07 abril 2026

Sul Global - Ao enviar mais de 100 mil toneladas de petróleo, Rússia desafia bloqueio dos EUA e reforça laços com Cuba

Em meio à crise energética global, Moscou prepara nova ajuda de petróleo a Cuba e obtém ganhos geopolíticos na região

Esta é a segunda viagem do navio Anatoly Kolodkin à ilha levando petróleo | Crédito: Presidência de Cuba/Reprodução


Por Serguei Monin*

A Rússia segue desafiando o bloqueio dos EUA a Cuba e planeja enviar uma segunda embarcação com petróleo à ilha caribenha como ajuda humanitária. Na segunda-feira (30), um petroleiro russo com mais de 100 mil toneladas de petróleo chegou à ilha em meio à crise energética causada pelas restrições de Washington.

O desembarque do petroleiro russo na ilha foi a primeira chegada de ajuda energética a Cuba em três meses, após os Estados Unidos pressionarem a Venezuela e o México a reduzirem ou interromperem o fornecimento de energia a Cuba. Como resultado, a ilha não recebe petróleo desde 9 de janeiro, uma interrupção que levou a uma deterioração contínua do sistema energético e a dificuldades para a população, que depende do combustível para serviços essenciais e para o funcionamento da economia.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o analista geopolítico, Hugo Albuquerque, aponta que a movimentação da Rússia evidencia a importância estratégica de Cuba para Moscou, representando “uma plataforma central para a Rússia na América Latina e no continente americano”.

“Cuba ser asfixiada, eu entendo que não seja opção para Moscou, se Moscou tem alguma pretensão de ter uma relação com a América Latina e ter uma projeção para a América Latina. E Cuba, a mesma coisa. A quem Cuba pode apelar para contrabalançar o poder norte-americano é à Rússia, em certo sentido, no curto prazo, por duas questões: pela questão energética e pela questão militar”, argumenta.

O analista aponta que o rompimento do bloqueio dos EUA contra Cuba só seria possível por parte de uma ação com a presença da Rússia, por conta do poder militar e por conta do fato de que a Rússia é superavitária em petróleo. Ao mesmo tempo, Hugo Albuquerque observa que, neste contexto, a Rússia aproveitou o fato de que eventuais tensões no trânsito do petróleo a Cuba tenderia a pressionar os preços internacionais, o que, por sua vez, também criaria um cenário de ganhos estratégicos e econômicos para Moscou.

“Qual era o risco da Rússia perder o petroleiro? Perder o petroleiro era, na verdade, um ótimo jeito, um ótimo investimento para Moscou, porque no momento atual a Rússia está ganhando a guerra no Irã. Isso é um fato. Não participa diretamente no front, mas se favorece com o aumento do preço internacional do petróleo, com o isolamento da Ucrânia, com o enfraquecimento dos EUA [..] Então não custa nada para a Rússia, até com o dinheiro a mais que ela está ganhando com o petróleo, abastecer Cuba e manter a sua presença geopolítica ali, já que os americanos não se furtam de cercar o entorno russo”, argumenta.

Ao comentar a ajuda ao país caribenho, a porta-voz da chancelaria russa, Maria Zakharova, reforçou a posição russa de defender a suspensão do bloqueio a Cuba. De acordo com ela, “Moscou sempre ajudou Cuba, enquanto os EUA sempre mantiveram o país sob um bloqueio”.

A diplomata também falou sobre a aliança histórica entre Moscou e Havana, aproveitando para criticar a contradição do discurso de países ocidentais em relação a questões humanitárias em outros Estados soberanos. Segundo ela, não se trata de um pedido ou exigência para suspender o bloqueio, mas de reconhecer a situação enfrentada por um país independente cuja população sofre com a escassez de bens essenciais, medicamentos, alimentos e combustível, sendo alvo direto dos EUA.

“Cuba é nosso amigo e parceiro mais próximo no Caribe. Posso reafirmar, mais uma vez, nossa inabalável solidariedade com o governo e o povo irmão de Cuba. Nossas relações com a Ilha da Liberdade têm uma longa tradição histórica. Desde os tempos soviéticos, temos fornecido aos nossos amigos cubanos toda a ajuda e assistência possíveis”

Nesse contexto, na última quinta-feira (2), a Rússia anunciou que pretende enviar um segundo navio petroleiro a Cuba. O anúncio foi feito pelo Ministro da Energia, Sergei Tsivilev, durante um fórum em São Petersburgo, que contou com a participação de representantes cubanos. O ministro destacou que Moscou não vai abandonar os cubanos em um momento de apuros.

A continuidade do apoio energético a Cuba e o enfrentamento russo aos bloqueios dos EUA colocaram em xeque a posição de Donald Trump, que se viu obrigado a recuar e flexionar a retórica em relação à entrada do petroleiro russo á ilha caribenha.

Depois de muita especulação, ao ser confirmada a chegada do petroleiro russo a Cuba, Donald Trump indicou uma mudança de posição e afirmou que não tinha “nenhum problema” com qualquer país enviando petróleo à ilha. No entanto, para o analista Hugo Albuquerque, os EUA só tinham a perder com a manutenção do bloqueio e a flexibilização na verdade teria representado uma vitória geopolítica russa.

“O Trump ele poderia fazer o que ele quisesse. Ele podia tentar sequestrar esse petroleiro, ele poderia tentar afundar ele. Mas o custo disso para os mercados de petróleo ia ser grande. E era uma situação onde, se uma vez que a Rússia mandou o petroleiro, se o petroleiro chegasse em Cuba, a Rússia venceria. Se o petroleiro não chegasse, a Rússia venceria também. Por essa razão, a Rússia devia ter mandado o petroleiro. O único jeito da Rússia não ganhar algo nessa questão era não mandar o petroleiro, não mandar petroleiros para cá, porque Cuba cairia e cairia na mão americana”, afirma.

Segundo o analista, o recuo de Trump se deve ao fato de que as consequências econômicas das suas ações têm se mostrado desfavoráveis. Este cenário teria aberto uma janela de oportunidade para Moscou reforçar a sua posição na América Latina através da ajuda humanitária a Cuba.

Neste contexto, a importância de Cuba para a Rússia, para Hugo Albuquerque, representa um “fortalecimento de setores na América Latina que estão alinhados pelo menos com essa luta anti-imperialista que a Rússia precisa ter hoje em dia”.

“Acho que assistir Cuba cair é fora de questão. Isso representaria uma derrota muito grande para o papel da Rússia aqui no hemisfério. Eu entendo que Cuba é uma pequena vitória e pode se tornar uma vitória ainda maior, porque se a Rússia consegue se afirmar e consegue garantir essa linha de suprimentos num momento em que há um racha entre europeus e americanos, num momento que há uma crise no mercado de petróleo que favorece a Rússia no curto e médio prazo, a Rússia se fortalece”, completa.

*Editado por: Luís Indriunas - Fonte: BdF

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