Ativistas exaltaram escolha da capital gaúcha como palco do evento, rememorando a cidade que ficou conhecida mundialmente por receber o Fórum Social Mundial
Parlamentares, figuras públicas e ativistas tomaram ruas do Centro Histórico nesta quinta, 26
Foto: Igor Sperotto
Por Niara Aureliano, no Extra Classe*
Ativistas de pelo menos 50 países, que participam da 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, se somaram a representantes dos movimentos sociais e população para tomar as ruas de Porto Alegre na noite da quinta, 26 de março, entoando palavras de ordem em diversos idiomas. A articulação pretende construir e aprovar, entre 26 e 29 de março, uma agenda global para frear o avanço da extrema direita em todo o mundo.
No primeiro dia de debates, parlamentares do Brasil, Espanha, Itália, Portugal, Venezuela, Chile, Turquia e Cuba compartilharam experiências sobre o limite da institucionalidade e o aprofundamento da democracia em governos populares. Em seguida, a partir do Largo Glênio Peres, marcharam pelo Centro Histórico. Segundo os organizadores, a Conferência conta com mais de 4.300 participantes.
Nacionalidades, rostos e idiomas diversos
As investidas imperialistas em países na América Latina e Oriente Médio emergenciam o encontro, avaliam organizadores da Conferência. Disputas geopolíticas e o crescimento de movimentos políticos identificados com a extrema direita exigem uma resposta global dos movimentos antifascistas.

Presidente estadual da CUT, Amarildo Cenci
Foto: Igor Sperotto
De acordo com o presidente da CUT-RS Amarildo Cenci, a questão da guerra contra o Irã foi debatida com a presença jornalista Brenno Altman, de ascendência judaica, especialista em sionismo e conflitos do Oriente Médio, envolvendo Israel.
“A mesa refletiu sobre o quanto essa questão hoje é de interesse de todo o planeta, da humanidade. Se acontecer de aquele ser derrotado e massacrado, será uma nova uma Palestina, uma Líbia, uma Síria”, explica, como o ataque à Venezuela seria tentativa dos EUA de subordinar todo mundo aos interesses.
“Segue-se o compromisso de que a gente, a humanidade, tem que se juntar nessa hora por paz, mas uma paz com justiça, com igualdade e com soberania dos povos. Atrás do imperialismo existe um capitalismo exagerado; atrás de um capitalismo exagerado e do imperialismo, tem fascismo, autoritarismo, morte, miséria e é isso que nós precisamos combater”, reflete Cenci.

Silvia Saravia veste vermelho, no centro da foto, com a camiseta do grupo Libres Del Sur
Foto: Niara Aureliano
Da Argentina, o grupo Libres Del Sur trouxe jovens e trabalhadores das províncias de Córdoba, Chaco, Corrientes, San Luis, San Juan, Missiones e Neuquén.
Eles denunciam que o país padece sob o comando do presidente Javier Milei e asseguram que os danos serão de médio a longo prazo no que diz respeito aos recursos naturais e à indústria, por exemplo. Isso porque a política é de submissão aos interesses dos Estados Unidos e não aos interesses do povo argentino.
“Cremos que é importante contar que na Argentina não é toda a população que apoia Milei. Queremos contar que há muitos grupos enfrentando e que estamos convencidos e convencidas que vamos derrotá-lo! Dizemos que vamos jogá-lo na lata de lixo da história porque o que ele está propondo não é uma receita nova, como afirma, mas receitas antigas que já sabemos que falharão, empobrecerão nosso povo e lhe tirarão a soberania”, declara a argentina Silvia Saravia, porta-voz do grupo.
Porto Alegre de lutas
Representantes exaltaram a escolha da capital gaúcha como palco do primeiro encontro internacional antifascista. Experiências de participação popular, como o orçamento participativo, também foram rememoradas. A convocatória do evento destacou a Porto Alegre núcleo de resistência popular que reuniu mais de 20 mil ativistas de 117 países em 2012, quando da realização do Fórum Social Mundial.

Vereadora da capital, Natasha Ferreira (PT)
Foto: mandato Natasha Ferreira
A radicalidade esperada da agenda a ser construída durante a Conferência Antifascista deve ter como base a participação popular. “Cada vez mais, as pessoas não querem saber da política e isso é bom para a extrema direita. Nós precisamos fazer o inverso, chamar as pessoas a participar, tomarem conta dos espaços e transformar o parlamento naquilo que ele deve ser”, defende a vereadora de Porto Alegre Natasha Ferreira (PT).
“De fato, inclusive, a gente está votando o plano diretor em Porto Alegre. Plano diretor que é dos empresários, completamente atravessado. Estamos lutando para que as pessoas mais pobres não sofram com os efeitos climáticos que acontecem em Porto Alegre, como as enchentes, verão escaldante, ventania que causa falta de energia. Fruto da precarização de uma cidade que não tem investimento em adaptação e mitigação da crise climática” alerta.
Porto Alegre deverá ser vanguarda para as lutas antifascistas do mundo, almejam os organizadores. Para os participantes, destacam-se ainda as lutas progressistas e suas dificuldades no Sul do país.

Shahla Othman, presidente do Comitê Catarinense em Solidariedade ao Povo Palestino
Foto: Igor Sperotto
Shahla Othman, presidente do Comitê Catarinense de Solidariedade ao povo palestino Khader Othman, chegou à capital gaúcha na quarta, 25 de março, para participar da Conferência e reforçou que a luta contra o fascismo no Sul do país precisa ser mais forte e estar melhor organizada.
Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), de 2025, enfatizou o crescimento de células neonazistas no sul e sudeste do Brasil, e a disseminação de discursos de ódio de direita extrema.
“A luta contra o fascismo aqui no Sul, principalmente, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, tem que ser muito mais forte do que é. Contra o fascismo, contra o imperialismo, contra o sionismo. Sou filha de palestino. Meu pai foi expulso em 1967. Preso, torturado e expulso de suas terras porque ele fazia jornais para denunciar os crimes de Israel lá em 1967. Meu pai nasceu em 1939. Não existia Israel ainda, era Palestina”, conta Shahla.
América Latina

Erlon Schüler, diretor do Sinpro/RS
Foto: Igor Sperotto
Para o diretor do Sinpro/RS, Erlon Schüler, a atuação dos movimentos progressistas deve também focar nas pautas antirracistas, antimisóginas e antiLGBTfóbicas, em destaque na marcha – que chamou atenção com a presença de delegações do continente africano e americano – e de mulheres.
Todas essas lutas se entrelaçam, para combater também a entrega de riquezas e defender a soberania dos povos latino-americanos, o que passa pelo parlamento.
“Esse ato é importante. Primeiro, porque conjurou o aniversário de Porto Alegre, e com isso, as pessoas estão mais atentas ao que está acontecendo na cidade. Não existe só o South Summit (evento empresarial), que é só para uma parte da população. E estamos em ano de eleição. A direita está se organizando. Eles querem fatias importantes da política, como o Senado, então temos que estar nesses movimentos que antecedem para trocar entre nós, para dizer para as pessoas o que significa esta luta. Esse é o momento de estar na rua”.

Presidente nacional da CTB, Adilson Araujo
Foto: Igor Sperotto
O presidente da Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB), Adilson Araújo, que veio de São Paulo, reforça o direito dos povos e nações à autodeterminação. Para ele, o mundo assiste ao recrudescimento dos fascistas e a tarefa é materializar unidade, solidariedade e defesa da soberania e democracia para os povos de todo o mundo.
“A política genocida praticada e patrocinada pelo imperialismo norte-americano tenta de alguma maneira também se voltar contra a nossa América”, diz. Para Adilson, a América Latina e o Caribe levantam suas bandeiras no sentido de dizer que aqui não há espaço para neofascista. “Nós que tivemos a grandeza de, há 20 anos atrás, no encontro em Mar del Plata, junto com Lula, Tabaré, Hugo Chaves, Fidel e até mesmo Dieguito Maradona: quando Chaves proclamou Alca al carajo! fazer levantar e ecoar esse propósito maior que é lutar pela paz contra a guerra”, finaliza.
*Fonte: Extra Classe

Nenhum comentário:
Postar um comentário