Liderança candomblecista fala sobre fé, acolhimento e uso político de determinadas religiões
Ritual de candomblé | Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil
*Brasil de Fato - BdF - O candomblé, religião de matriz africana baseada no culto aos orixás, traz, no Brasil de hoje, a resistência de um povo, a preservação cultural e a ancestralidade da África. É, no entanto, e também por isso, alvo de muito preconceito, racismo religioso e episódios de perseguição contra quem professa essa fé.
No BdF Entrevista desta sexta-feira (8), o babalorixá, escritor e doutor em semiótica Sidney Nogueira discute o papel do candomblé na sociedade contemporânea, fala sobre a herança religiosa africana, racismo religioso e a ameaça de uma teocracia cristã fundamentalista no Brasil. “Ser de terreiro é um ato revolucionário”, afirma.
Nogueira conta quem é e qual a função de um babalorixá dentro do terreiro de candomblé. “Babalorixá é uma palavra iorubá. Então, babá é pai, olô é dono, possuidor, e orixá são os nossos ancestrais míticos. O babalorixá é um sujeito institucional, ele é essa liderança, ele é um orientador, e eu gosto de pensá-lo também como um guardião dos saberes ancestrais. Então, ele guarda saberes e usa esses saberes para a produção de uma vida feliz, de uma vida abundante, de uma vida com saúde, de uma vida com alegria, de uma vida com esperança”, explica.
O babalorixá avalia que a internet, repleta de conteúdos diversos sobre as mais diferentes religiões, incluindo as de matriz africana, é um território de disputa que não pode ser ignorado. “Eu penso que o desafio é conscientizar as lideranças de que nós estamos no século 21. A gente não está mais no século 18, no século 19. A gente está no século 21. Não adianta a gente achar que vai disputar narrativa se não estiver nos espaços onde o jovem está. Os estudantes, na verdade, todas as pessoas estão no mundo virtual”, afirma.
Para ele, essa disputa de narrativa é também potencial para combater situações de intolerância e racismo religioso. “Eu percebo, por exemplo, na minha plataforma do Instagram, o quanto eu consegui com aqueles conteúdos com a minha linha editorial didático-pedagógica. Ela não é uma linha de denúncia, de apontamento do que é certo e do que é errado. Eu percebo o quanto essa produção no Instagram ‘dessataniza’ não só Exu, como toda a nossa estrutura religiosa”, pondera. “Na minha cabeça, o desafio é que mais pessoas venham comigo nessa jornada.”
Sidney Nogueira também avalia o atual momento do uso político de determinadas religiões e de relação de parte dos evangélicos com a extrema direita, ocupando, inclusive cargos públicos. “Nós temos um momento de muita dispersão e de uso político da religião. E desse uso político que nós falamos anteriormente, de uma religião que quer aprisionar, que quer encarcerar, que quer dizer na nossa vida privada o que é bom para nós e o que é ruim. Como se nós fôssemos crianças incapazes de fazer escolhas para a nossa própria vida. E isso não é real. O que mais me incomoda nas religiões hegemônicas, no proselitismo e no fundamentalismo, é a produção desse discurso de ódio, desse discurso hierarquizante do que presta e do que não presta, do que é bom e do que é ruim, do que é Deus e do que é demônio.

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