Por Marcelo Zero*
A Copa do Mundo nos EUA de Trump já vinha se mostrando uma aberração esportiva e geopolítica.
No início do ano, a Europa já se mostrava contrária a realização da Copa nesse país, em razão das ameaças de anexação da Groenlândia, das dissensões em relação à Otan, dos tarifaços politicamente motivados, do racismo do ICE, da xenofobia geral do governo Trump etc.
Agora, entretanto, o caldo entornou.
A reversão da punição de um jogador estadunidense, conseguida por Trump com um simples telefonema para Infantino, demonstrou o grau de submissão canina da Fifa ao governo Trump e a incomensurável corrupção de ambos.
A Copa, na realidade, se tornou uma metáfora de um mundo assolado pela violência e pela corrupção de um império decadente.
As relações internacionais se tornaram uma espécie de “mata-mata”, no qual os EUA têm de ganhar sempre por quaisquer meios, lícitos ou ilícitos.
Se tiver de ganhar roubando, comprando o juiz, fazendo insultos racistas, impondo logísticas punitivas (como fizeram com o Irã) ou quebrando a perna dos outros, que seja. “Var” só se for com deep fake feito com IA. E cartões amarelos e vermelhos só valem para os outros.
Só há espaço para um vencedor; os outros, os mais débeis, têm de ficar pelo caminho, frequentemente tendo de aguentar humilhações racistas, como aconteceu, impunemente, no jogo entre Argentina e Egito.
E há uma ironia amarga em toda essa história. O espetáculo, o talento, vêm de imigrantes do Sul Global, mas os louros são apropriados pelo Ocidente.
Os louros e também o dinheiro, que fica com a Fifa e com as grandes companhias patrocinadoras, isso sem falar na jogatina desavergonhada das “bets”.
O Império e a Fifa se complementam. Têm natureza autoritária e corrupta semelhante.
Essa Copa cara, racista, xenófoba e corrupta, transmite ao mundo a ideia de que esporte não deve estar associado à paz, ao respeito às regras, à diversidade e à inclusão, mas sim ao contrário: à violência real e simbólica, à exclusão, a um mundo hobbesiano no qual o grande valor é a força e a “vitória” a qualquer custo, como a distopia que Trump quer impor ao planeta, com o aplauso dos nossos traidores.
Não se poderia esperar outra coisa de uma Copa Trump-Infantino.
Uma Copa tão grotesca e farsesca quanto o prêmio da paz concedido por Infantino a Trump.
*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais - Fonte: Viomundo
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