12 janeiro 2011

Artigo


Acender as luzes vermelhas  

*Caleb de Oliveira escreve:

"O Iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento, mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! - esse é o lema do Iluminismo". Immanuel Kant.([i])
 
Há tempos atrás, escrevi um comentário([ii]) no qual tentei historiar um pouco a interdependência entre religião e política e defendi que pessoas com inclinações religiosas tenham total liberdade de ocupar cadeiras nos parlamentos e em outras funções de estado. Por outro lado, critiquei a postura dos partidos e igrejas que se envolvem em uma simbiose oportunista, decorrente em grande parte do nosso personalíssimo processo eleitoral e suas mazelas, o que poderia por em risco a laicidade do estado, inscrita na Lei, na prática sob ataque.
 
No segundo turno da última campanha presidencial, as forças conservadoras representadas pela candidatura Serra utilizaram-se da temática religiosa para frear o debate político e obrigar a esquerda a um constrangedor tergiversar. O prejuízo ao processo político foi enorme, pois os grandes temas nacionais, como o desenvolvimento econômico, a inclusão social, a política externa, foram substituídos pela discussão de quem é ou não a favor da descriminalização do aborto. O que me leva a escrever esta reflexão foi a perplexidade que percebi em companheiros da esquerda uruguaia, argentina, chilena, causada pelo nosso discurso.

É preciso reafirmar o longo e doloroso processo histórico que nos trouxe até aqui. Os trabalhadores, os pobres em geral, os intelectuais progressistas, as organizações populares e os partidos de esquerda lutam há muito tempo para trazer à vida real as grandes conquistas teóricas do ocidente. A igualdade jurídica, a democracia, os direitos humanos, estão longe de ser realidade para enorme parte da humanidade. Mas, pelo menos, nos estados democráticos, os indivíduos podem adotar a filosofia de vida que bem entenderem. Podem fazer parte da organização religiosa ou política que lhes apeteça ou não filiar-se a nenhuma. Desde que não cause prejuízo a ninguém, o espaço de vida e de expressão do indivíduo está assegurado. Parte importante do mecanismo que permite isso é a garantia da laicidade do estado, não apenas como estatuto jurídico, mas como realidade palpável.
 
Como nós, partidos de esquerda, vamos prosseguir na luta pela igualdade de gêneros, se estivermos reféns eleitorais de entidades religiosas que defendem radicalmente a família tradicional, na qual a mulher é serviçal, parideira e convencida a utilizar vestes e cabelos que lhes tira a feminilidade, a mais elementar forma de expressar-se e ser no mundo? Como vamos enfrentar o terrível problema de saúde pública que é o aborto ilegal? As mulheres, para nós, têm direito de decidir o seu destino, ou nossos sócios fundamentalistas decidirão por elas e o estado continuará dando-lhes as costas? Vamos continuar lutando pela completa inclusão dos homossexuais, proporcionar-lhes o direito de união civil, ou fugir do tema para não ofender religiosos conservadores? Defendemos a ciência e a tecnologia como avanços do espírito humano e forma de melhorar a vida das pessoas, ou devemos condenar a pesquisa com células tronco, sendo cruéis com os milhões de pessoas que necessitam a cura para seus sofrimentos? Lutamos por uma sociedade de cidadãos integrais, com amplo acesso à informação, à produção artística, aos avanços da ciência e da cultura, ou achamos bonito que os jovens só estejam autorizados a ouvir certo tipo de música, ler certos livros, assistir certos programas de TV, e internet e cinema, nem pensar?
 
É claro que eu defendo que os setores religiosos conservadores tenham todo o direito de expressão e organização na sociedade, incluindo o elementar direito de participação política em todos os âmbitos. Mas nós, os partidos de esquerda, somos, e precisamos continuar a ser, herdeiros do iluminismo. Não temos o direito de abrir mão de nossa capacidade de pensar livremente e expressar-nos livremente. Não podemos ser reféns de ninguém e muito menos de abrirmos mão de nossas lutas que são as lutas dos excluídos, dos discriminados, dos que têm fome de pão e de igualdade. É por essa razão que penso que devemos acender as luzes vermelhas, nos dois sentidos que percebo na frase.

*Caleb de Oliveira (foto) é presidente Estadual do PSB. 
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([ii]) http://www.caleb.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=45:politica-religiao-preocupacoes&catid=34&Itemid=53


2 comentários:

Luciano Dias disse...

Oi, Júlio, meu nome é Luciano, moro em Goiânia, formado em História pela Universidade Federal de Goiás, e na época da militância estudantil eu escrevia alguns textos, e criei um blog há muito tempo a fim de postar alguns dos textos que escrevi. Agora eu resolvi reativar o blog, fazer dele um blog bem sujo, e voltar a militar novamente, depois de ter trabalhado muito pela internet durante a última campanha eleitoral para presidente, seja respondendo a e-mails mentirosos de Soninha Francine/Serra, seja no twitter. Dessa forma, informo ao senhor que estou seguindo vocês e peço para que coloque o link de meu blog em sua lista, fico muito agradecido e parabéns pelo seu trabalho. Valeu! - http://asarvoressaofaceisdeachar.blogspot.com/

JÚLIO CÉSAR SCHMITT GARCIA disse...

Já estás linkado, Luciano. Abraço, obrigado pelo comentário e boas vindas à blogosfera!