01 novembro 2026

Porto Alegre: deu pra ti, baixo astral*

Há uma dinâmica social em curso na Capital que evidencia que as condições políticas para a construção de uma alternativa democrática e popular estão maduras


   Foto: Marcelo Pires/Sul21

Por Gerson Almeida (*)

As sucessivas vitórias de Lula na cidade de Porto Alegre mostram que estão maduras as condições para a construção de uma alternativa política que supere os mais de 20 anos de governos neoliberais à frente da prefeitura. Desde a última administração popular, em 2005, o orçamento da cidade voltou a ser capturado pelos interesses de grandes grupos econômicos e a população foi afastada da definição das prioridades de investimentos. O resultado foi uma inversão no processo de universalização do acesso aos serviços urbanos básicos, educação de qualidade, moradia digna, políticas avançadas de gestão ambiental e de assistência social.

Isso fica evidente na queda acentuada dos indicadores sociais na cidade, como demonstrado no relatório do Índice de Progresso Social do Brasil (IPS), que avalia a capacidade da sociedade de atender às necessidades humanas básicas, garantir qualidade de vida e ampliar oportunidades para que todos os indivíduos possam atingir seu potencial.

A outrora cidade, orgulhosa da sua qualidade de vida, rola ladeira abaixo e disputa os humilhantes últimos lugares em inclusão social (5526 de 5570 municípios), moradia (4.649), segurança pessoal (4.464) e acesso ao conhecimento básico (4.627). Isso avalia a educação no município antes do Ensino Superior (Sul21, 20/05/26).

No ranking do Instituto Trata Brasil sobre saneamento básico, um indicador universalmente reconhecido como fundamental para medir a qualidade de vida da população, a trajetória de Porto Alegre é de acentuada queda: em 2016, a cidade ocupava a 38ª posição e mergulhou para a 63ª posição, em 2026, regredindo em todos os indicadores, como coleta de esgoto, perda de água tratada, investimentos baixos, etc. Essa decadência social e ambiental da cidade é um fator decisivo para o deslocamento eleitoral dos porto-alegrenses, que tem dado repetidas vitórias ao presidente Lula.

Neste segundo turno (2026), Lula obteve o seu maior percentual de votação (55,84%) e a sua votação absoluta recorde (456.019 votos), mostrando um crescimento consistente.

Esse vigor das candidaturas do campo democrático-popular em Porto Alegre foi confirmado na vitória de Juliana Brizola (PDT), que teve 338.394 (45,78%) dos votos válidos para o governo gaúcho, contra 324.823 (43,94%) de Zucco. Em 2022, Edegar Pretto, na sua primeira eleição majoritária, obteve 258.063 (32,26%), apenas 7.707 votos a menos do que o então governador Eduardo Leite, que disputava a reeleição. Naquela eleição, o PDT lançou candidatura própria, o ex-deputado Vieira da Cunha, que obteve 19.386 votos, número maior do que a diferença obtida por Leite.

A eleição para o Senado também mostrou a imensa adesão dos porto-alegrenses às propostas da esquerda. Manuela D’Ávila (Psol) obteve a maior votação, 340.437 votos, e o Paulo Pimenta (PT), em sua primeira eleição majoritária, conquistou 331.518 votos. Outro dado relevante é constatar que, entre os 10 deputados estaduais mais votados na cidade, 7 estão no campo democrático-popular: 3 (Psol), 3 (PT), 1 (PDT).

Há, portanto, uma dinâmica social em curso na cidade de Porto Alegre, que dá evidentes mostras de que as condições políticas para a construção de uma alternativa democrática e popular para a administração municipal estão maduras. A histórica virada que reelegeu o presidente Lula mostrou que, quando conseguimos entrar em sintonia com a vontade popular, despertamos uma energia social capaz de superar qualquer barreira.

Essa energia é despertada pela unidade do campo democrático-popular, em torno de propostas voltadas à melhoria das condições de vida de todos e da afirmação de um projeto de mundo mais igualitário, mais justo e ambientalmente sustentável. É hora de reafirmar que outra Porto Alegre é possível.

(*) Sociólogo, foi vereador e secretário do Meio Ambiente de Porto Alegre. - Fonte: Sul21