13 setembro 2026

OPINIÃO* - Direita brasileira em crise

A construção de uma alternativa requereria um aceno do Bolsonaro de que abandonaria o Flávio e apontaria outro nome, perspectiva sobre a qual não há, até agora, nenhum indício

Por Emir Sader*

Foi tudo muito rápido, entre as declarações eufóricas de Flávio Bolsonaro, apoiado em pesquisas que lhe eram favoráveis, já quase como futuro presidente do Brasil, e a situação atual.

A abertura de todos os arquivos ligados ao caso do Master trouxe novas denúncias, ainda mais graves, sobre as relações do Flávio com o Vorcaro e as informações sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, com, entre outras, as denúncias evidentes do desvio de dinheiro para o irmão do Flávio nos Estados Unidos.

Até que se chegasse a um editorial do Estadão em que se afirma que Flávio não teria mais condições de ser candidato à presidência da república. Além de outras dissidências na direita, entre elas a declaração de Cury que, segundo pesquisas, teria 8%, de que não apoiará o Flávio em um eventual segundo turno. A própria incapacidade de Flávio para conseguir receber apoio de pelo menos um partido da direita ou da extrema direita já revelava o seu isolamento político.

Haveria margem para a mudança do candidato? Haveria poucos dias, só até o dia 16, para mudar o candidato. É pouco tempo para que o pai do Flávio mudasse sua preferência, sempre reafirmada, por esse seu filho. E, considerando que a direita aderiu ao bolsonarismo, está prisioneira dessa adesão e, em especial, às preferências do Bolsonaro, que até aqui não mostrou nenhum sinal de que poderia mudar de opinião.

Tarcísio, que poderia ter mais força como candidato, já foi descartado por Bolsonaro, que prefere alguém da família. A Michelle foi duramente atacada pelo Flávio, temendo que ela pudesse ser escolhida pelo pai como candidata alternativa. A reaparição dela mostrou que ela poderia ser uma candidata sem as acusações – até aqui, pelo menos – do Flávio e certa frescura como imagem, também pelo trabalho que ela fez entre as mulheres, onde o Lula tem sua mais alta preferência.

As alternativas da direita, nessas condições, não tem tu, vai tu mesmo: permanecer com o Flávio, apesar de tudo, mesmo considerando que o seu desgaste na opinião pública e nas pesquisas deve se refletir negativamente nas pesquisas.

Depois de pesquisas que davam resultados favoráveis a ele, surgiu uma pesquisa do Datafolha que retomava a liderança do Lula, brecando a euforia do Flávio e dos bolsonaristas.

A construção de uma alternativa requereria um aceno do Bolsonaro de que abandonaria o Flávio e apontaria outro nome, perspectiva sobre a qual não há, até agora, nenhum indício.

Uma mudança de candidato, que tem esse obstáculo no lado do bolsonarismo, tem também a dificuldade de que vários dos pequenos candidatos se assanhariam com a perspectiva de que herdassem votos do Flávio, em queda. Mesmo o Cury, que aparece com mais votos nas pesquisas, com declarações desastrosas, em especial sobre as mulheres, teria muitas dificuldades para reunificar a direita.

Com esse novo cenário, em que as hostes do Lula reconquistam a confiança, a direita brasileira está em uma sinuca de bico. Com prazo curto para tomar decisão e sem um comando – que só poderia ser do Bolsonaro, que até aqui não demonstra mudar de opinião – é provável que o cenário atual se consolide, com a reiteração das últimas denúncias, muito pesadas para o Flávio.

A mais provável perspectiva, então, é a consolidação da liderança do Lula nas pesquisas e o desgaste da candidatura do Flávio, a poucas semanas do primeiro turno.

*Colunista do 247 (fonte desta postagem), Emir Sader (foto acima) é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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