06 julho 2026

Opinião - Do gramado à sarjeta: a queda de um símbolo nacional

Da desclassificação da seleção ao uso político da camisa amarela, artigo analisa a degradação simbólica da bandeira nacional

Balão com a bandeira do Brasil próximo a sarjeta - Crédito: Ana Valéria Sodré

Por Florestan Fernandes Jr*

Poucas horas após a desclassificação da seleção brasileira, um balão com o maior de todos os símbolos nacionais, a bandeira do Brasil, apareceu caído no asfalto de uma rua de Guarapari, cidade turística no litoral do Espírito Santo.

Quis o destino que o balão caísse ao lado da sarjeta, passando aos pedestres a impressão de que a nossa bandeira estava perto de ser engolida pelo esgoto da cidade.

O acaso nos leva a uma reflexão. De certa maneira, aquela imagem demonstra o que acontece quando a nossa paixão coletiva e o sentimento patriótico se vinculam a algo que pouco ou nada tem a ver com a verdadeira noção de patriotismo.

Infelizmente, a camisa da seleção brasileira foi alçada à condição de símbolo da Nação por razões que dizem respeito a tudo, menos à qualidade do futebol ou à aderência aos valores de pertencimento e unidade que permeiam o próprio conceito de nação. Passou a servir, inclusive, à manipulação ideológica dos fascistas que tentaram um golpe de Estado.

Há anos, quem acompanha o esporte sabe o que aconteceu. Conhece o desleixo da CBF com o futebol brasileiro e sabe como a principal entidade do esporte no país foi instrumentalizada, servindo aos interesses políticos da ditadura militar. Foi nesse processo que o futebol deixou, gradualmente, de ser um valor para os dirigentes da CBF.

Nesse sentido, vale lembrar que, em maio de 2015, pouco antes de os bolsonaristas transformarem a camisa amarela em traje fascista, o todo-poderoso ex-presidente da CBF, José Maria Marin, foi preso, acusado de envolvimento em um megaesquema de corrupção, durante uma reunião anual da FIFA, em Zurique, na Suíça. As investigações, conhecidas como Fifagate, apuravam crimes de extorsão, fraude e lavagem de dinheiro, envolvendo mais de US$ 100 milhões em propinas relacionadas à comercialização e aos direitos de transmissão de torneios de futebol na América Latina, como a Copa América e a Copa do Brasil.

Marin cumpriu parte da pena na penitenciária do Brooklyn, em Nova York.

Como se pode constatar, a camisa da seleção brasileira já vinha, havia muito tempo, sendo enlameada pelos maiores representantes da própria CBF. Não por acaso, caiu como uma luva para o grupo de golpistas do 8 de Janeiro, todos condenados por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e dano qualificado mediante violência e grave ameaça. Já ali, a CBF deveria ter feito uma ação no sentido de impedir que a imagem da instituição e seu símbolo maior, a camisa da seleção, fossem envolvidos em atos criminosos. Mas nada fez, talvez por concordância ideológica e moral.

A saída da seleção brasileira da Copa do Mundo não poderia ser mais melancólica, tendo em Neymar, principal representante do bolsonarismo no futebol, a expressão de atitudes antidesportivas que envergonham o país. Ao ofender e agredir verbalmente os jogadores da Noruega após uma derrota mais do que justa, Neymar acabou desrespeitando não apenas os adversários, mas todos aqueles que amam o futebol, especialmente os grandes craques do passado, como Garrincha, Pelé, Gérson, Rivellino, Zico, Sócrates, Falcão e tantos outros que sabiam sair de cabeça erguida do campo, reconhecendo a derrota e as qualidades dos adversários.

*Jornalista - Fonte: Brasil247

04 julho 2026

Ameaça disfarçada - Projeto de lei da bancada ruralista usa agricultura familiar como pretexto para ampliar desmatamento

Em semana esvaziada no Congresso, deputados aprovam projeto que pode dar anistia de dois anos para grandes desmatadores

Área de floresta atingida por incêndios e convertida em pastagem em Rondônia, nas proximidades de Porto Velho. | Crédito: Rogério Assis/Greenpeace

Por Luís Indriunas*

No meio de uma semana esvaziada no Congresso Nacional, a bancada ruralista conseguiu avançar com mais uma ameaça à preservação ambiental e aos povos do campo. Dessa vez, com a desculpa de que vai proteger a agricultura familiar.

Numa sessão de apenas 39 minutos na quinta-feira (02), a Câmara dos Deputados aprovou o regime de urgência para o projeto de lei 2.898/2025, que altera a Lei dos Crimes Ambientais e estabelece um prazo de até 24 meses para que o infrator se regularize antes da aplicação de sanções. Ou seja, seria necessário esperar dois anos para serem aplicadas punições como apreensão de animais, produtos e equipamentos, destruição ou inutilização de produtos, suspensão da venda e da fabricação de produtos ou embargo das atividades ao desmatador.

Encabeçado pelo deputado federal Luiz Mosquini (MDB-RO), o projeto de lei foi apresentado sob pretexto de proteger a agricultura familiar, mas, na verdade, pode beneficiar grandes proprietários de terras e dar chance para mais violações, segundo a avaliação do Observatório do Clima.

“A agricultura familiar necessita ter atenção prioritária em termos de fomento a atividades ambientalmente sustentáveis. Não é isso que traz essa proposta. A agricultura familiar foi utilizada como argumento nesse projeto de lei para enfraquecer o controle dos órgãos do Sisnama [Sistema Nacional do Meio Ambiente], permitir a continuidade de práticas que constituem infração e inviabilizar a cessação dos danos ambientais. É mais uma afronta do Congresso contra o meio ambiente”, afirma Suely Araujo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima.

O deputado usa como parâmetro de pequenos agricultores propriedades com até 4 módulos fiscais. Os módulos fiscais são unidades de medida para as propriedades, fixados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que variam entre 5 hectares e 110 hectares, dependendo do município. Em algumas regiões, eles são bem grandes. No estado de Mosquini, Rondônia, um módulo é de 60 hectares. Assim, fazendas com até 240 hectares, ou 336 campos de futebol, seriam beneficiadas.

Em nota técnica, o observatório aponta ainda que, na prática, o PL “amplia significativamente o alcance da proposta e pode impedir o embargo de imóveis onde tenham ocorrido desmatamentos ilegais de grande extensão, favorecendo a continuidade da infração e aumentando o risco de novos desmatamentos”.

Para os críticos à proposta, a legislação já tem proteção para o pequeno agricultor. Na seção da Câmara, o deputado Helder Salomão (PT-ES) lembrou o decreto 6.514/2008, que estabelece que, no caso de áreas irregularmente desmatadas ou queimadas, o embargo não alcança as atividades de subsistência.

“Se flexibiliza uma legislação de maneira desnecessária sob o pretexto de proteger o pequeno agricultor, mas, para o pequeno, para subsistência, ele já está protegido.”

Mosquini e o ‘Pacote da Destruição’

A manobra feita pela bancada ruralista em plena Copa do Mundo se insere no chamado “Pacote da Destruição”, um conjunto de medidas legislativas para enfraquecer a legislação socioambiental brasileira em diversas frentes, dos agrotóxicos a terras indígenas. Mosquini, que é presidente de uma comissão da Frente Parlamentar da Agropecuária, sempre está à frente dessa constante pressão do agronegócio contra a pauta ambiental.

Em maio, na chamada “Semana do Agro”, o deputado tentou emplacar uma proposta que proibia embargos baseados exclusivamente em detecção remota de supressão de vegetação, ou seja, restringia a fiscalização por satélites, prática comum na vigilância dos órgãos ambientais. “É como não usar radar para controlar velocidade”, disse o coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo, ao Brasil de Fato.

O texto aprovado pela Câmara retirou a vedação direta, mas passou a exigir notificação prévia antes da aplicação de medidas cautelares, ou seja, uma manobra semelhante à que está sendo proposta agora, dando tempo para que o desmatamento prossiga.

O estado de Mosquini acumulou mais de 611 mil hectares de vegetação nativa perdidos desde 2019 e ostentou médias anuais de desmatamento acima de 100 mil hectares durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), político que o deputado apoia. A área desmatada caiu de 145 mil hectares em 2022, no último ano de Bolsonaro, para 15 mil hectares no ano passado.

O maior doador individual do deputado é o empresário e fazendeiro Sérgio Botelho Teixeira, sócio-diretor da Italac, que recebeu uma multa de R$ 5,5 milhões do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em dezembro de 2025 por desmatamento de reserva legal em uma fazenda no Tocantins. Desde 2018, Teixeira doou R$ 250 mil para campanhas eleitorais de Mosquini.

A unidade da Italac fica em Jaru (RO) e tem uma capacidade instalada de 1,3 milhão de litros, produzindo diversos derivados de leite, do composto lácteo ao doce de leite.

À BBC News Brasil, o deputado disse que não tinha conhecimento da multa aplicada à fazenda do empresário. A defesa de Teixeira disse que a multa aplicada pelo Ibama ocorreu devido a um engano em registros cadastrais da fazenda e que o assunto está sendo analisado pela Justiça Federal.

*Editado por: Gia Matheus Almeida - Fonte: BdF

01 julho 2026

Ato homenageia santiaguense vítima da ditadura e relembra lutas por direitos humanos em Santiago/RS*



Na noite do último sábado, 27/06,  o Espaço Strazzabosco, em Santiago/RS, recebeu um importante ato em homenagem póstuma à santiaguense Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones, uma das vítimas da ditadura civil-militar brasileira (que durou 21 longos anos). O encontro reuniu participantes de Santiago e Região para um momento de memória, reflexão e valorização da luta pelos direitos humanos.

A atividade integrou a programação do projeto Caminhos Revolucionários II, coordenado por Antônio Prestes Braga (Santo Ângelo) e Júlio Garcia (Santiago). O evento Caminhos Revolucionários II (que também foi realizado em Porto Alegre e São Leopoldo/RS) foi marcado por denúncias dos crimes praticados pela ditadura, por homenagens às vítimas da mesma (como foi o caso de Sônia) e debates sobre a importância da preservação da memória histórica.


Além da homenagem à santiaguense, o público acompanhou a exibição do documentário-ficção “Basílicia Sawicki”, que retrata a história da jovem missioneira argentina filha de imigrantes ucranianos sacrificada no início do século passado durante sua luta pelos direitos dos pequenos agricultores, resgatando um importante capítulo das lutas populares na América Latina. Na oportunidade, usaram da palavra Júlio César Schmitt Garcia e Antônio Prestes Braga (pelos Caminhos Revolucionários II) e Iara Chagas Castiel (representando a Comissão Executiva Municipal do PT).


O ato destacou a relevância de manter viva a memória daqueles que perderam a vida em defesa da democracia, da justiça social e dos direitos humanos, promovendo um espaço de reflexão sobre o passado e seus ensinamentos para as novas gerações.

O evento foi realizado no Espaço Cultural Strazzabosco e reuniu integrantes do projeto, convidados e membros da comunidade local e regional. 

*Com o site Santiago News

Lula sobe mais de 2 pontos e amplia liderança no 1º turno, mostra AtlasIntel

Principal adversário do presidente, Flávio Bolsonaro saiu de 39% em abril para 36,6% em junho

Presidente Lula e Flávio Bolsonaro - Crédito Ricardo Stuckert/Pr - Waldemir Barreto/Ag. Senado 

Por Guilherme Levorato*

O presidente Lula (PT) ampliou sua vantagem na disputa presidencial de 2026 e chegou a 46,3% das intenções de voto no principal cenário de primeiro turno testado pela AtlasIntel/Bloomberg. Principal adversário do presidente, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) saiu de 39% em abril para 36,6% em junho, segundo levantamento divulgado nesta quarta-feira (1º).

De acordo com os dados da AtlasIntel/Bloomberg, Lula avançou 2,3 pontos percentuais em relação à rodada de abril, quando aparecia com 44%. Já Flávio recuou 2,4 pontos no mesmo intervalo, reduzindo sua competitividade no primeiro turno.

No cenário estimulado, Renan Santos (Missão) aparece na terceira posição, com 7,8% das intenções de voto. Em seguida vêm Ronaldo Caiado (PSD), com 2,9%, Romeu Zema (Novo), com 2%, e Joaquim Barbosa (DC), com 1%. Aécio Neves (PSDB) soma 0,7%, Samara Martins (UP) tem 0,6%, Augusto Cury (Avante) registra 0,5%, Cabo Daciolo (Mobiliza) aparece com 0,2%, enquanto Rui Costa Pimenta (PCO) e Edmilson Costa (PCB) marcam 0,1% cada. Hertz Dias (PSTU) não pontuou.

Brancos e nulos somam 1,2%, enquanto 0,1% dos entrevistados disseram não saber em quem votariam. O resultado reforça a concentração da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, embora o crescimento de Renan Santos também tenha sido registrado pelo levantamento: ele passou de 5% em abril para 7,8% em junho.

A pesquisa também mediu o desempenho de Lula e Flávio por segmentos do eleitorado. O presidente atinge seu melhor resultado entre eleitores com 60 anos ou mais, faixa em que chega a 54,6%, e no Nordeste, onde registra 57,7%. Entre os eleitores que votaram em Lula em 2022, 88,4% afirmam que repetiriam o voto.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, apresenta melhor desempenho entre eleitores de 25 a 34 anos, segmento em que alcança 41,4%. O senador também tem seus melhores percentuais entre evangélicos, com 42,9%, no Sudeste, com 42,6%, e entre eleitores que votaram em Jair Bolsonaro em 2022, grupo no qual chega a 74,8%.

Nas simulações de segundo turno, Lula também aparece à frente de Flávio Bolsonaro. Segundo a AtlasIntel/Bloomberg, o presidente marca 48,8%, contra 42,3% do senador. Em maio, os dois estavam empatados numericamente com 48%, de acordo com o InfoMoney.

A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg ouviu 4.999 eleitores entre os dias 26 e 30 de junho. A margem de erro é de um ponto percentual, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-04582/2026.

*Fonte: Brasil247

26 junho 2026

COMPANHEIRA SÔNIA: PRESENTE!!!! -ATO EM SANTIAGO/RS SERÁ NESTE SÁBADO, dia 27/06

 


A história da professora  santiaguense Sônia Angel, trucidada pela ditadura aos 27 anos


Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones nasceu em 9 de novembro de 1946, em Santiago do Boqueirão, Estado do Rio Grande do Sul, filha de João Luiz Moraes e Cléa Lopes de Moraes.

Foi morta aos 27 anos em 1973, em São Paulo. Estudou no colégio de Aplicação da antiga Faculdade Nacional de Filosofia e, posteriormente, na Faculdade de Economia e Administração da UFRJ, mas não chegou a se formar, sendo desligada pelo Decreto nº477, de 24 de setembro de 1969.

No Rio, trabalhava como professora de Português no Curso Goiás.

Casou-se, em 18 de agosto de 1968, com Stuart Edgar Angel Jones, militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).

Em 1° de Maio de 1969, foi presa por ocasião das manifestações de rua na Praça Tiradentes/RJ com mais três estudantes, levada para o DOPS e, posteriormente, para o Presídio Feminino São Judas Tadeu. Somente foi libertada em 6 de agosto de 1969, quando foi julgada e absolvida por unanimidade pelo Superior Tribunal Militar. Passou a viver na clandestinidade.

Em maio de 1970 exilou-se na França, onde se matriculou na Universidade de Vincennes e, para se sustentar, trabalhou na Escola de Línguas Berlitz, em Paris, onde lecionava Português.

Com a prisão e desaparecimento de Stuart pelos órgãos brasileiros de repressão política, Sônia decidiu voltar ao Brasil para retomar a luta de resistência. Ingressou na ALN e viajou para o Chile, onde trabalhava como fotógrafa. Posteriormente, em maio de 1973, retornou clandestinamente ao Brasil, indo morar em São Paulo. Em 15 de novembro de 1973 alugou um apartamento em São Vicente, junto com Antônio Carlos Bicalho Lana, com quem se unira. Seu apartamento passou a ser vigiado, sendo presa, juntamente com Antônio Carlos, no mesmo mês, por agentes do DOI-CODI/SP, tendo o II Exército divulgado a notícia de que morrera, após combate, a caminho do hospital (O globo 1º de dezembro de 1973).

Foi assassinada sob torturas no dia 30 de novembro de 1973, juntamente com Antônio Carlos Bicalho Lana. (...) -

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* Nota do Editor: Tenho certeza de que a maioria dos nossos conterrâneos não tem conhecimento de quem foi a Sônia, essa jovem gaúcha trucidada em São Paulo aos 27 anos pelos torturadores a soldo da  odiosa ditadura militar. Esta postagem pretende auxiliar a recompor a verdade histórica e preencher essa lacuna existente na memória do nosso povo.
 
Santiago e o RS estão devendo (e por isso deveriam redimir-se, ainda que tardiamente) uma justa homenagem à esta sua filha, morta precocemente, e de forma tão infame e covarde. Jovem esta que demonstrou coragem, consciência política, determinação e amor ao seu povo - quando muitos vacilaram, se acovardaram ou mesmo traíram a Nação.  (Júlio Garcia)
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*Postado originalmente neste Blog em 22/01/2011.
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**Clique Aqui e Aqui para ler mais sobre Sônia no site do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ e no Wikipedia (também fontes da postagem acima).
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**Após o Ato em homenagem  póstuma à companheira Sônia, será exibido (no Espaço Strazzabosco) o documentário sobre a história da também jovem missioneira argentina  Basilícia Sawicki.  -Todos/as convidados/as!

Teresa Leitão assume liderança do governo com lista de desafios no Senado

Nova líder do governo no Senado terá de destravar pautas de Lula, conter projetos de impacto fiscal e reconstruir diálogo com Alcolumbre

Teresa Leitão (Foto: Carlos Moura/Agência Senado)

Por Guilherme Levorato*

A senadora Teresa Leitão (PT-PE) assume a liderança do governo Lula (PT) no Senado em um momento de forte pressão política para destravar pautas de interesse do Planalto, conter projetos com alto impacto fiscal e recompor a interlocução com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). A nova líder do governo no Senado terá de atuar em meio a um calendário apertado, à proximidade das eleições e ao desgaste entre o governo e a cúpula do Senado, relata o jornal O Globo.

Teresa foi escolhida por Lula para substituir Jaques Wagner (PT-BA), que deixou a função após ser alvo de uma operação da Polícia Federal relacionada às investigações sobre o Banco Master. A nomeação da senadora foi anunciada na quinta-feira (25), em uma tentativa do governo de reorganizar sua articulação na Casa Alta diante de votações consideradas estratégicas pelo Planalto.

Eleita em 2022, Teresa Leitão preside atualmente a Comissão de Educação e Cultura do Senado. Seu nome já era citado nos bastidores por um fator considerado relevante pelo governo: ela não disputará as eleições deste ano, o que, na avaliação de aliados, pode permitir dedicação maior à articulação parlamentar. A escolha de uma mulher para o posto também foi interpretada como um gesto político de Lula a um segmento importante da base petista.

Apesar disso, a nova líder encontrará resistências e limitações. Integrantes da base governista reconhecem que Teresa não tem a mesma capilaridade política de Jaques Wagner entre as bancadas e tampouco mantém relação tão próxima com Alcolumbre. Um ministro do governo, porém, minimiza eventuais dificuldades e sustenta que a senadora tem boa interlocução com o presidente do Senado. Já um aliado de Alcolumbre afirma que a relação entre os dois é apenas cordial, semelhante à mantida com outros parlamentares.

Nesse cenário, o ministro José Guimarães (PT), da Secretaria de Relações Institucionais, deve concentrar esforços no Senado para reforçar a articulação do governo junto à cúpula da Casa. A avaliação no Planalto é que a Câmara dos Deputados já aprovou temas de interesse do Executivo e que o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), mantém uma relação mais próxima com Lula.

Ao oficializar a escolha de Teresa Leitão, Lula afirmou que a senadora terá a missão de conduzir a articulação em torno de projetos “de interesse da população brasileira que estão em tramitação”. Entre as prioridades citadas pelo governo estão a PEC do fim da escala 6x1 e a PEC da Segurança Pública, ambas consideradas bandeiras relevantes da atual gestão.

Além dessas propostas, o Planalto também busca avançar com o projeto sobre minerais críticos. O tema ganhou peso adicional diante das ameaças do governo dos Estados Unidos de impor novas sanções a produtos brasileiros. Para o Executivo, a discussão sobre minerais estratégicos tem relevância econômica e geopolítica, especialmente em um contexto de disputas comerciais internacionais.

O principal obstáculo para a agenda do governo, no entanto, é a relação estremecida entre Lula e Alcolumbre. O afastamento ocorreu após a rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). No Planalto, a leitura é que Alcolumbre teve papel central na derrota imposta ao presidente, considerada um revés político significativo.

Desde então, interlocutores foram mobilizados para tentar reconstruir pontes entre os dois. Entre os nomes escalados estão José Guimarães, Hugo Motta, o ministro da Defesa, José Múcio, e o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP). Até o momento, porém, não houve avanço concreto. Embora Lula tenha sinalizado disposição para um encontro, aliados afirmam que ainda não há ambiente político favorável para uma conversa direta.

O tempo também joga contra o governo. O Planalto quer aprovar as principais propostas ainda antes do recesso parlamentar, que começa oficialmente em 18 de julho. A partir de agosto, a tendência é de esvaziamento do Congresso, com deputados e senadores mais voltados às bases eleitorais. Para o governo, votar temas de grande alcance nacional antes desse período permitiria transformar as medidas em vitrines políticas da gestão Lula.

Além de tentar destravar projetos prioritários, Teresa Leitão terá de trabalhar para impedir o avanço das chamadas pautas-bomba, propostas com potencial de elevar fortemente os gastos públicos. No dia 10, o Senado aprovou ou avançou com três matérias que, segundo cálculos do governo federal, podem gerar impacto fiscal de cerca de R$ 300 bilhões.

Entre os textos que preocupam o Planalto estão propostas de renegociação de dívidas rurais, aumento do piso salarial de médicos e aposentadoria especial para enfermeiros. A movimentação contrariou a equipe econômica e acendeu o alerta dentro do governo sobre o risco de novas derrotas em ano eleitoral.

Na semana passada, Alcolumbre também anunciou a votação de outra proposta considerada sensível pelo Executivo: uma PEC que cria aposentadoria especial para agentes de saúde. A tarefa da nova líder, segundo senadores, será ganhar tempo para que o governo apresente alternativas, negocie ajustes ou construa um acordo capaz de reduzir o impacto fiscal das medidas.

A equipe econômica já indicou que poderá recorrer ao Supremo para tentar barrar o avanço de propostas consideradas incompatíveis com a responsabilidade fiscal. A judicialização, no entanto, é vista como uma saída extrema, enquanto a articulação política segue como caminho preferencial para evitar novas derrotas no Congresso.

Outro desafio imediato para Teresa Leitão será a tramitação de Medidas Provisórias. Atualmente, 34 MPs estão em análise no Congresso, muitas delas sem sequer a instalação das comissões mistas responsáveis por examinar os textos antes da votação na Câmara e no Senado. A lentidão nesse processo ameaça a validade de medidas importantes para o governo e amplia a pressão sobre a nova líder.

A chegada de Teresa ao posto ocorre, portanto, em um dos momentos mais delicados da relação entre o Planalto e o Senado. Com pautas estratégicas paradas, risco fiscal crescente e um canal ainda fragilizado com Davi Alcolumbre, a senadora terá de combinar negociação política, capacidade de contenção e articulação interna para tentar reorganizar a base governista na Casa.

*Fonte: Brasil247

25 junho 2026

'Provar a inocência' - Jaques Wagner anuncia saída da liderança do governo no Senado

Senador baiano afirma que decisão foi tomada em comum acordo durante reunião com Lula, e que provará sua inocência*

O senador Jaques Wagner. | Crédito: Lula Marques/Agência Brasil


O senador Jaques Wagner (PT-BA) anunciou nesta quarta-feira (24) sua saída do cargo de líder do governo no Senado, após uma reunião de cerca de duas horas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em mensagem nas redes sociais, disse que irá provar sua inocência e dedicar-se à reeleição.

“Acabei de ter uma ótima reunião com o presidente Lula, uma conversa entre amigos, e decidimos, em comum acordo, que me afastarei da liderança do Governo no Senado Federal. Neste momento, minha prioridade absoluta é provar minha inocência e me dedicar à reeleição do presidente Lula e do governador Jerônimo, além da minha reeleição junto com Rui Costa para o Senado. Juntos, com humildade e muito trabalho, renovaremos nosso compromisso com o projeto coletivo que vem mudando a Bahia e o Brasil.”

A saída do senador aconteceu dias após Wagner ser alvo da 9ª fase da Compliance Zero, que investiga um esquema bilionário de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master. Endereços ligados ao senador em Salvador (BA) e Brasília foram alvos de mandados de busca e apreensão na quinta-feira (18).

Segundo a investigação, o senador é próximo do banqueiro Augusto Lima, o Guga Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro e proprietário do Banco Pleno, que também foi liquidado pelo Banco Central (BC) e tem ligações com o Master. Foram encontrados R$ 471 mil em dólares e euros no quarto do hotel onde Wagner estava hospedado em Brasília.

Para a Bandnews, Wagner disse que o dinheiro era de diárias do Senado. Em relação a Guga Lima, o senador disse que pediu ao banqueiro que comprasse o apartamento para, depois, recomprar o imóvel, que seria para sua filha, mas que não houve a transferência do imóvel para ele. 

*Redação do BdF - Editado por: Gia Matheus Almeida 

23 junho 2026

Juliana Brizola lidera corrida ao Piratini, aponta pesquisa Real Time Big Data

Candidata aparece com 37% das intenções de voto, cinco pontos à frente de Luciano Zucco; em segundo turno, há empate técnico

Juliana Brizola (PDT) e Zucco (PL). Fotos: Divulgação/Juliana Brizola e Marina Ramos/Câmara dos Deputados

A candidata Juliana Brizola (PDT) aparece na liderança da disputa pelo governo do Rio Grande do Sul, segundo pesquisa do Instituto Real Time Big Data. Na simulação de primeiro turno, ela registra 37% das intenções de voto, cinco pontos percentuais à frente do deputado federal Luciano Zucco (PL), que soma 32%.

Na sequência, aparecem Gabriel Souza (MDB), com 18%, e Marcelo Maranata (PSDB), com 3%. Os votos nulos e brancos representam 5%, mesmo percentual dos entrevistados que não souberam ou preferiram não responder.

O levantamento também testou seis cenários de segundo turno. No confronto considerado mais provável neste momento, entre Juliana Brizola e Luciano Zucco, a candidata do PDT mantém vantagem numérica, aparecendo com 44% contra 41%. No entanto, o resultado configura empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Outros 7% disseram que votariam em branco ou nulo e 8% disseram não saber.

A pesquisa aponta ainda que Juliana e Zucco venceriam Gabriel Souza. A pedetista teria 47% contra 35% do emedebista, enquanto Zucco teria 42% contra 37% de Gabriel.

A Real Time Big Data entrevistou 1,6 mil pessoas entre os dias 20 e 22 de junho. A pesquisa foi registrada no TSE sob o código RS-07063/2026.

*Com informações da Carta Capital.

**Via Sul21

19 junho 2026

Stuart Angel terá diploma póstumo pela UFRJ

Estudante morto pela ditadura receberá homenagem da UFRJ em cerimônia no dia 7 de julho*

Stuart Angel terá diploma póstumo pela UFRJ (Foto: Reprodução)

Stuart Angel Jones, estudante de economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) morto por agentes da ditadura militar, será homenageado com um diploma póstumo em cerimônia marcada para 7 de julho, às 16h30, no salão dourado da instituição, 55 anos após seu desaparecimento político, informa a Folha de São Paulo.

O anúncio foi feito pelo centro acadêmico que leva o nome de Stuart Angel, aluno do Instituto de Economia da UFRJ. A homenagem busca reconhecer simbolicamente uma trajetória interrompida pela repressão do regime militar, que impediu o jovem de concluir a graduação após ser sequestrado e morto em maio de 1971, aos 25 anos.

A imagem usada para divulgar a diplomação mostra Stuart sorridente, com o braço direito erguido e segurando um canudo de formatura. A cena, no entanto, nunca ocorreu. O estudante foi impedido de concluir o curso depois de ser capturado por agentes da repressão durante o período da ditadura militar, que vigorou entre 1964 e 1985.

Stuart Angel era militante do MR-8, organização armada de resistência ao regime militar, e se tornou um dos desaparecidos políticos mais conhecidos do país. Sua história ganhou repercussão nacional e internacional sobretudo pela atuação de sua mãe, a estilista Zuzu Angel, que denunciou repetidamente a morte do filho e a ocultação de seu corpo.

A irmã de Stuart, a jornalista Hildegard Angel, comentou a homenagem nesta sexta-feira (5) e lembrou que o estudante não pôde completar sua formação universitária por causa da violência de Estado. “Como tantos outros estudantes naqueles anos sombrios, ele não pode concluir seus estudos”, afirmou.

Ao compartilhar a notícia da diplomação póstuma, Hildegard também recordou que Stuart foi assassinado na Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro. Segundo ela, a família segue sem saber o paradeiro dos restos mortais do jovem, “se em terra ou se no mar”.

O caso de Stuart Angel foi relatado à Comissão Nacional da Verdade em 2014 pelo ex-guerrilheiro Alex Polari. De acordo com o depoimento, Stuart foi submetido a tortura até a morte para que revelasse o paradeiro de Carlos Lamarca, ex-capitão do Exército e líder da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).

Segundo o relato apresentado à comissão, Stuart teve a boca amarrada próxima ao escapamento de um jipe que circulava no pátio da prisão, sendo forçado a inalar gás carbônico. O episódio tornou-se um dos símbolos da brutalidade da repressão contra opositores políticos durante a ditadura militar.

Somente em 2019 a morte de Stuart Angel passou a constar oficialmente em seu atestado de óbito como “não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistêmica e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985”.

A ausência de informações sobre o corpo do filho levou Zuzu Angel a transformar sua dor em denúncia pública. A estilista procurou autoridades brasileiras e estrangeiras, concedeu entrevistas e levou às passarelas desfiles que chamavam atenção para o desaparecimento de Stuart.

A busca de Zuzu por respostas também foi retratada na música “Angélica”, composta por Chico Buarque e Miltinho um ano depois da morte da estilista, em 1976. Um dos versos da canção afirma: “Só queria embalar meu filho, que mora na escuridão do mar”.

O anúncio da diplomação póstuma foi feito na data em que Zuzu Angel completaria aniversário. Ela nasceu em 5 de junho de 1921 e morreu em um acidente posteriormente atribuído a agentes da ditadura.

Antes de morrer, Zuzu entregou a Chico Buarque um bilhete no qual responsabilizava os mesmos autores da morte de Stuart por qualquer atentado contra sua vida. “Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”, escreveu.

Em agosto do ano passado, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ligada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, entregou à família de Zuzu Angel a certidão de óbito retificada da estilista. O documento passou a informar que sua morte também foi violenta e causada pelo Estado brasileiro.

Para Hildegard Angel, a homenagem a Stuart na UFRJ reafirma a necessidade de preservar a memória das vítimas da ditadura e de manter a busca por respostas sobre os desaparecidos políticos. “Aquele período de chumbo continua a assombrar nossas vidas e a memória do país”, disse.

A irmã de Stuart também afirmou que os sobreviventes carregam a responsabilidade de seguir cobrando verdade e localização dos restos mortais das vítimas. Para ela, “os que ficaram, os que esqueceram de matar”, têm o compromisso de continuar buscando a verdade e os restos mortais dos desaparecidos.

*Fonte:  Brasil247

...

**Stuart Angel Jones era casado com a jovem Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones, também presa, torturada e assassinada pela ditadura civil-militar em 1973. Sônia (que era santiaguense) será homenageada em Ato a ser realizado no dia 27 de junho (sábado), às 18,30 horas, no Espaço Cultural Strazzabosco, em Santiago/RS. (Nota deste Editor). 

18 junho 2026

Dois pesos e duas medidas: Wagner é massacrado enquanto Flávio Bolsonaro e Ibaneis seguem blindados

Autorizada por André Mendonça, operação da PF levanta dúvidas sobre critérios de investigação e o uso político do sistema de justiça

Dinheiro apreendido no hotel em que Wagner mora: espetáculo da PF, mas o senador tem explicação plausível (Foto: Polícia Federal)


Por Joaquim de Carvalho*

A operação da Polícia Federal que teve como alvo o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado, produziu um forte impacto político e midiático. Não apenas pela relevância institucional do parlamentar, um dos principais articuladores do governo no Congresso, mas também pelos elementos conhecidos até agora da investigação.

Pelo que foi divulgado da decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, não teria sido apontado um ato de ofício praticado por Jaques Wagner em benefício do Banco Master ou de qualquer outro interessado. Trata-se de um dado relevante. Em investigações envolvendo agentes públicos, a demonstração de uma contrapartida concreta vinculada ao exercício do cargo costuma ser elemento essencial para caracterizar eventual favorecimento indevido.

Isso não significa que a investigação não deva prosseguir ou que novos fatos não possam surgir. Significa apenas que, até o momento, o debate público parece ter sido influenciado mais pelo impacto visual da operação do que pela apresentação de elementos objetivos contra o senador.

As imagens dos dólares e euros apreendidos em um cofre utilizado por Wagner em Brasília ganharam destaque nacional. As cédulas organizadas em fileiras produziram o efeito simbólico desejado por qualquer operação de grande repercussão: a associação imediata entre dinheiro em espécie e suspeita de irregularidade.

Mas o espetáculo visual não substitui a prova.

A explicação apresentada pelo senador é, ao menos em tese, plausível e verificável. Segundo sua defesa, os 55 mil dólares e 33 mil euros encontrados pela Polícia Federal correspondem a diárias recebidas do Senado Federal para missões oficiais no exterior. Como as despesas teriam sido realizadas com cartão de crédito, os valores não foram utilizados e permaneceram guardados. Wagner afirma possuir documentação capaz de comprovar a origem legal dos recursos.

O mesmo ocorre em relação ao apartamento mencionado na investigação. O senador sustenta que o imóvel jamais integrou seu patrimônio e afirma que a proposta apresentada a Augusto Lima envolvia a aquisição de uma unidade ainda em construção para posterior recompra por sua filha.

São alegações defensivas que precisarão ser confrontadas com as provas. 

Outro aspecto chama atenção. A investigação parece buscar conexões com fatos ocorridos muito antes do surgimento do próprio Banco Master. A privatização da rede Cesta do Povo, por exemplo, ocorreu em 2017. O Banco Master só seria criado dois anos depois, em 2019. A distância temporal entre os eventos não impede investigações, mas suscita questionamentos sobre a centralidade desses fatos dentro de um caso que tem origem em operações financeiras muito mais recentes.

E é justamente nesse ponto que surge uma pergunta incômoda.

Existem episódios contemporâneos e diretamente relacionados ao universo financeiro do Banco Master que, ao menos aparentemente, teriam prioridade investigativa. O principal deles envolve as operações entre o banco e o BRB, que alcançaram cifras bilionárias e geraram enorme repercussão pública, incluindo questionamentos sobre ativos de alto risco e negócios estimados em cerca de R$ 12 bilhões.

Entretanto, não se viu até agora o mesmo aparato ostensivo direcionado a personagens políticos associados a essas operações.

A comparação é inevitável. O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, não foi alvo de buscas ou medidas semelhantes. Tampouco houve operação de igual repercussão envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, apesar da divulgação de mensagens e áudios relacionados a pedidos de apoio financeiro para o filme Dark Horse, produção sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Evidentemente, a simples diferença de tratamento não prova perseguição política. Mas a ausência de critérios aparentes e uniformes alimenta dúvidas legítimas.

Numa democracia, a credibilidade das instituições depende não apenas da legalidade de seus atos, mas também da percepção de imparcialidade. Quando determinados agentes públicos são submetidos a operações de alto impacto midiático e outros personagens ligados ao mesmo ambiente de interesses permanecem fora do foco ostensivo, abre-se espaço para questionamentos sobre seletividade.

Talvez seja injusto concluir que exista motivação política. Mas também seria ingênuo ignorar que a política brasileira está repleta de investigações que, ao longo da história recente, produziram efeitos políticos antes mesmo de produzirem sentenças.

A própria nota divulgada pela assessoria de Jaques Wagner procura enfatizar esse aspecto ao lembrar que o senador "não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados". A defesa também afirma que "o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio do parlamentar" e que os valores apreendidos são "fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais".

A palavra final caberá à Justiça.

Mas a política não espera o fim dos processos.

Por essa razão, Jaques Wagner deveria considerar um afastamento temporário da liderança do governo no Senado. Não como admissão de culpa, mas como gesto de responsabilidade institucional. O precedente existe. Em 1993, o então ministro-chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves, acertou com o presidente Itamar Franco seu licenciamento do cargo para dedicar-se integralmente à própria defesa diante de denúncias que surgiram contra ele. A lógica era simples: preservar o governo enquanto os fatos eram esclarecidos. Posteriormente inocentado, Hargreaves retornou ao cargo com sua reputação restabelecida.

O mesmo raciocínio poderia ser aplicado agora.

Se Jaques Wagner está convicto de sua inocência — e sua nota pública demonstra essa confiança —, um afastamento temporário da liderança lhe permitiria concentrar-se na apresentação de documentos e esclarecimentos, sem transferir ao governo Lula o desgaste político decorrente da investigação.

A presunção de inocência deve ser preservada. Mas a prudência política também é uma virtude republicana.

Num momento em que pairam dúvidas não apenas sobre os fatos investigados, mas também sobre os critérios adotados para investigar, a melhor resposta talvez seja aquela que fortalece simultaneamente a defesa do senador e a estabilidade do governo: transparência, serenidade e um afastamento temporário até que a verdade prevaleça.

*Jornalista - Fonte: Brasil247

**Leia também: Governo não irá "botar nada para debaixo do tapete", diz Guimarães sobre ação da PF que teve Jaques Wagner como alvo

14 junho 2026

Alcolumbre e bolsonaristas sabotam tramitação da PEC pelo fim da escala 6×1 no Senado


Por Milton Alves*

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), opera abertamente para atrasar a tramitação da PEC que acaba com escala 6×1. Para levar a cabo o seu intento nefasto, Alcolumbre tem o apoio dos senadores bolsonaristas e do Centrão corrupto.

Até o momento, Alcolumbre não tomou as medidas necessárias para fazer andar a PEC no Senado, como reunir as lideranças partidárias para combinar o rito da tramitação e despachar o texto para o exame e deliberação da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Segundo reportagem da Agência Brasil, o presidente da CCJ, senador Otto Alencar (PSD-BA), disse que não recebeu informação sobre a data de envio da PEC à Comissão. Uma reunião entre Otto e Alcolumbre, prevista para esta semana, foi desmarcada pelo presidente do Senado. 

No entanto, Alcolumbre enviou à CCJ a PEC apresentada pelos bolsonaristas – e elaborada pelas federações patronais – contra o fim da 6×1, uma proposta que mantém a atual escala de trabalho e implanta a contratação por hora trabalhada, violando os dispositivos de proteção contidos na CLT.

Alcolumbre manobra para ganhar tempo na tentativa de esvaziar a PEC do governo Lula e até mesmo adiar a votação do projeto para depois das eleições de outubro. Ele faz o seu jogo sujo de olho no calendário legislativo, o recesso no Senado tem início no dia 18 de julho.

A aprovação da PEC pelo fim da escala 6×1 na Câmara dos Deputados foi resultado da mobilização social nas redes, das ações de rua do movimento VAT (vida Além do Trabalho), das audiências públicas nos parlamentos municipais e estaduais e dos atos organizados pelos sindicatos.  Ou seja, foi a combinação das diversas formas de pressão e de luta que obrigou a maioria da Câmara aprovar o projeto.

A sabotagem de Alcolumbre, de Rogerio Marinho (PL) e Flávio Bolsonaro (PL), a serviço do patronato reacionário e escravista, teve início no dia seguinte da vitória dos trabalhadores na Câmara dos Deputados.

Na verdade, Alcolumbre escalou a proposta dos patrões e da extrema direita para embaralhar o processo e travar a aprovação da PEC do fim da 6×1, garantindo a continuidade da atual jornada de trabalho e a superexploração da classe trabalhadora.

A saída para garantir a conquista obtida na Câmara (5×2, redução da jornada de 44 horas para 40 horas semanais, e sem redução de salário) só será possível com a pressão organizada dos trabalhadores e dos sindicatos.

Nos próximos dias, a tarefa é ganhar as ruas, intensificar as atividades nas portas de fábricas e nas redes sociais pelo fim da escala 6×1.

Nesta sexta-feira (12), a revista semanal Veja apresentou a denúncia que o senador Davi Alcolumbre recebeu a mega propina de R$ 155 milhões de reais do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, engrossando o escândalo BolsoMarster.

O repasse dessa montanha de dinheiro foi descoberto pela Polícia Federal no curso das investigações do caso, que envolve as principais lideranças políticas do bolsonarismo – como Flávio Bolsonaro – e do Centrão, Ciro Nogueira e Davi Alcolumbre, entre outros propineiros do baixo clero.

Resta saber, o nível do impacto político da denúncia na agenda do Senado. De toda forma, é ampliar a pressão sobre o Congresso inimigo do povo.

*Milton Alves é membro do Comitê Nacional do DAP Associação e membro do Diretório Estadual do PT-PR - Fonte: site do DAP Nacional