Ele é personagem central do caso BolsoMaster e tem que ser preso
Por Reimont Otoni*
A revelação do áudio de 8 de setembro de 2025, em que Flávio Bolsonaro cobra 134 milhões de reais de Daniel Vorcaro, para o filme sobre o pai presidiário, e a exposição de mensagens de whatsapp trocadas entre os dois, no dia 16 de novembro, na véspera da primeira prisão do banqueiro, jogam por terra qualquer resquício de decência do senador e candidato à presidência.
No áudio, além de cobrar o dinheiro prometido, dos quais 65 milhões foram efetivamente depositados, Flávio deixa claro que sabe dos problemas que o parceiro vem enfrentando no novo Banco Central, sem a presença do bolsonarista Roberto Campos Neto. Mas, na troca de mensagens, a proximidade é mais explícita; na véspera da prisão de Vorcaro, repito, o 01 da família Bolsonaro escreve: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”. Soa como um pedido de orientação.
As versões que Flávio Bolsonaro apresenta não se sustentam nem por poucas horas ou poucos minutos.
Ao ser abordado por um jornalista do Intercept Brasil (que revelou o escândalo), antes da publicação do material revelador, o Senador negou, debochou e acusou o profissional de militante, abandonando uma entrevista.
Pouco depois, quando a bomba explodiu, confirmou acuado, mas disse que Vorcaro era apenas um investidor privado (com um investimento milionário no filme, quase o triplo do orçamento total do premiadíssimo “Ainda estou aqui”). Mas não deu nem uma hora para a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme, desmentir a versão, em nota em que afirmou que “não recebeu um único centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro”
Flavio ainda tentou emplacar a narrativa de que não havia dinheiro público na produção. Mas há e não é pouco.
Karina Ferreira da Gama, dona Go Up Entertainment,também é presidente da Academia Nacional de Cultura (ANC), empresa que recebeu, via emendas parlamentares de deputados do PL, R$ 2,6 milhões para produção de uma série sobre "heróis nacionais". A empresária é ainda sócia do Instituto Conhecer Brasil, que recebeu mais de R$ 100 milhões da prefeitura de São Paulo para fornecer internet Wi-Fi em comunidades de baixa renda da cidade, e ganhou, também em 2025, dois milhões de reais em emendas do deputado Mário Frias, ex-ministro de Bolsonaro e idealizador do filme sobre ídolo. Segundo Frias, a produção teve ainda muito apoio da SPCine, da prefeitura de São Paulo, e do governo Tarcísio de Freiras, que negam. O próprio banco Master é um poço de dinheiro público, incluindo os fundos de previdência de estados como o Rio de Janeiro.
Não há detergente que limpe tanta sujeira.
Como num filme de pastelão, Flávio Bolsonaro se enrola a cada vez que abre a boca. Como numa fita de terror, ele derrete publicamente, ao estilo “The Walking Dead”. E a extrema direita, conhecida por abandonar seus pares e parças, já corre para descartar o 01 e apontar substitutos na família. Michele volta a ser cotada.
Mas não há heróis e nem heroínas entre eles; todos e todas fazem parte da mesma trama, são cúmplices. Cada um joga com o perfil do personagem que assume em cada ocasião. Mentem, racham, inventam e manipulam de acordo com a conveniência de momento.
Michele, por exemplo, jamais explicou as relações nada republicanas com Fabrício Queiroz, incluindo cheques depositados em suas contas. Não foi investigada pelas jóias recebidas de presente do governo da Arábia Saudita, avaliadas em R$ 16,5 milhões, que a família tentou esconder e guardar para si. Nunca deu satisfação sobre as despesas pagas pelo tenente-coronel Mauro Cesar Barbosa Cid, principal ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, para si e pessoas próximas.
Não há heróis, nem heroínas. Por isso, o descarte de Flávio Bolsonaro, que está se configurando, não pode e nem vai virar impunidade. Ele precisa ser preso e ter o passaporte retido, como solicitei à Procuradoria Geral da República, para que não fuja como é praxe da família e seus seguidores. Flávio Bolsonaro é personagem central nas investigações do escândalo do Bolsomaster, tem que responder por isso, nos termos da lei. Esse é um filme que o Brasil precisa ver para se livrar dessa praga.
*Reimont Otoni é Deputado Federal (PT/RJ) - Fonte: Brasil247











