30 março 2026

O antifascismo não tem dono e a direita precisa entrar no debate

Quando esses setores se retiram do debate sobre o autoritarismo, eles deixam o campo livre para que o radicalismo avance sem contrapesos

   Foto: Guilherme Santos/Sul21


Por Andréa Sommer (*)

A ideia de que o combate ao fascismo é um papel exclusivo da esquerda é um grande equívoco. No senso comum, nas redes sociais, conversas informais, criou-se a narrativa de que pessoas de direita estariam, “por natureza”, distantes dessa pauta. No entanto, se olharmos para os fundamentos da ciência política e para a história das instituições, essa divisão não resiste a uma análise séria e profunda.

Ser de direita, seja na vertente liberal, conservadora ou democrata-cristã e ser antifascista não é contradição. Na verdade, é uma condição para a sobrevivência do próprio conservadorismo e do liberalismo. Afinal, se você defende eleições livres, a separação de poderes e a alternância no comando, você está, na prática, rejeitando a essência do fascismo.

Regimes autoritários não surgem do nada. Eles não dependem apenas de líderes radicais, mas da cumplicidade de quem deveria vigiar as instituições. Na Itália de Mussolini ou na Alemanha de Hitler, a democracia não ruiu num piscar de olhos, mas foi corroída quando parcelas importantes da sociedade decidiram que “flexibilizar” certas regras em nome de um inimigo comum era aceitável.

O perigo começa quando a polarização cega o cidadão para o fato de que a democracia depende, fundamentalmente, do direito de discordar. Se você acredita que a oposição deve manifestar-se sem medo de perseguição e que a imprensa deve ser livre para criticar qualquer governo, você já opera princípios antifascistas.

Porto Alegre sedia a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos. O evento coloca a capital gaúcha no centro de um debate global urgente sobre os riscos do autoritarismo. A pergunta incômoda, mas necessária, é: quantas pessoas da direita democrática estarão atentas a essas discussões?

Não se trata de concordar com todas as teses que serão apresentadas, mas de entender que o extremismo é uma ameaça universal. Historicamente, a direita democrática sempre foi o fiel da balança na manutenção da estabilidade institucional e da segurança jurídica. Quando esses setores se retiram do debate sobre o autoritarismo, eles deixam o campo livre para que o radicalismo avance sem contrapesos.

Na democracia, o conflito é normal e saudável. O problema surge quando a política deixa de ser uma disputa de projetos e passa a ser uma lógica de eliminação do adversário. Quando essa linha se apaga, todos perdem, independentemente da ideologia.

O fascismo não ataca apenas um lado, ele tira liberdades individuais e a própria possibilidade de participação política de todos os cidadãos. Fugir dessa reflexão pode ter consequências graves. No fim das contas, a questão central de 2026 não é se você se identifica com a direita ou com a esquerda. A pergunta que define o nosso tempo é: se a democracia começar a ser ameaçada por ideias autoritárias, de que lado da história você estará?

(*) Jornalista/Cientista Política - Fonte: Sul21

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