20 agosto 2026

O filme e a realidade - Lula, para que ainda possamos falar em Honestino

Diretor Aurélio Michelis faz a conexão entre o passado e o presente




Por Luiz Carlos Azenha*

Aurélio Michelis dirigiu Honestino, que está em cartaz nos cinemas. Bruno Gagliasso faz o papel do líder estudantil que foi desaparecido pela ditadura militar brasileira aos 23 anos de idade.

Assim como Anistia 79, também lançado neste agosto de 2026, Honestino resgata memória da ditadura militar (1964-1985) que nos infelicitou.

Faltando semanas para a eleição presidencial no Brasil, com o cerco dos Estados Unidos se fechando, os diretores dos dois filmes traçaram paralelos entre o passado e o presente.

Anita Leandro destacou, em entrevista à Fórum, o legado da ditadura que ainda nos assombra, concretizado em PMs que matam civis como se estivéssemos em guerra.

Aurélio Michelis relembrou uma História da infância, que ainda está viva: os bastidores da batalha pelos recursos naturais brasileiros.

Seguem trechos da entrevista — e o vídeo com a íntegra.

Sobre o futuro que não veio

Aurélio Michelis: Eu tenho saudade daquilo que não foi. Do futuro que não aconteceu. Uma vez saiu no Jornal de Manaus uma notícia de que jorrava petróleo à flor da terra em Nova Olinda do Norte, que é um município que tem no Amazonas que hoje se chama Coari. É onde hoje tem a maior reserva de gás da Petrobras. Quando eu era criança, as pessoas recolhiam o óleo que brotava e o colocavam na lamparina. Você lembra da lamparina? Você conheceu? Aquele espécie de fio que você colocava o combustível, tinha uma ponta que saía um algodão e se iluminava, antes de ter energia elétrica.

Saiu nessa matéria, falava que apesar de o petróleo jorrar, técnicos norte-americanos que vieram avaliar, consideraram que não era comerciável o petróleo. O meu avô fez um comentário assim, ele era muito engraçado, ele falou assim: “Realmente esse petróleo respeita as fronteiras políticas, porque na Venezuela tem petróleo, quando chega na fronteira do Brasil, ele dá meia curva”.

Então, essa realidade de manipulação, ela não é nova. Todas as vezes que o Brasil se impõe, todas as vezes que o Brasil quer se colocar, como ele merece ser, porque o tamanho do nosso país, um país continental, com uma variedade de recursos naturais que poucos países possuem… é claro que um país vizinho tão guloso como são os Estados Unidos, um país que está em guerra há mais de 200 anos, um país que fomenta a arma, o guerreiro, sanguinário… Então, é complicado. O Brasil, quando se coloca com essa potencialidade, começa a sofrer essas ameaças. É só ver a questão do PIX, a tentativa de interferência nas eleições brasileiras.

Quem foi Honestino?

Aurélio Michelis: O Honestino [Guimarães] fazia parte de um grupo de luta maioísta, de luta de massas. mas tudo bem, o inimigo era muito mais poderoso, então, de certa forma, essa geração sofreu um revés muito forte, porque a resposta da ditadura, que era protegida pelos Estados Unidos, a gente não pode esquecer.

No ano em que o Ernestino foi morto, assassinado — eu não gosto de falar de desaparecido, ele foi assassinado — seu corpo até hoje não foi encontrado, mas ele foi assassinado com 23 anos de idade, no Rio de Janeiro.

Em 1973, o Richard Nixon, que era o presidente dos Estados Unidos, faz um discurso onde ele diz, para onde for o Brasil, irá toda a América Latina. Então, ele estava sinalizando que, naqueles países, onde naquele momento estavam o Allende no poder [no Chile], na Argentina havia já o Perón — tinha voltado, havia todo um governo híbrido ali, lutando pela democracia — no Peru estava o [Juan Velasco] Alvarado, que era um general que se dizia nacionalista e por aí afora e na Bolívia estava o [Hugo] Banzer, que também era um militar nacionalista.

Desde 1964 o Brasil já estava na ditadura e nesse ano [1973] o Honestino é sequestrado e assassinado. Então, a minha vontade era fazer essa leitura, trazer essa atmosfera, mostrar que hoje, qual é o discurso dos canalhas que dirigem os Estados Unidos da América do Norte? O discurso é que a América do Sul é o quintal deles. Eles não vão admitir, eles vão fazer de tudo para interferir na eleição da Colômbia, na eleição do Peru, na eleição…

Na Argentina vão manter um ser sem nenhuma característica de Humanidade, lá no Chile também estão desmontando as conquistas realizadas pós-ditadura Pinochet e no Brasil nós estamos sob essa ameaça também. Felizmente nós temos o Lula, que tem o carisma de um líder mundial — e isso é uma grande barreira para que nós possamos defender a frágil democracia brasileira. E, com isso, ter a liberdade para falar sobre o Honestino! - 

*Fonte: Revista Fórum

Diretor de filme sobre líder morto pela ditadura celebra a trajetória de Honestino Guimarães e Lula

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