “Lula e a política da astúcia”, vincula organicamente a biografia do metalúrgico lutador às transformações sociais e políticas ocorridas em São Paulo. É o que, além da dona Lindu, traça o caminho de sua improvável e vitoriosa ascensão).

3.

O “intelectual” integra um segmento particular de “trabalhadores não manuais” (cadres/quadros), os quais se distinguem pela educação livresca para aplicar na análise dos fenômenos históricos seus conhecimentos e valores. Abrange artistas e autodidatas com inserção na cultura e no debate público. Têm independência e ética ao questionar a precarização do labor, o neocolonialismo, as finanças, as inovações tecnológicas, a escala 6 por 1. Não suportam a hipocrisia dos patrões. 

A intelligentsia é uma força auxiliar das classes oprimidas e exploradas. “Não há prática revolucionária sem teoria revolucionária”, diz um famoso bolchevique. A intelecto-militância progressista incide na práxis contra a ascensão da extrema direita no mundo e o genocídio israelense na Faixa de Gaza; em paralelo, defende a democracia representativa/participativa e um enfrentamento à crise climática. 

Os intelectuais de vanguarda desfraldam as “visões de mundo” modernas, com as bandeiras da liberdade, da igualdade e da fraternidade – pessoal e institucional. Compartilham o desejo de emancipação para romper os grilhões que acorrentam a humanidade no capitalismo neoliberal. Assim, constrói-se a ideologia socialista que recupera a chama épica da cruzada dos escravizados, com Spartacus, para derrotar o Império Romano. A memória do acontecimento nutre a utopia hoje, a exemplo das ruínas de etnias originárias sobreviventes do “processo civilizatório”.  

Modernamente o problema se agrava com o monopólio da mídia corporativa, a anfitriã dos regimes de exceção. As entrevistas dos presidenciáveis na Rede Globo dão provas. Na TV aberta fala grosso sobre ilações com um fiador da democracia, mas esbarra no estadista. Com o golpista fala manso, receptiva às vis mentiras. Na GloboNews, critica seus atores pela má performance como se não atuassem sempre com um papel no teatro. “Me engana que eu gosto”, sussurra o ditado.

(Luiz Inácio Lula da Silva é um dos libertadores, em nosso tempo: fundador do Partido dos Trabalhadores, da Central Única dos Trabalhadores e atual presidente do Brasil. Luta pela soberania nacional e pelo empoderamento do povo. Trata-se de uma voz que ressoa na defrontação ao imperialismo estadunidense).

*Fonte: Sul21

09 setembro 2026

NOTA DA 'COLIGAÇÃO COM O POVO' - SANTIAGO/RS

 


Fachin deve desarmar Mendonça, afastando-o dos casos Master e INSS. E também Moraes, encerrando o inquérito das fake news

A crise urge e ruge mas o ministro Edson Fachin, presidente do STF, parece ter empurrado o desfecho para a semana que vem

Edson Fachin Crédito: Gustavo Moreno/STF

Por Tereza Cruvinel*

O ministro André Mendonça, projeto de Sergio Moro com domínio do idioma, chocou a consciência jurídica do país nesta terça-feira com a decisão liminar de afastar do cargo o diretor da PF, Andrei Rodrigues, e o diretor de inteligência, Leandro Almada.

A legalidade reclama a declaração de inconstitucionalidade da medida por seu matiz eleitoreiro, por ser abusiva, ao violar competência exclusiva do Poder Executivo, e também pelo fato de Mendonça colocar-se como vítima  das supostas ilegalidades cometidas pelos afastados. Se é vítima, não deve dirigir o inquérito.

A crise urge e ruge mas o ministro Edson Fachin, presidente do STF, parece ter empurrado o desfecho para a semana que vem, ao dar 72 horas para Mendonça contestar o pedido de suspensão de sua liminar apresentado pelo Advogado-Geral das Uniao, Jorge Messias.  Elas terminam no final do dia da próxima sexta-feira.

Mendonça pode antecipar-se, permitindo que Fachin decida o quanto antes sobre o recurso do AGU. Ele vem dizendo que arrostará o desafio imposto pelo cargo que ocupa. Que olhará o monstro da crise de frente e sem medo de tomar sozinho a decisão.  Que “não haverá precipitação, mas tampouco omissão”.

Há, entretanto, uma alternativa à decisão solitária, que seria a remessa do caso ao plenário da corte, como já aventou o ministro Gilmar Mendes ao pedir vistas da matéria na segunda turma, onde a decisão de Mendonça já havia alcançado maioria favorável com os votos de Luiz Fux e Kassio Nunes.

Gilmar invocou, ao defender a sujeição do caso ao plenário, a ADPF 1007, da qual foi relator,  que declara inconstitucionais algumas decisões jurisdicionais. Entre elas, as que afetem a “paridade de armas” na vida democrática, ao “provocar desequilíbrio na disputa político-eleitoral”.  Esta cabe como luva à situação criada por André Mendonça, de marcado viés eleitoral, como acha meio mundo, inclusive o Governo, embora apenas o ministro José Guimarães (SRI), o presidente do PT, Edinho Silva e a ex-ministra Gleisi Hoffmann tenham dito isso com eloquência. 

Atingindo a cúpula da Polícia Federal, e obrigando o governo a sair em sua defesa, Mendonça arrastou Lula para a crise do Supremo e para a evitada proximidade com Alexandre de Moraes, justamente quando as pesquisas mostram um preocupante empate técnico-numérico entre Lula e Flavio Bolsonaro, aparentemente bafejado pelas ações do ministro que seu pai colocou no Supremo.

Ouso dizer, com base no que todos nós já aprendemos sobre a corte e seus ministros, que a tese da inconstitucionalidade defendida por Gilmar receberia maioria de votos no plenário.  Mas isso só aconteceria, ou acontecerá, caso Fachin opte por dividir com seus pares uma responsabilidade que parece disposto a assumir sozinho.

Ao longo da terça-feira, os oráculos jurídicos de Brasília sopraram algumas hipóteses sobre o que Fachin poderá fazer, ou estaria pensando em fazer.  E entre elas, uma parece carregar a maior carga de eficácia contra o tamanho, a gravidade e o ineditismo da crise no Supremo.  Os oráculos às vezes sopram seus próprios desejos ou pensamentos mas de dois importantes advogados da cidade ouvi que Fachin cogitaria adotar um combo decisório:

1 – Declarar a inconstitucionalidade e a exorbitância da decisão de Mendonça de afastar os dois diretores da Polícia Federal;

2 – Desarmar os dois brigões, tirando de Mendonça as relatorias dos inquéritos do INSS e do caso Master/Vorcaro e encerrando o inquérito das fake-news, arma de cabo longo do ministro Alexandre de Moraes.

3 – Numa hipótese, ele mesmo assumiria as relatorias. Em outro, haveria o convencional sorteio.

Com menos assertividade eles falam da solução que Fachin teria para o quarto e mais complicado ponto: o que fazer com os pedidos de investigação que Mendonça e Moraes apresentaram, um contra o outro.

Moraes foi exposto por Mendonça, com a retirada do sigilo sobre o relatório da PF, em conversas comprometedoras com Daniel Vorcaro. Mendonça, segundo Moraes, cometeu crimes de responsabilidade, de improbidade administrativa e  de abuso de autoridade , “com quebra da imparcialidade judicial” e “favorecimento a determiniados grupos políticos” enquanto relator dos casos INSS e Banco Master.

 As acusações são igualmente graves e o país reclama que sejam apuradas. Os13 ex-ministros da corte, na carta enviada a Fachin, pedem que “o pleno determine imediata e rigorosa apuração, sob o devido processo legal, dos gravíssimos fatos cuja divulgação vem comprometendo o prestígio e a autoridade desse tribunal”.

Uma coisa é certa, como nos dizia nesta noite de terça, na TV 247, o advogado e ex-procurador Roberto Tardelli: “O Supremo ficou pequeno demais para Alexandre de Moraes e André Mendonça. Alguém terá de sair. Ou os dois”.

*Fonte: Brasil247

03 setembro 2026

A campanha da esquerda (Análise*)

Caso se reeleja, Lula determinará uma derrota prolongada da direita, que permitirá à esquerda elaborar um projeto estratégico de futuro para o Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - (Ricardo Stuckert/PR)

Por Emir Sader*

Para a esquerda, se trata, antes de tudo, de ganhar as eleições, de reeleger Lula, de eleger ou reeleger seus governadores, senadores, deputados. Não há como subestimar a busca desses resultados, que permitirão dar continuidade a seus governos, seus mandatos e eleger a outros.

A disputa política democrática passa pelas eleições, como momento em que a população é chamada a votar, a decidir sobre os rumos do país. Não há como não concentrar todos os esforços na disputa eleitoral.

A reeleição de Lula supõe a capacidade de transmitir os resultados extremamente positivos do governo, assim como o que Lula pretende fazer no seu quarto mandato. Mas supõe, também, a capacidade de centrar os temas no que são as prioridades para a esquerda: denúncias sobre as desigualdades ainda existentes no país, suas origens, causas e as formas de superá-las.

Da mesma forma que a campanha é uma disputa sobre quais temas são prioritários para o povo e para o Brasil. Para a esquerda, as campanhas eleitorais têm que ser momentos de avançar na consciência social da população, na compreensão que as pessoas têm que ter sobre os problemas, especialmente as desigualdades sociais.

Difundir por que é fundamental diminuir a brutal jornada semanal em que os trabalhadores dispõem de somente um dia para descanso, depois de seis dias de intenso trabalho.

Difundir por que é fundamental a nova reforma tributária, em que a grande maioria da população deixará de pagar imposto de renda. Enquanto os mais ricos passarão a pagar mais.

Uma campanha eleitoral vencedora é aquela que elege os candidatos populares, mas, também, aquela que fortalece a consciência social da população, que fortalece a organização popular.

Esta campanha tem como objetivo principal a reeleição de Lula. Mas, também, o avanço na ainda insuficiente consciência social dos grandes problemas que afetam o Brasil, suas origens, suas causas, suas alternativas, suas soluções.

Sem consciência social, sem consciência de classe profunda na população, a esquerda não consegue avançar. A vitória eleitoral se torna efêmera, se não desembocar, também, em consciência social e organização popular.

Nessas eleições, se disputa o futuro do Brasil. Caso se reeleja, Lula determinará uma derrota prolongada da direita, que permitirá à esquerda elaborar um projeto estratégico de futuro para o Brasil. Projeto que a esquerda não dispõe ainda, que precisa elaborar, sobre que futuro quer para o país, que Estado, que cultura.

É uma eleição que projetará o futuro do Brasil por um período longo, neste século de transição entre a hegemonia norte-americana do século passado e o papel novo dos BRICS neste século.

*Emir Sader é sociólogo, filósofo, professor, cientista político e escritor.  Fonte: Revista Fórum

CCJ do Senado aprova PEC que acaba com jornada 6X1

 Dos 27 senadores presentes, apenas quatro foram contrários; matéria ainda precisa passar pelo plenário da Casa

Foto: Geraldo Magela / Agência Senado

Da Agência Brasil*

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou, nesta quarta-feira (2), por votação simbólica, a proposta de emenda à Constituição (PEC) que põe fim à jornada de seis dias de trabalho por um de descanso (6×1). A matéria ainda precisa passar pelo plenário da Casa, em dois turnos de votação.

A PEC 221 de 2019 prevê a obrigatoriedade de descanso remunerado de dois dias por semana, sem redução salarial, e reduz a atual jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, com uma regra de transição de 14 meses.

Dos 27 senadores presentes na comissão, apenas quatro registraram votos contrários: o líder da oposição Rogério Marinho (PL-RN), Hamilton Mourão (Republicanos-RS), Tereza Cristina (PP-MS) e Jaime Bagattoli (PL-RO).

O relator Omar Aziz (PSD-AM) rejeitou todas as 36 emendas apresentadas à PEC, incluindo propostas para manter a possibilidade de escalas de 6×1 ou jornadas superiores a 40 horas.

“Até porque todas as emendas que foram apresentadas, as 36 emendas, nenhuma pede mais benefício para o trabalhador”, justificou o relator.

A PEC foi criticada pelo líder da oposição Rogério Marinho, que reclamou do pouco tempo para debater o tema e destacou que a proposta traria inflação para a economia.

“Nós vamos gerar, sem dúvida nenhuma, inflação, desemprego e informalidade em nome da perpetuação do projeto de poder”, disse o parlamentar potiguar.

Estudos sobre o fim da 6×1 divergem sobre os impactos para a inflação e o Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos no país).

Rogério Marinho defendeu uma outra PEC, a que cria um regime trabalhista por hora trabalhada, e defendeu as negociações individuais entre patrões e empregados para definição da escala de trabalho.

“Esse projeto vai na contramão da necessidade de darmos competitividade à população, ao país e à sociedade brasileira”, criticou.

O líder da oposição ainda apresentou um destaque para limitar o descanso remunerado dos trabalhados à apenas um dia na semana. Porém, o destaque foi rejeitado pela CCJ.

A senadora Eliziane Gama (PSD-MA) rebateu os argumentos de Rogério Marinho e citou a pressão de empresários contra a PEC por aumentar direitos dos trabalhadores.

“Toda vez que o Congresso Nacional busca assegurar direitos trabalhistas, o discurso é o mesmo, a economia vai quebrar, o desemprego vai imperar, a inflação vai ocorrer. Isso é um discurso simplesmente para atender os grandes empresários deste país”, afirmou.

A senadora defendeu que a PEC assegura mais dignidade à vida dos trabalhadores, “sobretudo às mulheres brasileiras, que têm dupla ou tripla jornada de trabalho, e hoje, com a aprovação do fim da escala 6×1, nós vamos dar dignidade, saúde mental e vamos melhorar a produtividade no Brasil”.

O senador Jaime Bagattoli (PL-RO) reclamou da “falta de mão de obra” no Brasil e defendeu a jornada flexível por hora trabalhada.

“Está difícil a contratação de funcionário. Nós, patrões, queremos que os nossos funcionários estejam com a melhor qualidade de vida”, disse, acrescentando que não tinha como apoiar a PEC.

“Como é que nós vamos reduzir de 44 horas para 40 horas e essa empresa vai ter a mesma produção? Claro que não. Não adianta nós dizermos que não vai aumentar os custos”, completou o senador por Rondônia.

O relator da proposta, senador Omar Aziz, lembrou que mesmo o PL, partido da oposição, votou majoritariamente a favor da PEC na Câmara dos Deputados e rejeitou a tese de que a redução da jornada vai “quebrar” a economia.

“Quando se criou o 13º salário, diziam que o Brasil ia quebrar, ia ter problema. Depois que se reduziu de 48 horas para 44 horas, também [apontaram] os mesmos problemas. O Brasil é muito forte e tem uma massa trabalhadora que nos dá muito orgulho”, disse Aziz.

O relator da PEC do fim da 6×1 ainda criticou os acordos individuais entre patrão e trabalhador, argumentando que não há igualdade de condições nessa relação.

“O assédio ao trabalhador é quando você faz o contato individual. Ou é desse jeito ou ele tá fora. Aí uma pessoa que tá precisando desesperadamente daquele trabalho, vai aceitar. Acordo individual é assédio ao trabalhador, sim! Acordo coletivo, não!”, acrescentou.

O relator também rejeitou a emenda que aumentava a regra de transição da PEC de 14 meses para até quatro anos. Foram rejeitadas ainda as sugestões de parlamentares para adiar a implementação da regra para uma lei complementar posterior e para compensações fiscais às empresas.

*Via Sul21

01 setembro 2026

FOI GOLPE - Podcast do Brasil de Fato marca os 10 anos do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff

Ataque à democracia brasileira, queda da primeira mulher eleita à presidência significou a ascensão da extrema direita


Discurso de Dilma Rousseff no palácio presidencial da Alvorada | Crédito: Evaristo Sá/AFP

Por Igor Carvalho, editado por Rodrigo Gomes, no BdF*

O dia 31 de agosto de 2016 entrou para a história do Brasil. Dilma Rousseff, a primeira mulher eleita à Presidência da República no Brasil, pelo PT, era cassada pelo Congresso Nacional, em um ambiente hostil, pautado pela misoginia e pela violência política de gênero. Essa história é contada no podcast “O golpe contra Dilma – 10 anos depois”, lançado pelo Brasil de Fato, nesta segunda-feira (31).

Antes, em 17 de abril, Dilma e o país acompanharam um dos episódios mais insalubres da história política brasileira. Durante horas, deputados correram ao microfone para declarar seus votos pela admissibilidade do processo de impeachment. Entre os discursos, muitos dedicaram sua manifestação a familiares, amigos e eleitores.

Porém, um deles chocou ao dedicar seu voto à memória de Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador da ditadura militar. Era Jair Bolsonaro, agora ex-presidente, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado. Mas aquele ataque à democracia, confirmado pelo golpe, significava, também, a ascensão da extrema direita no país.

Protagonista do golpe, Eduardo Cunha, que era presidente da Câmara dos Deputados à época, usou o pedido de impeachment, assinado pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale e Janaína Paschoal, como moeda de troca com o Palácio do Planalto.

Cunha enfrentava um pedido de cassação de seu mandato, que estava na Comissão de Ética da Casa, e tentou barganhar: não pautaria o impeachment de Dilma Rousseff no plenário em troca dos votos petistas pela sua absolvição no colegiado. O PT não topou.

Esse e outros bastidores que contextualizam o momento político que derrubou a ex-presidenta estão no novo podcast do Brasil de Fato:

31 agosto 2026

NO NOS MOVERAN! - Joan Baez

 


*Via YouTube

Em números — Globo favorece Flávio Bolsonaro

 



Por Jeferson Miola*

Terminei artigo sobre a entrevista do presidente Lula no Jornal Nacional dizendo que “a Globo se condenou a fazer com Flávio Bolsonaro o mesmo tipo de entrevista inquisitorial e policialesca, com perguntas insistentes durante um longo tempo sobre a ficha criminal do gângster”.

Disse ainda que, “se não fizer isso, que seria o mínimo de isonomia jornalística, a Globo assumirá que a entrevista do Lula terá sido uma poderosa peça de propaganda contra sua reeleição”.

A entrevista de Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional não deixa dúvidas sobre a escolha da Globo de se perfilar ao lado de Donald Trump, Marco Rubio e Bolsonaros na guerra para impedir a reeleição de Lula.

Os entrevistadores César Tralli e Renata Vasconcellos dispensaram tratamentos distintos ao Lula e a Flávio. Tiveram uma condescendência escandalosa com as omissões, contradições e mentiras deslavadas do gângster-filho.

A diferença de tratamento não ficou restrita à incisividade e vilania das perguntas, mas é comprovada nas estatísticas das duas entrevistas, que confirmam a decisão editorial e institucional da Globo de prejudicar Lula e favorecer Flávio Bolsonaro.

Praticamente metade do tempo da entrevista de Lula, ou seja, 18min 50seg, 47,1% da duração total, foi utilizado para fustigá-lo em relação à corrupção. E com uma abordagem agressiva, inquisitorial e condenatória:

Os jornalistas sacrificaram a abordagem de temas essenciais, como a ameaça estrangeira ao país, terras raras, juros, SUS etc., para fixar a idéia de associação de Lula e do PT com corrupção.

Mas, por outro lado, o arquicorrupto Flávio, cuja trajetória pessoal e familiar é marcada por ilícitos e corrupção com mandatos parlamentares, foi inquirido sobre corrupção em apenas 31,1% do tempo total da entrevista, durante 11min e 55seg – 7 minutos a menos que Lula. Algo inexplicável em relação a quem é beneficiário da maior fraude financeira do país.

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O disparate é enorme também em relação à quantidade de perguntas feitas aos candidatos sobre corrupção. O JN inquiriu Lula o dobro de vezes que questionou Flávio: em 10 das 15 perguntas. A cada três perguntas feitas a Lula, duas foram sobre corrupção:

Devem ser lembradas, ainda, as interrupções e réplicas feitas pela dupla de jornalistas da Globo a Lula na inquirição sobre corrupção, postura não observada em relação a Flávio.

Um momento específico da entrevista de Flávio evidenciou a conduta totalmente faccional dos entrevistadores. Foi na pergunta sobre a proximidade dele com Rodrigo Bacellar, o deputado aliado preso por envolvimento com o Comando Vermelho.

O questionamento com a resposta durou apenas 38 segundos [sim, 38 segundos!], sem que Tralli e Renata o interpelassem, como fizeram repetidamente com Lula.

A jornalista Neide Duarte, que trabalhou 42 anos na Globo, criticou duramente a opção falsificadora e manipuladora da Globo na entrevista de Lula. Ela disse: “vocês [Globo] continuam nessa batalha para derrubar Lula. Descaradamente agora”.

A Globo tirou o simulacro de imparcialidade e isonomia e vestiu a camiseta do time do Trump, dos Bolsonaro e da extrema-direita. Entrou com tudo na eleição para tentar impedir o quarto mandato de Lula.

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Marcelo Zero: Maior roubo da História

*Fonte: Viomundo