O cenário hoje é completamente diverso e muito mais perigoso: nunca antes o país esteve tão ameaçado por uma potência estrangeira na sua história
Foto: Antonio Augusto (Ascom/TSE)Por Céli Pinto (*)
As eleições presidenciais de 2026 se revestem de particularidades que as fazem únicas na frágil democracia brasileira. Nunca antes o país esteve tão ameaçado por uma potência estrangeira na sua história. Em outras oportunidades, os Estados Unidos intervieram com apoios, recursos, mas nada se parece com o que acontece hoje. Mesmo no golpe de 1964, a participação estadunidense foi de apoio, o que não é um detalhe, ainda que sempre negado. Também é preciso ter presente que o golpe foi antes de tudo brasileiro, com interesses da burguesia, dos militares e o respaldo da sempre patética classe média.
Estamos hoje diante de um cenário completamente diverso e muito mais perigoso. Apenas para levantar a discussão, apresentarei algumas considerações a respeito de três pontos do atual cenário mundial e brasileiro.
O primeiro é o avanço no mundo de uma extrema-direita antidemocrática com feições fascistas. Na Europa, a expansão dos partidos de extrema-direita tem sido surpreendente. Na França, a Frente Nacional, fundada por Jean-Marie Le Pen em 1972, obteve, na primeira década em que participou de eleições, menos de 1% dos votos. Em 2002, seu fundador conseguiu chegar ao segundo turno das eleições presidenciais com 17,% dos votos e sua filha, em 2017, atingiu a mesma posição com 33,9 % e, em 2022, com 41,45% dos votos. Em todas as oportunidades, houve um esforço das forças democráticas para impedir a vitória, mas o crescimento do partido é exponencial e a possibilidade de vencer em um futuro próximo é muito provável.
Na Áustria, o partido de extrema-direita, Partido da Liberdade da Áustria, chegou ao parlamento, pela primeira vez depois da II Guerra em 2024, com significativos 28,8% dos votos. Na Itália, o partido Irmãos da Itália, uma coalizão de extrema-direita, governa o país desde 2022, ironicamente com uma mulher como Primeira Ministra. Também na Holanda, na Espanha, em Portugal e na Alemanha, há um crescimento contínuo de partidos de extrema-direita de clara extração fascista.
Portanto, a chegada de Trump ao poder nos Estados Unidos não é um acaso na história, mas parte de uma avalanche que se avoluma com velocidade espantosa. Basta comparar o primeiro governo de Trump com o atual. Na primeira ocasião, mesmo já sendo um governo de extrema-direita, só mostrou sua feição claramente antidemocrática quando, ao perder a reeleição, tentou um golpe no Congresso Americano. A atual administração não tem subterfúgios, nem preocupação de criar um cenário falso. Mostra-se como realmente é: um governo antidemocrático, que usurpa as leis com sua milícia anti-imigratória, que executa até crimes de morte, sem nenhuma preocupação em justificar seus atos.
Trump é um presidente muito impopular nos Estados Unidos. Sua desaprovação em recentes pesquisas chega a 62% e ele tem uma eleição a enfrentar, o Mid-term, em novembro, que pode lhe tirar a maioria na Câmara de Deputados e até no Senado. Mas isto não parece estar preocupando sua administração.
Há duas possibilidades para interpretar o comportamento do presidente: Trump está perdido, entrou em guerras e não consegue sair delas, cria tarifas a rodo pelo mundo na ilusão de reindustrializar o país e não consegue enfrentar o avanço comercial da China. Isto até pode ser verdade, mas não é toda a verdade, daí a segunda possibilidade. Por mais atordoado que Trump possa parecer, seria um grave equívoco atribuir à política estadunidense sua megalômana personalidade.
Trump não é um Luiz XIV, que reinou absoluto e pôde dizer “L’ètat c’est moi”. Ele é parte de uma engrenagem muito bem azeitada da extrema-direita com feições fascistas, que está tomando o poder nos Estados Unidos com interesses claramente imperialistas de natureza expansionista, inclusive territorial, e não pretende deixar o poder quando o período da administração Trump acabar. Este projeto ultrapassa a curta expectativa de vida de Donald Trump. Daí a despreocupação do presidente com a baixa popularidade e até com a possibilidade de perder as maiorias no Congresso. Para quem governa os Estados Unidos atualmente estas são veleidades da democracia de menor importância. Isto posto, passo para o segundo ponto anunciado acima: a posição do Brasil neste cenário.
A América Latina, esquecida por décadas pelos Estados Unidos, passou a ser um espaço de conquista da extrema-direita estadunidense muito mais fácil e ao alcance da mão do que países europeus, por exemplo. Criar um polo fortalecido fascista e dominar todo um continente, afastando a influência da China, altera a posição dos Estados Unidos na geopolítica mundial. A América do Sul já está quase toda conquistada: Argentina, Paraguai, Chile, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela.
Mas há uma pedra no meio do caminho do projeto de extrema-direita, um país com 8.514.876 quilômetros quadrados, 213,6 milhões de habitantes, que ocupa a 10º posição no ranking das maiores economias do mundo. Para completar, este país tem um presidente internacionalmente considerado a maior liderança progressista de esquerda do mundo. Este país atende pelo nome de Brasil.
Os Estados Unidos não poderão completar seu projeto se deixarem esta potência continuar com sua democracia, mesmo que frágil, elegendo o incumbente para governar por mais 4 anos. Urge fazer alguma coisa! (por favor, esta atuação contra o Brasil não é porque Marco Rubio é magoadinho com Cuba! Este tipo de explicação, que circula na mídia e nas redes sociais, é ridícula.). A administração Trump vem adotando medidas espalhafatosas, como cassar vistos de ministros ou impor a Lei Magnitsky a ministros da Suprema Corte brasileira, asfixiar economicamente o país com altas tarifas para produtos industrializados e ao intervir no sistema financeiro, recorrendo à Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Neste cenário, os Estados Unidos farão tudo que estiver ao seu alcance para tirar esta pedra do caminho.
Chegamos então ao terceiro ponto que concerne às eleições presidenciais de outubro vindouro no Brasil. Antes, retrocedamos alguns anos. Por razões que não cabe discutir aqui, o país se viu, entre 2019 e 2022, governado por um parvo, ignorante, violento, misógino, mas com grande popularidade. Quando ele foi ao Estados Unidos pela primeira vez, conta-se, verdade ou não, que ao encontrar com Trump, então em seu primeiro mandato, teria declarado: I love you! Ocorre que esta figura bizarra não estava sozinha. Se é verdade que sua capacidade de entendimento de qualquer questão política é perto de zero, ele estava cercado e apoiado pela extrema-direita estadunidense, na época liderada por Steve Bannon, que se articulava com o Brasil através de uma figura taciturna, misto de filósofo com astrólogo, Olavo de Carvalho. Há uma tendência a minimizar a importância desta figura, responsável pela formação de parte da extrema-direita brasileira, principalmente os mais jovens, através de seus livros e cursos on-line.
Atualmente, mesmo com Jair Bolsonaro afastado da política, a família Bolsonaro e um grupo de fortes apoiadores se tornou a ponta de lança do projeto estadunidense de domínio sobre o Brasil. Está muito claro, porque dito com todas as letras, que o “projeto” de Flavio Bolsonaro é entregar o país aos Estados Unidos. Falou-se inclusive em um grupo de transição, que não ficou muito bem explicado, com a presença de estadunidenses próximos ao governo. Tomar o Brasil de assalto é fundamental para a realização desse plano, por isso as eleições presidenciais são uma oportunidade de ouro para as pretensões imperialistas. Para os Estados Unidos, a direita ganhar as eleições no Brasil é tirar o elefante da sala.
O avanço dos Estados Unidos é inusitado, não porque nunca tenha intervindo na política latino-americana e particularmente brasileira. Entretanto, aqui, quando agiu assim, foi de forma discreta, falando em democracia, em desenvolvimento, em aliança para o progresso, ou às escondidas, ministrando aulas de tortura para policiais e militares brasileiros em suas academias militares. Para isso, teve forte apoio da burguesia brasileira e dos partidos de direita liberal, como a UDN, em 1964. Agora os Estados Unidos não estão interessados em alianças com as classes dominantes, apostam na submissão pura e simples. Nesta nova fase do imperialismo, é muito mais confortável um Flavio Bolsonaro, um Bukele, uma Delcy Rodriguez, um Abelardo de la Espriella, como vice-reis do que um general metido a patriota e nacionalista dando um golpe.
Portanto, o momento é grave e pode definir o futuro de uma geração. Nos próximos meses e nas eleições não haverá espaço para errar. O erro significa a entrega do país ao fascismo. Se errar é humano, não sejamos humanos nesta eleição!
(*) Professora emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, cientista política e historiadora. -Fonte: Sul21

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