Eleição na Colômbia opõe continuidade do projeto de Gustavo Petro ao avanço da direita, em meio a violência, fake news e disputa sobre segurança pública
Por Tereza Cruvinel*
Bogotá - No próximo domingo (31), os colombianos vão às urnas escolher entre a continuidade do primeiro governo de esquerda do país, elegendo o candidato apoiado pelo presidente Gustavo Petro, Iván Cepeda [foto acima], ou o retrocesso, com a volta da direita ao poder.
O resultado terá forte influência sobre o quadro político da América Latina, pois representará também a derrota ou a vitória de um governo progressista do continente que Donald Trump gostaria de ver interrompido. Desnecessário recordar aqui as escaramuças que ele já teve com o presidente Petro.
Por seus múltiplos aspectos, o pleito e o resultado importam muito ao Brasil. A violência e as fake news, com uso da inteligência artificial, vêm dominando a campanha, algo que tende a se repetir no Brasil. O tema dominante é o da segurança pública, que opõe à política de “paz total” de Petro a defesa do endurecimento pela oposição. O governo Lula acompanha com atenção este aspecto, que pode ter reflexos aqui.
As pesquisas desta última semana de campanha dizem que Cepeda, que concorre pelo partido governista Pacto Histórico, mantém o favoritismo, oscilando entre 44% e 45% de preferência, mas, segundo analistas locais, ele ainda precisa crescer alguns pontos para ganhar no primeiro turno de domingo.
Diferentemente de Lula, Petro não é candidato, pois não há reeleição na Colômbia, mas o pleito é tido como um plebiscito sobre seu governo. Suas políticas públicas de inclusão social têm garantido alta aprovação a seu governo, o que não tem acontecido com Lula, apesar de os resultados serem tão positivos quanto os conseguidos pelo colombiano.
O tema candente da segurança será importante na campanha brasileira, embora nossos problemas nesta área não sejam tão graves como os da Colômbia, que enfrenta a violência do narcotráfico, de paramilitares e de grupos guerrilheiros dissidentes das Farcs.
Cepeda enfrentará dois candidatos de direita. Um é Abelardo de la Espriella, um advogado rico e exótico, admirador de Milei, Trump e Bukele. Ele está em segundo lugar. Outra é Paloma Valencia, do partido Centro Democrático, embora seja mesmo de extrema direita e herdeira de uma oligarquia escravista. É apoiada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, que vem tendo forte protagonismo na campanha, enquanto Petro faz o que pode por Cepeda. No ano passado, o senador Miguel Uribe, que pretendia ser candidato, foi morto a tiros em Bogotá. Os três candidatos têm registrado ameaças.
Em toda a sua história, a Colômbia foi governada por partidos conservadores, mais ou menos direitistas. Petro atuou como guerrilheiro no grupo M-19, foi preso político e torturado e, em 1990, assinou o acordo de paz com o governo colombiano, que propiciou a conversão de sua organização em partido político legal. Sua chegada à presidência, em 2022, foi uma ruptura com a hegemonia conservadora e uma aposta dos colombianos em seu programa de governo, que propunha políticas de inclusão social, desenvolvimento econômico e combate às drogas e aos cartéis, mas buscando a segurança e a pacificação internas. O programa “Paz total”.
E de fato ele produziu, em quatro anos, aumentos expressivos do salário-mínimo e da renda e queda do desemprego. No combate às drogas, ele trocou a ênfase na repressão pelo maior uso da inteligência e pela asfixia de figuras da elite envolvidas com o tráfico.
O tema da segurança, emblema da polarização, é objeto das mais fortes ações de desinformação. A escolha dos colombianos será entre persistir nas negociações de paz conduzidas por Petro ou adotar a linha dura bukelista contra o narcotráfico e os guerrilheiros, defendida pelo segundo colocado.
Assim, nesta reta final da disputa, fake news circulam intensamente associando candidatos aos narcotraficantes e às guerrilhas. Cepeda naturalmente é a principal vítima. Em um vídeo que viralizou estes dias, por exemplo, ele aparece dizendo que vai incorporar guerrilheiros às Forças Armadas.
A violência, porém, atinge também a oposição. Dois assessores da campanha de Abelardo de la Espriella foram assassinados no início deste mês.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, na semana passada, o senador republicano Bernie Moreno afirmava que Trump pode não reconhecer o resultado da eleição colombiana.
Lula também está de olho na Colômbia. A vitória de Petro é fundamental para conter o avanço da direita e do trumpismo no continente.
*Fonte: https://www.brasil247.com/

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