Recém-oficializada candidata ao Senado pelo PSOL, Manuela denuncia imagem em que seu rosto aparece riscado de vermelho no peito do adversário bolsonarista: “Na noite passada, eu tive que explicar à minha filha”
Por Ivan Longo*
A candidata ao Senado pelo Rio Grande do Sul Manuela D’Ávila (PSOL) denunciou nas redes sociais, nesta segunda-feira (27), um novo episódio de violência política de gênero envolvendo o deputado federal Luciano Zucco (PL), candidato bolsonarista ao governo gaúcho.
Na imagem publicada por Manuela, Zucco aparece sorrindo enquanto usa, no peito, um adesivo com o rosto da ex-deputada riscado em vermelho, como se fosse um alvo. Ao lado da fotografia, o material traz a inscrição “Anti-Manu”, com o pronome feminino “ela” destacado.
O gesto ocorre no momento em que as convenções partidárias oficializam as candidaturas para as eleições de outubro. Manuela foi confirmada como candidata ao Senado pela Federação PSOL-Rede no sábado (25), após seis anos afastada das disputas eleitorais.
Adesivo transforma adversária política em alvo
Ao vestir e exibir publicamente o adesivo, Zucco não apenas manifestou oposição a uma adversária. O candidato adotou uma representação que risca o rosto de uma mulher e a transforma visualmente em alvo — imagem ainda mais grave diante do histórico de ameaças sofridas por Manuela e por integrantes de sua família.
A agressão simbólica substitui o debate de projetos por uma mensagem de eliminação política. Em vez de questionar propostas ou posições da candidata, o material se organiza em torno da rejeição pessoal a Manuela, utilizando seu rosto como elemento central.
Na publicação, Manuela recordou as ameaças, mentiras e montagens violentas que recebeu ao longo da última década. Também questionou se esse será o tom da campanha eleitoral no Rio Grande do Sul e dirigiu-se diretamente a Zucco, pedindo que o candidato explique o adesivo à própria filha.
“Na noite passada, eu tive que explicar à minha”
Leia a publicação de Manuela D’Ávila na íntegra:
Eu fiquei seis anos longe da disputa eleitoral. Não foi segredo para ninguém a dimensão da violência que vivi, ao lado da minha família, na última década. Ameaças, ataques, mentiras, imagens do meu corpo mutilado circularam pelas redes como se fossem algo comum, ordinário.
Qual não foi a minha surpresa ao me deparar com a foto sorridente de um candidato a governador usando, no peito, um adesivo com o meu rosto riscado em vermelho, transformado em alvo, acompanhado de um enorme “Anti-Manu”, em que o pronome feminino “ela” aparece em destaque.
O adesivo fala por si. O sorriso do candidato fala por si. São tantas as violências presentes nessa imagem que me dou o direito de não descrevê-las. Vocês podem senti-las. Eu sei.
Vivo em um estado que é campeão de feminicídios de mulheres que haviam buscado proteção. Marcar o rosto de uma de nós — de qualquer uma de nós — é um recado claro para todas nós.
É assim que será a disputa eleitoral no Rio Grande do Sul?
Caro Zucco,
Nós estivemos juntos apenas uma vez. Foi quando o senhor, acompanhado de sua esposa e de sua filha, participou da procissão da igreja que eu frequento. Lembro de ter conversado com sua filha e comentado que ela tinha idade parecida com a da minha.
Tente explicar a ela o adesivo no seu peito.
Na noite passada, eu tive que explicar à minha.
Se o senhor conseguir olhar nos olhos da sua filha e dizer que esse é o caminho correto para defender a vida das mulheres e das meninas, siga estampando no peito meu rosto feito alvo.
Convenções oficializam os principais campos da disputa
Luciano Zucco foi oficializado candidato do PL ao governo do Rio Grande do Sul em convenção realizada na quarta-feira (22), na Assembleia Legislativa. A chapa tem a deputada estadual Silvana Covatti (PP) como candidata a vice-governadora e o deputado federal Ubiratan Sanderson (PL) como um dos postulantes ao Senado.
O bloco de direita formado por PL, PP, Novo, Republicanos, Podemos e Democracia Cristã também apoia a candidatura do deputado Marcel van Hattem (Novo) para a segunda vaga ao Senado. O Republicanos confirmou formalmente o apoio à chapa durante sua convenção no domingo (26).
O tom agressivo da campanha bolsonarista já havia aparecido na própria convenção do PL. Durante o evento, o presidente estadual da legenda, Giovani Cherini, afirmou que, daquele momento em diante, “do pescoço pra baixo é tudo canela”. A declaração foi respondida pelo presidente estadual do PDT, Romildo Bolzan Júnior, que acusou o grupo de se preparar para uma guerra, e não para um debate político.
No campo progressista, a convenção realizada no sábado oficializou Juliana Brizola (PDT) como candidata ao governo e Edegar Pretto (PT) como vice. A aliança reúne PDT, PT, PSOL, PSB, PCdoB, PV, Rede e Avante. Manuela D’Ávila e o deputado federal Paulo Pimenta (PT) são os candidatos da coligação às duas vagas do Rio Grande do Sul no Senado.
Durante o lançamento da chapa, Manuela declarou que a eleição seria a mais importante de sua vida e relacionou sua candidatura diretamente ao enfrentamento da violência contra as mulheres. “Neste Estado, sairá a voz das nossas mulheres vivas enfrentando a violência”, afirmou.
O quadro eleitoral ainda conta com Gabriel Souza (MDB), apoiado pelo grupo do atual governo estadual; Marcelo Maranata (PSDB); Rejane de Oliveira (PSTU); Priscila Voigt (UP); e César Pontes (PCO). As convenções partidárias seguem até 5 de agosto, prazo para que as legendas homologuem candidaturas e coligações.
Manuela lidera disputa ao Senado em pesquisa
O episódio envolvendo o adesivo também ocorre quando Manuela aparece em posição competitiva na corrida eleitoral. Na pesquisa Paraná Pesquisas divulgada em 22 de julho, a candidata do PSOL lidera numericamente o levantamento estimulado para o Senado, com 30,7% das intenções de voto.
Marcel van Hattem aparece com 28,6%, seguido pelo ex-governador Germano Rigotto (MDB), com 26,3%. Os três estão tecnicamente empatados. Paulo Pimenta registra 23,7%, enquanto o bolsonarista Ubiratan Sanderson tem 20,3%. Como estão em disputa duas vagas, cada eleitor poderá escolher dois candidatos.
Na corrida pelo governo estadual, Zucco aparece com 34,2%, contra 30,1% de Juliana Brizola. Os dois também estão tecnicamente empatados, considerando a margem de erro de 2,6 pontos percentuais. Gabriel Souza registra 13% e Marcelo Maranata, 4,7%.
Histórico de ameaças e montagens contra Manuela
A violência relatada por Manuela não começou na atual campanha. Durante as eleições presidenciais de 2018, quando disputou a vice-presidência na chapa de Fernando Haddad (PT), ela foi um dos principais alvos da indústria de desinformação impulsionada pela extrema direita.
Entre os conteúdos fraudulentos estavam fotografias digitalmente manipuladas que acrescentavam tatuagens de Che Guevara e Vladimir Lenin ao corpo da então candidata. Outra montagem alterou a frase estampada em uma camiseta usada por Manuela para atacar sua relação com a religião. As imagens foram desmentidas pela imprensa.
Em 2022, Manuela voltou a denunciar mensagens com ameaças dirigidas a ela, à filha, então com seis anos, e à mãe. Naquele período, afirmou que ser uma mulher pública no Brasil significava conviver permanentemente com ameaças usadas como tentativa de silenciamento.
A filha de Manuela já havia sido ameaçada durante a campanha para a prefeitura de Porto Alegre, em 2020.
É diante desse histórico que o adesivo exibido por Zucco ganha dimensão ainda mais grave. O candidato ao governo não pode alegar desconhecimento sobre as ameaças sofridas pela adversária: trata-se de uma trajetória pública, denunciada reiteradamente e que levou Manuela a passar seis anos distante das urnas.
Até o fechamento desta matéria, a Fórum não havia localizado manifestação pública de Luciano Zucco sobre a denúncia de Manuela D’Ávila. O espaço permanece aberto.
*Fonte: Revista Fórum

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