14 julho 2026

Em meio a dois apagões, Cuba vence os EUA mais uma vez

Não houve significativos “levantes populares” contra o governo, mesmo com a paralisia imposta à grande parte das atividades econômicas e outras áreas

   HAVANA, CUBA - Crédito: REUTERS/Alexandre Meneghini

Por Erik de Souza*

Enquanto os países do globo acompanham atentos o desenrolar da Copa do Mundo, a pequena ilha socialista de Cuba passou por mais dois “apagões generalizados” somente na última semana. Chamadas de desconexões do Sistema Elétrico Nacional (SEN), são apagões que afetam completamente os mais de 10 milhões de cubanos até que todas as principais centrais energéticas das regiões do país consigam finalmente voltar a funcionar e se reconectar. O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, comentou nas redes sociais que a complexidade da situação possuía um culpado direto: o cerco energético que se soma ao Bloqueio de quase 7 décadas exercido unilateralmente pelo Governo dos Estados Unidos.

Desde o final de janeiro de 2026, após o ataque militar na Venezuela e o sequestro do presidente venezuelano e sua esposa, Donald Trump e seu Secretário de Estado, Marco Rubio, acirraram a pressão para derrubar o governo da Revolução Cubana. Impuseram normas retaliatórias para qualquer país ou empresa que negociasse bens petrolíferos com Cuba, que dependia até então da importação de petróleo venezuelano para manter não só a energia nos lares da sua população, mas o funcionamento de serviços básicos e essenciais, como escolas, hospitais e transportes. A intenção era gerar uma crise humanitária sem precedentes, que provocasse uma convulsão social no país e levasse à renúncia do governo revolucionário. 

Apesar das condições de vida em Cuba terem se deteriorado profundamente nos últimos meses devido às medidas estadunidenses, as novas sanções até o momento não produziram o efeito final desejado. Não houve significativos “levantes populares” contra o governo, mesmo com a paralisia imposta à grande parte das atividades econômicas e outras áreas, como a saúde e a educação; e, mesmo com a ameaça de retaliação norte-americana, Cuba recebeu abertamente em março um navio petroleiro russo, em gesto público de solidariedade entre os dois governos. Aliás, por conta da resiliência da população cubana, Trump e Rubio passaram a cada vez mais plantear publicamente a possibilidade de um ataque militar à ilha visando a retomada do status cubano como colônia informal dos EUA, assim como antes de 1959.

É em meio à todas essas dificuldades que Cuba propôs, na última semana, que a Organização das Nações Unidas (ONU) debatesse os efeitos do bloqueio energético ao país. 

A representação cubana na ONU já atua, todos os anos, para que seja votada uma resolução solicitando o fim do bloqueio unilateral exercido pelos EUA contra o país. Nos últimos 30 anos, todas essas resoluções foram aprovadas pela quase totalidade dos países membros, com exceção dos próprios Estados Unidos e de Israel, seu protetorado no Oriente Médio; no ano passado, mesmo com uma inédita ofensiva dos diplomatas norte-americanos no órgão, somente 7 países votaram contra o texto aprovado. Dessa vez, a representação da Casa Branca buscou todas as medidas possíveis para evitar que os efeitos do bloqueio energético fossem debatidos, mas foi derrotada por 136 votos favoráveis, 30 abstenções e somente 9 votos contrários ao debate.

Em sua intervenção, o ministro de Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, denunciou as medidas desse ano como “ato de guerra”, componentes de uma “guerra não-convencional, multidimensional” já travada pelos EUA contra a ilha há mais de 60 anos. O ministro cubano ainda apontou que, apesar de Cuba resistir contra as expectativas de catástrofe humanitária até o momento, a falta de energia já lega efeitos brutais na saúde, como o aumento na taxa de mortalidade infantil ao nascer e o aumento da mortalidade de cubanos com câncer e outras doenças. Sobre a mesa de negociações aberta entre os dois governos, Parrilla destacou que, apesar da vontade da ilha em avançar nas medidas bilaterais para apaziguar a situação, a vontade do governo norte-americano é somente retornar Cuba à condição de colônia. A resposta da delegação estadunidense na ONU foi negar a existência de bloqueios ou embargos contra o país e dizer para o “regime cubano” simplesmente “acender as luzes para seu povo”. O restante das intervenções, da República Popular da China à União Europeia, pontuaram o efeito negativo do bloqueio para o conjunto da população cubana, sobretudo a parcela que mais depende dos serviços públicos e racionamento de produtos. 

Frente à derrota diplomática, o Governo dos EUA anunciou na segunda-feira (13/07) mais uma leva de sanções à Cuba, destinadas ao setor turístico do país; Trump ainda pontuou que vai tomar “todas as medidas necessárias” sobre a “possibilidade de existência de drones e mísseis iranianos no país”. Diante de todas as medidas coercitivas e ameaças militares, o governo da Revolução Cubana segue buscando alternativas para melhorar as condições de vida na ilha, como o pacote econômico recentemente aprovado pela Assembleia Nacional do Poder Popular, que afrouxa drasticamente o controle sobre o setor privado na economia. A despeito das novas mudanças, as principais lideranças cubanas reafirmam o compromisso com o projeto social da Revolução, o socialismo e a consigna “Pátria ou Morte”. 

*Diretor de Relações Internacionais da União Nacional dos Estudantes (UNE) - Via Brasil247

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