17 março 2026

Os arautos das pautas negativas

A grande mídia e grande parte dos chamados podcasts progressistas também agem como arautos do caos

     Microfones da imprensa | Foto: Divulgação/Agência Senado


Por Céli Pinto (*) 

Não há dúvidas de que o planeta e o Brasil estão passando por momentos de grande dificuldade política. A ascensão da extrema-direita no mundo, legitimada por eleições em democracias liberais, tem determinado um ritmo alucinante de desmonte de qualquer coisa parecida com o processo civilizatório existente no planeta.

A pergunta que os mais atentos e preocupados faziam na década de 1930 – o que sobraria depois de Hitler e do nazismo? – cabe perfeitamente nos dias de hoje. Não podemos ser ingênuos e repetir velhas e surradas fórmulas, como a de que Hitler era um louco e Trump também o é. Se ambos são insanos, não tem a menor importância; o importante são as condições de emergência que deram espaço para que tais lideranças se criassem. A Europa, a famosa civilizada, culta e democrática Europa, se comporta novamente da mesma forma, fazendo cara de paisagem, quando não apoiando, sem pudor, os desvarios de uma extrema-direita que sabe muito bem o que quer. Exceção honrosa deve ser feita ao governo espanhol, na pessoa de seu primeiro-ministro, Pedro Sánchez.

Também não há dúvidas de que o total desarranjo internacional se reflete na política dos países periféricos, por mais distantes que estejam das guerras, e aí se encontra o Brasil. O caos inaugurado pelo segundo governo de Trump tem respingado na política brasileira de forma não desprezível: cassação de passaportes de autoridades, imposição de tarifas exorbitantes, ameaça de considerar como terroristas os grupos marginais do crime organizado, envio de um assessor da ultra-extrema-direita para visitar Bolsonaro na prisão e, por último, mas não menos importante, sugestão de mandar presidiários estrangeiros condenados nos EUA para prisões brasileiras.

Mas o governo brasileiro, através de sua eficiente diplomacia e da própria intervenção do presidente Lula, tem dado conta razoavelmente bem, até agora, das ameaças estadunidenses.

Ademais, temos um governo que, em seu quarto ano de mandato, está entregando um país completamente recuperado de um quadro de absoluto destrambelhamento recebido do governo Bolsonaro em todas as áreas. É o melhor governo do mundo? O governo Lula poderia ter feito mais em muitas áreas? Não, não é o melhor governo do mundo (na verdade, tenho minhas dúvidas…), mas o governo, apesar de ser vítima de sequestro pelo reacionarismo nada ético de parte do Congresso Nacional, que cobra muito caro por qualquer apoio, tem feito muito. Basta um olhar atento para os dados da economia, do desemprego, das políticas sociais, para as políticas  dirigidas à saúde, à educação, para a reforma fiscal e os novos limites de pagamento do Imposto de Renda, para vislumbrar um quadro que nos permite olhar para o futuro, por mais difícil que ele seja após as guerras trumpistas, sem pânico.

A despeito disso, aí entra uma variável que ameaça todos os esforços que o governo tem feito para minimizar as consequências da herança maldita e do cenário caótico internacional, que atende pelo nome de mídia, a mesma que se jacta de ser livre, objetiva e, no limite, salvadora da democracia brasileira.

O argumento que gostaria de dividir com o leitor e a leitora, sem nenhuma aproximação a teorias conspiratórias, que abomino, é que a mídia brasileira está, de forma muito aberta e simplista, para não dizer simplória, reduzindo a política brasileira a um amontoado de escândalos com nome e sobrenome. E não me refiro aqui apenas à grande mídia, a culpada de sempre, mas também a  quase todos os podcasts ditos progressistas e antifascistas, que não vou nomeá-los, para não correr o risco de ser processada, como tem, repetindo a exaustão, o âncora de um deles.

A grande mídia e grande parte dos chamados podcasts progressistas também agem como arautos do caos. Parecem estar simplesmente em busca de audiência e sabem que o sensacionalismo com nomes e sobrenomes, escândalos com vultuosas somas e troca de mensagens íntimas entre um meliante fantasiado de banqueiro e sua namorada alimentam o apetite popular. E esta figura abjeta, que gasta dezenas de milhões de reais em festas patéticas para se manter com a cabeça fora d’água, aparece na mesma página de uma instituição como o Supremo Tribunal Federal, criando uma mélange geral.

Quem não é profissional das ciências humanas, mas cidadão e cidadã que têm a vida levada pelos afazeres e preocupações cotidianas, percebe Vorcaro, Toffoli, Alexandre de Moraes, Banco Master, Supremo Tribunal Federal e INSS como a mesma coisa, todos ligados equivocadamente ao governo do presidente Lula. Isso acontece não porque sejam ignorantes, despreparados ou politicamente infantis, mas porque resultam da construção deliberada de um sujeito político mal informado. Não estou aqui defendendo quem quer que seja a priori, até porque o mundo dos privilégios, alguns mais do que imorais ilegais, brasilienses está aí para quem quiser ver há décadas. Quero apenas chamar a atenção para um perigoso e, para mim, pouco sério deslocamento que vem acontecendo, protagonizado pelos chamados formadores de opinião. Estes, na maioria das vezes, não honram o grande teórico da comunicação e da esfera pública Jürgen Habermas, morto recentemente aos 96 anos. 

Se tal postura é feita sem intenção pela mídia de todas as cores, desculpem-me, formam um agrupamento de incompetentes, incapazes de entender a complexidade do momento. Se agem assim por acharem que dá audiência, doem, como diz certo comediante. A hegemonia da pauta negativa não pode ser entendida como “é o que é notícia”, mas como o que vem sendo construído como notícia única. Não há inocentes nesta jogada, como não havia na década de 1930 na Europa.

(*) Professora emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, cientista política e historiadora.

Fonte: Sul21

Nenhum comentário: