Debate na Conferência Internacional Antifascista em Porto Alegre aponta limites da ação institucional
Por Fabiana Reinholz*
A atuação institucional diante do avanço da extrema direita foi o eixo da mesa “Papel e limites da ação institucional na luta democrática”, realizada nesta quinta-feira (26), em Porto Alegre, durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela soberania dos povos. O encontro destacou a importância da articulação global, da mobilização popular e da atuação institucional para enfrentar o fascismo, o neoliberalismo e as desigualdades sociais.
O debate, mediado pelas deputadas federais Maria do Rosário (PT/TS) e Daiana Santos (PCdoB/RS), reuniu lideranças como o senador uruguaio Oscar Andrade, a eurodeputada espanhola Ana Miranda, o eurodeputado português João Oliveira, Abdul Osmanu (conselheiro municipal dos Estados Unidos), o deputado Glauber Braga (Brasil), o deputado Erkan Baş (Turquia) e a ex-deputada argentina Vilma Ripoll.
O papel da institucionalidade na América Latina: avanços e limites
O senador Oscar Andrade, do Partido Comunista do Uruguai e da Frente Ampla, iniciou a fala questionando se é possível triunfar contra um sistema econômico que classificou como perverso e cruel. Ele afirmou que “não há limites” para a luta dos povos, incluindo a atuação institucional.
Ele destacou que a conquista de governos progressistas trouxe avanços, mas também revelou limites. “Ter o governo é melhor que não ter, é indiscutível, mas não é suficiente para enfrentar um bloco de poder hegemônico.”
Andrade também apontou dificuldades comuns na região, como o distanciamento entre governos e suas bases sociais. “Muitas vezes terminamos em confronto com a base social que nos deu nascimento”, afirmou, citando experiências no Brasil, Uruguai, Argentina e Equador.
Outro ponto crítico, segundo ele, é o abandono da disputa no campo das ideias. “Confundimos o incremento de políticas sociais com a construção de uma população mais solidária”, disse. Segundo ele, isso pode resultar em reações de setores populares influenciados pelo individualismo e pela meritocracia.
Para o senador, o desafio é articular estratégias de longo prazo com ações táticas imediatas, avaliando não apenas resultados de governo, mas também avanços na consciência social e na organização popular. “Não há forma de defender a democracia se a democracia não se radicaliza. Não há saída nacional. A saída é global e passa pela unidade dos povos”, concluiu.

Extrema direita na Europa: avanço e apoio institucional
A eurodeputada Ana Miranda, do Bloco Nacionalista Galego, resgatou a memória do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, realizado há 25 anos, e defendeu a continuidade do internacionalismo. “Aquele espírito de que outro mundo é possível deve continuar.”
Miranda destacou a luta pela soberania dos povos, citando a Galiza, onde vive, uma comunidade autónoma da Espanha, além da Palestina e da República Saaraui, como exemplos de territórios que reivindicam reconhecimento e autodeterminação.
A parlamentar criticou o cenário europeu, denunciando “três grupos parlamentares neofascistas, neonazis, racistas e xenófobos no Parlamento Europeu” que utilizam instrumentos democráticos para disseminar discursos de ódio. Também relatou episódios de censura contra deputados antifascistas, enquanto parlamentares de extrema direita permanecem impunes.
Ela resgatou ainda a relação histórica entre a América Latina e povos europeus perseguidos pelo fascismo, destacando o acolhimento de exilados galegos no continente. Para a eurodeputada, o antifascismo é inseparável da política de esquerda. “Não se pode fazer política de esquerda se não é antifascista, anti-imperialista e anticapitalista.”
Mobilização de massas: essencial para mudanças além das instituições
O eurodeputado João Oliveira, do Partido Comunista Português, destacou a importância da conferência diante da ofensiva imperialista, especialmente dos Estados Unidos. Ele também saudou povos como os de Cuba, Venezuela, Palestina e Irã, países símbolos de resistência contra o imperialismo.
Oliveira apresentou quatro pontos centrais, entre eles a necessidade de articular ação institucional e luta popular. “A ação institucional tem mais relevância quanto mais estiver ligada à luta dos trabalhadores e dos povos”, afirmou.
Ele também alertou para o risco do “atentismo”, ou seja, a expectativa de mudanças apenas pela via institucional, e defendeu uma concepção ampliada de democracia, que inclua dimensões econômicas, sociais, culturais e participativas.
Por fim, enfatizou que o combate ao fascismo deve ser feito a partir do confronto de classe. “O fascismo é um instrumento do capital, a expressão violenta da ditadura do capital sobre os trabalhadores e os povos”, afirmou. “Compreender essa raiz é fundamental para enfrentar a extrema direita, que avança em instituições como o Parlamento Europeu com o apoio de forças conservadoras e social-democratas.”
Para Oliveira, o enfrentamento ao fascismo exige a construção de uma alternativa baseada na justiça social, na igualdade, na soberania e nos interesses dos trabalhadores e dos povos.
Contra-revolução global e precarização do trabalho
O deputado turco Erkan Baş afirmou que o mundo vive uma nova fase histórica, marcada por uma ofensiva global do capital, que definiu como uma contra-revolução de âmbito internacional. “Não estamos apenas diante de uma crise do capitalismo. O que estamos vivendo é um processo de contra-revolução organizada em escala mundial. Entramos em um novo período”, declarou.
Segundo ele, imperialismo e fascismo atuam de forma articulada, combinando guerras multidimensionais, tecnologias avançadas, formas autoritárias de política e um Estado reduzido a aparato de repressão. O objetivo, afirmou, é “liquidar todos os direitos e liberdades conquistados pelos trabalhadores e pelos povos”.
Para o deputado, essa dinâmica tem impactos diretos nas condições de vida. “Milhões de pessoas trabalham mais horas, mais dias e mais anos, e ainda assim vivem pior. Pela primeira vez, a nova geração é mais pobre que a anterior.”
Baş também denunciou a precarização do trabalho na Turquia. Segundo ele, nos últimos 25 anos, pelo menos 35 mil trabalhadores morreram no que são chamados de acidentes de trabalho, mas que ele considera “assassinatos no local de trabalho”. Destacou que 98% dessas mortes ocorreram em locais sem organização sindical, o que classificou como uma forma de “classicídio”.
Para o parlamentar, “neste período de reestruturação, o parlamento não é um local de soluções, é um campo de batalha”.
Ele reforçou que a transformação política depende da organização popular. “As pessoas não devem ser objeto da política, mas sujeitos dela. Sindicatos, organizações locais e a unidade da classe trabalhadora são a base.” E concluiu: “Não há salvação individual. A libertação só pode ser coletiva.”
Organização popular e internacionalismo nos Estados Unidos
O conselheiro municipal de Connecticut (EUA), Abdul Osmanu, fez um apelo à organização internacional da classe trabalhadora e ao enfrentamento direto ao fascismo e ao imperialismo. Jovem, negro, muçulmano e socialista, ele destacou sua trajetória e afirmou: “é o nosso momento de agir”.
Osmanu citou experiências brasileiras, como o orçamento participativo de Porto Alegre, que influenciaram iniciativas em sua cidade, ampliando a participação popular.
Ele criticou a separação entre política doméstica e internacional. “Os problemas da Palestina, do Irã, do Sudão e da Venezuela também são problemas dos Estados Unidos”. Filho de imigrantes ganeses, também criticou o papel de instituições internacionais na produção de desigualdades globais e defendeu o enfrentamento ao imperialismo como condição para a libertação dos povos. “Se não desmantelarmos o imperialismo, nossos povos não serão livres, e nós também não seremos.”
Ao final, reforçou o chamado à ação coletiva: “A filosofia interpreta o mundo, mas o ponto é transformá-lo.”

Diagnóstico de crise exige articulação internacional
O deputado Glauber Braga (Psol/RJ) afirmou que o momento exige um diagnóstico duro da realidade global. “Eu fico me perguntando se não seria o caso de começarmos com o diagnóstico de que nós estamos no fundo do poço.” Segundo ele, esse reconhecimento não é sinal de pessimismo, mas condição para a superação. “A consciência de que a gente está no fundo do poço talvez seja uma necessidade para que a gente possa sair dele.”
Braga avaliou que não há mais “grau de recurso” dentro da institucionalidade e que a saída passa pela articulação internacional. “As armas estão com eles. A grana está com eles. Os veículos de comunicação, as big techs, estão com eles. O que nós temos é a consciência de que somos classe trabalhadora”, declarou.
Parlamento como tribuna e limites das mudanças institucionais
A ex-deputada argentina Vilma Ripoll ressaltou a importância da atuação parlamentar como espaço de disputa, mas com limites claros. “É importante integrar os parlamentos, porque é uma tribuna das posições de esquerda.”
Segundo ela, esse espaço permite levar demandas populares para dentro das instituições, mas não é suficiente para promover mudanças estruturais. “Desde essas instituições não vão vir as mudanças de fundo.”
Ripoll citou exemplos recentes na Argentina, como mobilizações no Hospital Garrahan e nas universidades, para mostrar que avanços dependem da pressão popular. “É a mobilização fora do Congresso que dinamiza e leva força para dentro.”
Ao final a deputada Daiana Santos ressaltou a importância da relação direta com as massas. “A luta institucional só ganha força quando ouve as massas. Não vamos avançar contra esse fascismo sem essa compreensão, que está no dia a dia e em cada ação coletiva”, afirmou. Para a parlamentar a soberania significa garantir comida na mesa, segurança e atenção ao campo e à cidade, sempre com foco na classe trabalhadora.
Já a deputada Maria do Rosário [PT/RS] reforçou a importância da unidade dos socialistas e do campo popular. “Não nos conformamos com ação puramente institucional; ação institucional e luta de massas se misturam. Nossa missão é enfrentar os avanços da extrema direita no Brasil e no mundo”, declarou.
*Fonte: Brasil de Fato - BdF

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